Não teve um apagão de seis minutos. O Barcelona foi completamente dominado pelo Bayern de Munique, mais do que o Brasil pela Alemanha em 2014, como observou Thomas Müller, presente nas duas partidas, mas as circunstâncias do 8 x 2 do Estádio da Luz lembraram tanto o 7 x 1 do Mineirão que houve até o “Momento Schürrle”, protagonizado por Philippe Coutinho, autor dos últimos dois gols da partida.

O “Momento Schürrle”, para quem não se lembra, ou propositalmente tenta esquecer, foi quando André Schürrle entrou no segundo tempo da semifinal da Copa do Mundo e, querendo cavar uma vaguinha no time, tirou o jogo do marasmo e transformou uma banal goleada por 5 x 1 no placar mais famoso da história.

Coutinho não queria cavar uma vaguinha no time porque sua saída do Bayern de Munique já foi confirmada, mas talvez estivesse um pouco mais motivado do que o resto por estar enfrentando o time que detém o seu contrato. Vontade de mostrar serviço misturada com a de provar que o o motivo de sua apagada passagem pelo Camp Nou tem mais a ver com o projeto esportivo falido do Barcelona do que com ele próprio, e uma pitadinha de vingança pela maneira como seu sonho foi despedaçado.

Coutinho justificou a forçada de barra para sair do Liverpool dizendo que seu sonho sempre foi defender o Barcelona, e a contratação que parecia interessante foi se tornando cada vez mais frustrante. Não encaixava no sistema de Ernesto Valverde nem pelo lado do campo na linha de quatro, nem foi bem sucedido o teste como meia central que começou com Jürgen Klopp e se estendeu para a seleção brasileira. Talvez ficasse mais à vontade como o camisa 10 atrás do centroavante. Mas esse cara no Barça era Lionel Messi.

O Barcelona não teve mais do que 18 meses de paciência com Coutinho, apenas uma temporada completa com preparação e pré-temporada, antes de sinalizar ao mercado que ele estava à venda. Tentou inclui-lo na desesperada tentativa de repatriação de Neymar, incitou o interesse de clubes ingleses e no fim o emprestou ao Bayern de Munique na esperança de que ele arrebentasse para que o alto investimento de quase € 145 milhões fosse recuperado.

Sempre foi muito difícil que o Bayern de Munique exercesse a cláusula de opção de compra avaliada em € 120 milhões. Não é o perfil bávaro. Coutinho teria que comer a bola de forma assombrosa e, embora tenha tido seus momentos, passou longe de fazer isso. O time embalou com ele em um papel secundário e chegou a se machucar ao fim da temporada. Disputou apenas um jogo da Bundesliga pós-paralisação – o último – e não começou nenhuma das partidas de mata-mata da Champions League.

Agora está mais uma vez em uma encruzilhada na sua carreira e, aos 28 anos, não pode tomar a decisão errada. É difícil que fique no Barcelona, pela necessidade do clube em fazer caixa com sua venda, a menos que o próximo treinador seja uma grande fã do seu futebol e bata o pé para que fique. O rumor mais forte do momento é um retorno à Premier League para defender o Arsenal, no começo de um projeto com Mikel Arteta, ainda distante de brigar pelos principais títulos da Europa – como faz o Liverpool, como queria fazer o Barcelona, como faz o Bayern.

Pena que a carreira de um dos jogadores brasileiros mais talentosos da sua geração tenha se encaminhado dessa maneira, em parte pelas suas próprias decisões, mas pelo menos ele conseguiu ir um pouco à forra nesta sexta-feira. Levar dois gols de um jogador com o qual tem contrato na pior derrota da sua história foi um doloroso sal na ferida do Barcelona.

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