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A Alemanha se safou do rebaixamento na última Liga das Nações graças à mudança de regulamento, que aumentou o número de participantes na primeira divisão. A competição, ainda assim, marca um período de frustrações ao Nationalelf. Joachim Löw foi mantido à frente da equipe nacional depois do fracasso na Copa de 2018 e até cumpriu seu objetivo no biênio com tranquilidade, a classificação à Euro 2020. Entretanto, o novo torneio da Uefa é uma pedra no sapato aos germânicos e expõe suas mazelas. A Data Fifa, aliás, serviu para aumentar as críticas e gerar pertinentes questionamentos na DFB.

Assim como aconteceu com Vicente del Bosque na Espanha, há um clima de fim de ciclo na Alemanha, apesar da insistência em seu comando. Joachim Löw não conseguiu manter o nível de rendimento após o tetracampeonato mundial e, numa renovação capenga, a Euro 2016 até mascarou o tamanho do problema vivido pela Mannschaft. No entanto, a Copa de 2018 reforçou as deficiências de Löw existentes desde antes do Mundial do Brasil e a Liga das Nações enfatizam a incapacidade do treinador em encontrar um novo caminho.

Trocar uma geração campeã do mundo nunca é fácil. A Alemanha perdeu aos poucos a espinha dorsal campeã em 2014, sobretudo as lideranças. Miroslav Klose e Philipp Lahm foram os primeiros a se despedirem da equipe nacional, antes de Bastian Schweinsteiger e (apesar dos pesares) Lukas Podolski também encerrarem sua trajetória após a Euro 2016. Sem o quarteto, a Mannschaft pareceu perder seu norte. Insistiu em jogadores que não estavam bem às vésperas do Mundial da Rússia e, com uma equipe sem os verdadeiramente melhores em campo, pagou a consequência pela eliminação precoce. Foi uma péssima Copa dos alemães tecnicamente, mas ainda pior na tática e na falta de comando.

O passo óbvio seria trocar o técnico e agradecer Joachim Löw por seus serviços prestados. Contudo, a federação resolveu dar um voto de confiança ao treinador e deixar as cartas em suas mãos para a renovação. Se Löw não saiu, a sua resposta viria ao afastar os medalhões do elenco. Mesut Özil saiu em meio a um imbróglio tremendo, pessimamente gerido pela DFB, mas nem de longe faz por merecer uma convocação hoje em dia. Os afastamentos de Mats Hummels, Jérôme Boateng e Thomas Müller também pareciam fazer sentido na época, pela queda acentuada do trio no ponto de vista técnico. Dois anos depois, porém, Löw deveria repensar essa decisão.

Mesmo com a presença de Manuel Neuer e Toni Kroos como referências da geração tetracampeã, a Alemanha parece carecer de lideranças neste momento. Há bons talentos e jogadores para formar uma equipe competitiva. Mas os deslizes são frequentes e não se nota aquele Nationalelf com a faca nos dentes, que tanto costuma aparecer nas grandes competições. O time não se impõe e cede muitos gols até mesmo a adversários de menor relevo, como bem se viu diante de Suíça e Turquia. As Eliminatórias da Euro não ofereceram grandes desafios, exceção feita à Holanda / Países Baixos. Já na Liga das Nações, onde a frequência de adversários de peso é maior, os alemães não conseguem corresponder.

A volta de Thomas Müller não é imprescindível. A Alemanha tem ótimas alternativas no setor e, dentre os poucos pontos positivos na Data Fifa, está o entendimento entre Kai Havertz e Timo Werner no setor ofensivo. De qualquer maneira, diante de tudo o que o atacante jogou pelo Bayern na última temporada, também não dá para prescindir de seus serviços. Müller se mostra um jogador cada vez mais maduro e, sob as ordens de Hansi Flick, sua reconhecida inteligência tática passou a beneficiar mais o time. Seria no mínimo interessante contar com um atleta de sua estatura para coordenar o setor – especialmente quando um Julian Draxler da vida permanece com espaço na equipe.

Hummels e Boateng, por outro lado, se mostram até necessários. É preciso lembrar como a falta de velocidade é um problema recorrente a ambos, algo que gerou pesadelos na Copa de 2018 e que continua sendo uma carência em seus clubes. Mas não que Antonio Rüdiger, Matthias Ginter ou outras opções disponíveis no momento sejam tão possantes. Tecnicamente recuperados, Hummels e Boateng superam os demais zagueiros alemães. E ambos vêm de boas temporadas, em recuperação. O jogador do Borussia Dortmund não atua em uma defesa segura, mas é a base do time e possui uma qualidade excepcional na construção. Da mesma forma Boateng terminou em alta com o Bayern, mas depende de um sistema sólido.

A Alemanha possui uma base boa e alternativas interessantes que surgem. Joshua Kimmich, Leon Goretzka, Kai Havertz, Serge Gnabry, Julian Brandt e Timo Werner representam o grupo de jogadores que precisa impulsionar a Mannschaft. Robin Koch, Robin Gosens, Niklas Süle, Florian Neuhaus e Leroy Sané são outros que podem ascender neste momento de transição, em que há espaço para chamarem a responsabilidade. Mas falta segurança defensiva e falta tarimba. Joachim Löw precisaria de humildade para repensar as aposentadorias compulsórias, ao mesmo tempo em que os medalhões teriam que deixar de lado a vaidade.

A situação na Liga das Nações está longe de ser perdida, apesar do excesso de empates. A Alemanha tem seis pontos e ocupa a segunda colocação de seu grupo. A liderança está com a Espanha, um ponto à frente, que encara problemas parecidos e até mais duradouros, além de não contar com jogadores tão prontos assim para assumir o protagonismo. Todavia, a Mannschaft precisará corresponder dentro de campo, especialmente no confronto direto com a Roja que acontece em Sevilha. É difícil imaginar que uma eliminação precoce na Liga das Nações gerará uma revolução, mas certamente aumentará a pressão sobre o vencedor.

Resta saber o rumo que a Alemanha deseja tomar. Löw nunca foi um técnico muito inventivo do ponto de vista tático e o sucesso de Hansi Flick no Bayern de Munique enfatiza a importância que o antigo assistente tinha nos mecanismos do time campeão em 2014. Os bávaros podem até servir de base ao trabalho coletivo da Mannschaft, como aconteceu em outros momentos, mas também é preciso tomar consciência como isso representa perdas em outros lados e características mal aproveitadas na seleção.

A Alemanha não possui laterais tão bons quanto os do Bayern, como acontecia em outros tempos, e isso é uma lacuna tremenda até pela amplitude que se nota no clube. Kimmich pode até ser adaptado por ali, mas hoje parece um desperdício tirá-lo do meio. Da mesma forma, falta um centroavante de área na Alemanha que reproduza minimamente o impacto de Lewandowski na Baviera. Löw, em compensação, pode aproveitar muito mais a mobilidade e a velocidade de seus homens de frente com as peças à disposição – o que deveria ajudar em embates mais parelhos, contra oponentes que não se retrancam, como o caso da Liga das Nações. Mas o treinador não parece mais capaz de extrair isso de seu time.

Independentemente dos nomes em campo, jovens ou veteranos, a renovação da Alemanha deveria passar necessariamente por uma mudança de ideias. E isso significaria reconhecer que, mesmo com o passado vitorioso ou com o conhecimento adquirido em 14 anos de trabalho, Löw não vai trazer uma transformação de mentalidade e nem grandes incrementos táticos para representar uma quebra. A falta de perspectivas e os resultados mornos ligam o sinal de alerta. Mas é capaz que apenas outro fracasso na Euro leve os dirigentes alemães a agirem como já deveriam ter feito.