A notícia é tão surpreendente quanto bombástica: Jorge Jesus está trocando o Benfica pelo Sporting. Depois de seis anos e três títulos nacionais no comando dos encarnados (incluindo um bicampeonato que não acontecia há 31 anos), o treinador vai atravessar os três quilômetros que separam a Luz de Alvalade e, pelas próximas três temporadas, será técnico dos leões.

A opção de Jesus tem um misto de coragem e loucura. Coragem por aceitar o desafio nada fácil de se tornar vencedor no Sporting atual, de trabalhar com alguém de temperamento tão difícil como o presidente Bruno de Carvalho e de jogar para o alto o carinho que tinha do lado vermelho de Lisboa. Loucura porque pode passar de ídolo a persona non grata para uma torcida que tanto o exaltou nos últimos anos e com quem vibrou e chorou junto tantas vezes.

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A rivalidade entre Benfica e Sporting é o que primeiro chama a atenção no negócio que está por se concretizar. Mas não é o único fator que deve ser levado em consideração nessa história cheia de detalhes – muitos dos quais, provavelmente, só virão à tona ao longo do tempo.

Comecemos pela saída de Jesus dos encarnados. Com contrato vencendo no final de junho, ele e o presidente Luís Filipe Vieira chegaram a esboçar uma negociação para renovação do vínculo. O técnico ganhava cerca de € 4 milhões por ano no clube e teria pedido mais para permanecer.

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A questão financeira teve seu peso, mas não foi decisiva para que as partes não chegassem a um acordo. Isso porque Vieira pode ter se convencido de que o ciclo de Jesus havia chegado ao fim – assim como a própria paciência do presidente, que sabe que o clube carece de melhores participações no cenário internacional. O surgimento das notícias que davam conta da negociação do técnico com o Sporting foi a senha para que o Benfica anunciasse publicamente que estava encerrando as negociações.

Luís Filipe Vieira não fez questão de esconder sua mágoa com o agora ex-técnico. Num jantar que reuniu deputados benfiquistas e sócios do clube na quinta-feira (4), ele fez um discurso duro, que não chegou a citar o nome de Jesus, mas que claramente tinha nele o seu grande alvo. “Uma das maiores virtudes que aprecio nas pessoas é a gratidão. A gratidão define o caráter das pessoas”, afirmou Vieira. E acrescentou: “Não há insubstituíveis nesta casa, mesmo que alguns pensem que o são. Estou desiludido, mas não surpreendido.”

Jorge Jesus, durante a confusão após o jogo do Benfica (AP Photo/Paulo Duarte)
Jorge Jesus, durante a confusão após o jogo do Benfica (AP Photo/Paulo Duarte)

Jorge Jesus encarnou o espírito benfiquista nos seis anos em que comandou o time. Algumas imagens que ele protagonizou entraram para a história e já estão no imaginário coletivo dos encarnados: como a dele caindo de joelhos ao ver o gol de Kelvin dar o título ao Porto no último minuto do clássico de 2013, ou empurrando policiais para defender torcedores do clube após um jogo em Guimarães ou ainda se jogando nos braços da própria torcida para comemorar o título português, em 2014.

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Até por isso, está claro que o Benfica não engoliu a opção do treinador. Ainda que talvez não pretendesse renovar o contrato, o clube não esperava que ele partisse logo para o grande rival de Lisboa. A mágoa benfiquista fica evidente não só nas palavras do presidente, mas em ações como apagar a foto do treinador da imagem que mostra os campeões de 2014/15 na loja oficial do clube.

Fecha uma porta, abre outra

O técnico só comentou o assunto por meio de uma nota enviada aos órgãos de imprensa. “Diz-se que na vida por cada porta que se fecha, uma outra se abre”, escreveu. Na mesma nota, ele afirmou ter vivido no Benfica “alguns dos momentos mais felizes e marcantes” de sua vida profissional. E finaliza: “Parto, com a consciência do dever cumprido, grato pelo carinho e oportunidade com que fui brindado ao longo deste período.”

A porta de Alvalade não apenas se abriu, mas se escancarou, à frente de Jesus. Há quem diga que as negociações começaram por conta de um encontro casual que ele teve com o presidente leonino, Bruno de Carvalho, num restaurante. Mas, independentemente de como as tratativas tiveram início, o fato é que o negócio é muito bom para Jesus do ponto de vista financeiro.

Jorge Jesus

O contrato do técnico com o novo clube será de três anos. Entre salários e premiações, ele receberá cerca de € 6 milhões por temporada, ou seja, 50% a mais do que faturava no Benfica.

Como o Sporting ainda passa por um processo de reestruturação financeira e, ao que se sabe, não tem caixa para arcar com um negócio desse tamanho, a primeira dúvida que surgiu foi de onde viria o dinheiro para contratar Jesus. A resposta estaria em Álvaro Sobrinho, um empresário angolano que detém 30% de participação na Sociedade Anônima Desportiva do clube e que teria se juntado a empresas da Guiné Equatorial para viabilizar o negócio. Em nota oficial, porém, os leões negaram a operação financeira.

Além do dinheiro, o que pesou para o treinador aceitar a loucura (ou ter a coragem?) de trocar a Luz por Alvalade foi também sua própria ligação com o Sporting. Virgolino de Jesus, pai do técnico, jogou pelo time entre 1943 e 1945 e tornou toda a família sportinguista. Não à toa, uma das providências tomadas por Jorge Jesus nos últimos dias foi visitá-lo – atualmente com 90 anos de idade e com a saúde bastante debilitada, Virgolino vive em um asilo.

Sobrou para Marco Silva

Mas se Jorge Jesus vai para Alvalade, quem está lá atualmente tem de sair. E foi aí que as flechas da confusão apontaram para Marco Silva. Nem mesmo a emocionante conquista da Taça de Portugal na decisão por pênaltis (após empatar por 2 a 2 com o Braga, num jogo que perdia por 2 a 0 até os minutos finais) foi suficiente para apagar as antigas rusgas do treinador com o presidente e mantê-lo no cargo.

Trabalhar com Bruno de Carvalho não é fácil. O mandatário sportinguista tem personalidade forte, não gosta de ser contrariado e muitas vezes age por impulso. Marco Silva sentiu isso na pele, ao ter de administrar problemas que não tinham motivos para existir.

“Livrar-se” do treinador era um desejo de Bruno de Carvalho desde o meio da temporada, como a coluna mostrou em dezembro. Agora, com a iminente contratação de Jorge Jesus, a oportunidade parecia perfeita. Mas o presidente não se contentou em pagar a multa rescisória, agradecer pelos serviços prestados e demitir o treinador – o que seria um direito do clube. Ao invés disso, optou pela demissão por justa causa, o que acrescentou mais um capítulo de polêmicas na conturbada história.

Dentre os motivos alegados pelo Sporting para a justa causa está o fato de Marco Silva supostamente não ter utilizado a vestimenta oficial do clube numa partida contra o Vizela, em dezembro, pelas oitavas de final da Taça de Portugal. Não bastasse o absurdo de uma demissão por esse motivo, uma imagem recuperada pelo canal local SporTV mostra o treinador trabalhando normalmente com o agasalho do clube, naquele dia.

O processo contra Marco Silva tem 400 páginas. Nele, o técnico é acusado de “quebra de confiança e do dever de lealdade”. Declarações dadas pelo treinador em entrevistas coletivas, que teoricamente teriam ferido as normas de conduta do clube, estão no centro da discussão. Marco Silva deve recorrer à Justiça do Trabalho portuguesa para tentar receber os valores da rescisão contratual.

E o futuro?

O próprio Marco Silva é um nome ventilado para ser o próximo treinador do Benfica. Mas quem aparece mais forte no momento é Rui Vitória,do Vitória de Guimarães.

No Sporting, a expectativa é em saber com que elenco Jorge Jesus poderá contar. Afinal, de nada adianta o clube investir na contratação de um treinador desse porte se não reforçar o grupo.

Encontro marcado

Eis a grande ironia do destino: a primeira partida da próxima temporada será justamente o clássico entre Benfica e Sporting. Os rivais jogarão pela Supertaça de Portugal, no dia 9 de agosto.

Nota: a coluna trará na semana que vem o balanço da temporada 2014/15 do futebol português.