Ao torcedor do St. Pauli, o Dérbi de Hamburgo representa uma longa travessia no deserto. Raros foram os momentos em que o clássico realmente viveu um equilíbrio de forças, e eles estão praticamente restritos à primeira metade do século passado. Diferentes gerações de fiéis à camisa marrom viram o Hamburgo apenas como um gigante à distância, quase sempre divisões acima e hegemônico nos parcos duelos. Ao longo dos últimos 59 anos, as únicas duas vitórias do St. Pauli sobre os rivais aconteceram como visitantes. Assim, o clássico desta segunda se transformou na esperada chegada à terra prometida. Pela primeira vez desde a inauguração do Estádio Millerntor, os Piratas derrotaram os Dinossauros lá dentro. O triunfo por 2 a 0 foi o primeiro como mandantes desde fevereiro de 1960. E o oásis que marca o fim da seca, na verdade, é feito pelo brilho flamante dos fogos de artifício, em uma festa aguardada por seis décadas.

Desde o primeiro dérbi, em 1924, Hamburgo e St. Pauli se enfrentaram 93 vezes. Os Dinossauros possuem 59 vitórias, contra apenas 20 dos Piratas. Além do mais, 16 triunfos do St. Pauli aconteceram até os anos 1950. Aquela vitória de 1960, que antecedeu a seca no Millerntor (inaugurado em 1963), também marca uma passagem de eras. Até então, os encontros costumavam ser anuais, dentro das divisões regionais do Campeonato Alemão. A criação da Bundesliga em 1963/64 separou os rivais e restringiu o clássico ao embates nas copas, bem como às raras ocasiões em que o St. Pauli ascendeu à primeira divisão. Isso até o inédito rebaixamento do Hamburgo, em 2018.

Não foi a queda do Hamburgo, porém, que rompeu de imediato a freguesia do St. Pauli no dérbi. Depois do empate por 0 a 0 no Volksparkstadion, os Dinossauros atropelaram os rivais dentro do Millerntor pelo segundo turno da Bundesliga. Numa partida de clima fervilhante, os visitantes golearam por 4 a 0. Como a maioria absoluta dos clássicos acontecia no próprio Volksparkstadion por conta da capacidade das arquibancadas, este triunfo também havia sido o primeiro do Hamburgo dentro da casa do St. Pauli desde 1962 – ainda às vésperas da inauguração do Millerntor.

Já nesta segunda-feira, o velho desejo da torcida do St. Pauli se cumpriu. Líder da 2. Bundesliga, o Hamburgo era mais uma vez favorito ao clássico. Enquanto isso, os Piratas precisavam da vitória para respirar na corrida contra o rebaixamento. Dimitros Diamantakos aproveitou o rebote de uma bola na trave para abrir o placar aos 18 minutos. Já no segundo tempo, um gol contra de Rick van Drongelen selou a vitória dos Piratas. A ansiedade pelo apito final era tão grande que, já nos instantes derradeiros dos acréscimos, os sinalizadores obrigaram que a bola parasse de rolar e anteciparam a confirmação do resultado.

Então, bastou à torcida do St. Pauli extravasar. Atrás de ambos os gols, os fogos de artifício arderam intensamente. De um lado, os Piratas agitavam os sinalizadores. Do outro, os foguetes rasgavam os ares. Era uma noite como nunca antes o Millerntor havia experimentado. Tamanha euforia tem seus motivos. E só os próprios torcedores marrons sabem explicar o que o desafogo significa ao clube.

A resultado deixa o St. Pauli no meio da tabela. Alcança a décima colocação, com oito pontos. Já o Hamburgo perdeu a liderança da segundona, um ponto atrás do Stuttgart, que preserva sua invencibilidade. A caminhada será longa aos dois clubes, ao que parece, em objetivos distintos. Igualmente longa será a madrugada na cidade de Hamburgo, para uma torcida que pôde sorrir como gerações não faziam depois de um dérbi em casa.