O Chelsea faz, com certas sobras, o melhor mercado desta janela de transferências. O salto de qualidade à disposição de Frank Lampard é notável – em diferentes setores e com jogadores que poderão evoluir em Stamford Bridge. Nesta sexta-feira, os Blues confirmaram aquela que se sugere como a “cereja do bolo” no ataque londrino: Kai Havertz aumentará o potencial da equipe. O prodígio havia manifestado sua intenção de deixar o Bayer Leverkusen e, apesar da alta pedida, o Chelsea conseguiu chegar a um acordo. A transação do garoto de 21 anos é estimada num pacote total de €100 milhões, segundo a revista Kicker, embora o Guardian fale em total de €80 milhões. O contrato é de cinco anos.

“Estou muito feliz e orgulhoso por estar aqui. Para mim, é um sonho que se torna realidade jogar por um grande clube como o Chelsea e mal posso esperar para conhecer os jogadores e a comissão técnica. Sim, estou muito feliz em estar aqui!”, afirmou Havertz, em sua apresentação. O garoto estava concentrado com a seleção alemã, mas ganhou liberação para viajar a Londres. Posou ao lado do técnico Frank Lampard em sua assinatura.

A trajetória de Havertz pelo Leverkusen fala por si e justifica o alto investimento realizado pelo Chelsea. Desde 2016/17, quando foi lançado na equipe principal, o prodígio se tornou um dos melhores jogadores do time. Não sentiu a transição como profissional e, durante as duas últimas temporadas, esteve entre os principais destaques da Bundesliga. Foram 150 aparições pelo clube, suficientes para acumular 46 gols e 31 assistências. O garoto quebrou recordes na BayArena, participou de campanhas importantes com o clube e alcançou seleção principal da Alemanha, inclusive com algumas partidas como titular.

Havertz vinha de uma temporada excelente em 2018/19, quando levou o Leverkusen à Champions, atuando como meia ofensivo ou como ponta direita. O início da campanha passada na Bundesliga não foi tão bom e havia certa cobrança sobre o jovem. Sua recuperação, então, aconteceu atuando mais adiantado no ataque – muitas vezes como um homem de referência. O segundo turno de Havertz no último Campeonato Alemão foi espetacular, com muitos gols e assistências, além de aparições com a braçadeira de capitão. Também contribuiu amplamente para que os Aspirinas alcançassem a decisão da Copa da Alemanha.

Com moral, Havertz indicou sua preferência por buscar novos rumos e integrar um clube de Champions League. A situação do mercado por conta da pandemia indicava menos portas abertas, mas o cenário beneficiou o Chelsea. Após os embargos nas últimas janelas e as saídas de jogadores importantes, os Blues ficaram com um considerável saldo positivo em busca de reforços e também com folga na folha salarial. Assim, viraram também os principais candidatos a tirarem Havertz da BayArena. Sem outros concorrentes numa transação de nove dígitos, os londrinos conseguiram bancar a cifra alta pedida pelo Leverkusen.

“Kai jogou pelo nosso clube durante dez anos, quatro no time principal. Durante esse período, ele se tornou um jogador de seleção e, apesar de sua idade, conquistou resultados extraordinários. Ele já é um jogador de primeira classe, certamente um dos melhores que passaram pelo Leverkusen na história do clube. Nos próximos anos, Kai poderá se provar como o grande jogador que é numa liga tão exigente como a inglesa”, afirmou Rudi Völler, diretor esportivo do Bayer Leverkusen.

Uma visão que complementou Simon Rolfes, também dirigente dos Aspirinas: “Logicamente é uma perda esportiva. Kai é um jogador maravilhoso, que tem futuro na Premier League e na seleção alemã. Ele certamente se colocará no mais alto nível e dará um ótimo exemplo sobre como as revelações do Leverkusen podem se desenvolver – encorajados e formados em um time com grandes oportunidades”. Caso a cifra de €100 milhões se confirme, Havertz se torna a segunda maior venda da história da Bundesliga, atrás apenas de Ousmane Dembélé, quando trocou o Borussia Dortmund pelo Barcelona.

Em Stamford Bridge, Havertz deve ser um coringa nas mãos de Lampard. Poderá se encaixar como atacante, meia ou ponta, providenciando também variações ao sistema tático dos Blues. Por todas as opções presentes, é até difícil de apostar em uma equipe titular do Chelsea. Havertz, de qualquer maneira, se candidata a aparecer com frequência nas escalações – especialmente como meio-campista. A qualidade técnica, a capacidade de finalização e a facilidade para os dribles se tornam armas. Além disso, é um jogador com talento para se associar com os companheiros e criar excelentes chances através de seus passes, assim como possui boa capacidade física.

“Kai é um dos melhores jogadores do mundo em sua idade, então estamos muito felizes que seu futuro estará no Chelsea. Ele provou sua qualidade em uma das melhores ligas da Europa, joga pela seleção e é um talento empolgante, dinâmico. Estamos contentes por adicionar sua versatilidade e sua qualidade ao elenco antes que a temporada comece”, analisou Marina Granovskaia, diretora do Chelsea e uma das grandes responsáveis pelo mercado fantástico realizado pelos londrinos.

Havertz é o sexto reforço do Chelsea na atual temporada. Os primeiros trazidos foram Timo Werner e Hakim Ziyech. Já nas últimas semanas, os Blues olharam um pouco mais ao sistema defensivo e buscaram Ben Chilwell, Thiago Silva e Malang Sarr – os dois últimos, sem custos. No total, os Blues desembolsaram €223 milhões até o momento – projetando o negócio inicial por Havertz em €80 milhões. Entre os que saíram estão Willian e Pedro, além de negócios arrematados por jogadores que já estavam em outros destinos, a exemplo de Álvaro Morata e Mario Pasalic.

O Chelsea havia gastado cerca de €250 milhões nas duas últimas temporadas – incluindo aí o embargo em 2019/20, que impediu os Blues de contratarem. Os novos investimentos, além do mais, serão amortizados ao longo dos contratos desses novatos – divididos ao longo do período de vínculo. Por outro lado, os Blues também fizeram um bom caixa no mercado recente. São mais de €290 milhões em vendas desde 2018/19, com o principal saldo feito após a saída de Eden Hazard ao Real Madrid. Além disso, o adeus de alguns dos jogadores mais tarimbados do plantel (Willian, Pedro, Hazard, David Luiz, Gary Cahill, Thibaut Courtois, Cesc Fàbregas) contribuíram ao enxugamento da folha salarial.

Tal situação permite movimentos mais incisivos dos londrinos no mercado de transferências. O clube tem escape para não quebrar as regras do Fair Play Financeiro, ainda mais com as margens ampliadas pela Uefa por conta da pandemia. E, numa janela em que os principais concorrentes absorvem os impactos da crise, o Chelsea consegue se impor desta maneira. O que é um cenário delicado à maioria dos clubes virou uma grande oportunidade a Roman Abramovich, valorizando seu negócio.

É possível que algumas movimentações a mais sejam realizadas pelo Chelsea durante as próximas semanas. O clube não está contente com Kepa Arrizabalaga e deve procurar um novo goleiro. Segundo a Sky Sports, as conversas se concentram sobre André Onana, Jan Oblak, Nick Pope e Mike Maignan – este, o favorito no momento, após surgir como destaque no Lille. Também não surpreenderá a vinda de mais alguma opção confiável para a zaga. A janela nesta temporada vai até 5 de outubro.

Potencial campeão ao futuro, considerando toda a margem de crescimento de seus jovens valores, o Chelsea também está muito mais forte do que na última Premier League. A questão maior será a pressão pelos resultados. Se existiam diversas desculpas na manga de Lampard em 2019/20, como a falta de experiência e o embargo no mercado, desta vez a cobrança será maior. É preciso se pensar na adaptação de muitos desses jogadores à Premier League, o que ainda deixa os Blues abaixo de Liverpool ou Manchester City na briga ao título. De qualquer maneira, superar os demais concorrentes vira obrigação em Stamford Bridge.