“Rooney é o jogador inglês mais talentoso que vi desde que cheguei neste país”. A constatação de Arsène Wenger soa atual, embora tenha sido feita há uma década. O garoto de 16 anos soltou a bomba de fora da área marcou o gol da vitória do Everton sobre o Arsenal, encerrando uma invencibilidade de 30 jogos dos Gunners. Era o atleta mais jovem a balançar as redes pela Premier League. O dia 19 de outubro de 2002 marcava o surgimento de Wayne Rooney.

Dez anos e um dia depois daquele primeiro gol, o atacante viveu um novo final de semana especial. O camisa 10 foi o protagonista na virada do Manchester United sobre o Stoke City, no sábado. O “hat-trick” contou com um gol contra que deixou os Potters em vantagem, mas também com dois a favor, que marcaram a redenção. São 184 tentos com os Red Devils, outros 15 com o Everton e mais 32 pela seleção, balançando as redes mais vezes no período do que qualquer outro compatriota ou jogador que tenha passado pela EPL.

Neste hiato, Rooney conviveu com o peso de ser a maior esperança do futebol inglês. Depois de dar as costas à aposta feita pela torcida do Everton, enfileirou títulos em Old Trafford. Foram quatro Campeonatos Ingleses e uma Liga dos Campeões, justificando os € 37 milhões pagos em sua transferência – ainda hoje, é o jogador sub-20 mais caro da história. Porém, depois de estrear como revelação da Euro 2004, o astro ainda está em débito com a Inglaterra.

O contraste entre o desempenho no clube e na seleção muitas vezes coloca o talento de Rooney em xeque. As decepções nas Copas do Mundo de 2006 e 2010 corroboram a teoria. A Euro 2012 foi uma oportunidade de recuperar o moral, mas o atacante foi mais um operário no time de Roy Hodgson. E é com essa imagem que o jogador de 26 anos encaminha sua carreira, pronto para se tornar não apenas o próximo capitão do English Team, como também o maior artilheiro e o jogador com mais partidas na equipe nacional – se mantiver suas médias, baterá ambos os recordes antes de completar 32 anos.

Rooney não se tornou um jogador capaz de carregar seus times nas costas, como muitos esperavam que ele fizesse, especialmente na sempre carente seleção. No entanto, não é por isso que a pecha de craque seja desmerecida. É um jogador que funciona coletivamente, especialmente quando não centraliza as atenções do time.

Foi assim em seus primeiros anos no Manchester United, quando Cristiano Ronaldo ocupava o posto de estrela da companhia. Quando o português foi atraído pelos milhões do Real Madrid, Rooney não negou o papel principal, melhorando seu desempenho e ajudando o time a chegar na decisão da Liga dos Campeões. O atacante manteve média de 0,68 gols por jogo desde então, bastante superior à marca de 0,41 registrada nas cinco temporadas anteriores no clube.

As dúvidas se renovaram com a chegada de Robin van Persie, que seria um potencial concorrente para o posto do inglês. Realmente, Rooney deixou de ser a referência no ataque dos Red Devils, mas emerge como um meia central bem mais participativo na engrenagem do time. A despeito dos dois gols que marcou, o camisa 10 já soma seis assistências na Premier League e na Liga dos Campeões – em seis jogos, igualou a marca de toda a temporada 2009/10, quando foi eleito  o craque da temporada pela PFA e pela Premier League.

Comparado com o jogador que estourou no Everton e se confirmou no United, Rooney se tornou bem mais completo. O empenho segue como sua principal marca, mas hoje sabe explorar bem mais sua técnica fora da grande área. Além disso, também ganhou maturidade, especialmente após a controversa expulsão contra Montenegro nas eliminatórias da Euro. Com a cabeça no lugar, tem mais de manter-se em alto nível. Quem sabe, por mais dez anos, conquistando o título que falta com a seleção para acabar com as dúvidas sobre sua capacidade.

Danos não só ao futebol

Rooney foi a estrela do Manchester United, mas acabou ofuscado por mais uma polêmica envolvendo Rio Ferdinand. Em uma semana na qual Danny Rose foi vítima de insultos em partida pela seleção sub-21, os jogadores da EPL foram incentivados a utilizar a camisa da organização “Kick It Out”, que combate o racismo no futebol inglês. Entretanto, o zagueiro recusou-se a entrar na campanha.

O gesto causou a insatisfação de Sir Alex Ferguson, que logo manifestou seu descontentamento com a postura do atleta. A atitude de Rio Ferdinand deverá ser punida pelo United, embora o defensor já tenha recebido o apoio da associação de jogadores profissionais. Porém, mais importante que a recusa em si, é a mensagem que Ferdinand quer transmitir – ainda mais pelo envolvimento direto no caso de John Terry.

Ferdinand, aliás, não foi o único a protestar contra a campanha. Quinze jogadores também boicotaram as camisetas, entre eles Anton Ferdinand, Joleon Lescott, Djibrill Cissé, Steven Pienaar e Ryan Shawcross. Na partida entre Swansea e Wigan, nenhum dos dois times encampou a ideia. Já a crítica mais contundente foi feita pelo atacante Jason Roberts, do Reading, que declarou os esforços antirracismo insuficientes. Em apoio ao atacante, o elenco dos Royals entregou as camisas à torcida antes do confronto com o Liverpool.

Presidente da Kick It Out, Lord Ouseley respondeu ao boicote explicando a função da associação: “Não tomamos decisões, não fazemos o futebol andar. Somos uma pequena caridade tentando ajudar o esporte. Posso entender o que os jogadores negros estão dizendo: ‘Vocês estão muito envolvidos com para o futebol ser independente e, na contramão, querem determinar o que deve ser dito’. O poder é da FA e da Premier League. Eles sabem o que está sendo feito por nós. Estamos batendo à porta por um longo tempo, então eles sabem quais responsabilidades. A ausência das vozes deles tem sido noticiável”.

De fato, a campanha é apenas a ocasião conveniente para os protestos. Os entraves vão além de uma entidade com fundos anuais de € 570 mil – pouco mais que o dobro da multa imposta a Terry. Fundado há 19 anos, o Kick It Out acaba servindo de escudo para a Football Association e a Premier League diante de escândalos cada vez mais comuns na Inglaterra.

Ao invés de aparecerem apenas diante de casos extremos, as duas entidades precisam ser mais atuantes na luta contra o racismo e promover um diálogo maior com os atletas. Afinal, não é só “a reputação do futebol inglês que está sendo danificada”, como disse na última semana David Bernstein. É uma questão bem mais profunda, cujo combate no esporte pode trazer reflexos positivos para o restante da sociedade.

Curtas

– O Chelsea manteve os quatro pontos de vantagem na liderança da Premier League graças à inspiração de seu trio ofensivo. Juan Mata, Oscar e Eden Hazard foram protagonistas de mais uma atuação espetacular dos Blues, virando o placar no dérbi contra o Tottenham e quebrando o jejum de sete anos em White Hart Lane. Triunfo que motiva em uma semana decisiva para os londrinos, que enfrentam o Shakhtar pela LC e o United pela EPL.

– O Manchester City parece ter tomado gosto pelo sufoco. Outra vez de virada e nos minutos finais, os Citizens conseguiram superar o West Bromwich. Herói do dia, Edin Dzeko marcou cinco de seus seis gols na temporada saindo do banco de reservas. Mas, ao invés da alcunha de “super substituto”, já mandou o recado para Roberto Mancini que quer uma nova chance entre os titulares.

– Se Rooney era a estrela ascendente em Merseyside há dez anos, o Liverpool também projeta seu astro. Raheem Sterling teve outra atuação acima da média para conduzir os Reds à primeira vitória em Anfield na Premier League nesta temporada. De nome emergencial aos problemas na janela de transferências, vai se tornando referência na nova fase do clube.

– Dentre os grandes, o principal tropeço da rodada foi sofrido pelo Arsenal. A falha de Vito Mannone no gol do Norwich foi crucial, mas acabou ofuscada pela falta de criatividade ofensiva dos Gunners. O problema, que gerou a fúria de Wenger, costuma se evidenciar contra equipes que se organizam melhor diante da mobilidade do ataque londrino.

– No clássico do final de semana, Newcastle e Sunderland empataram por 1 a 1, em resultado que é aceitável para ambas as equipes. Os Magpies abriram o placar logo de início e, apesar da expulsão de Cheick Tioté, conseguiram segurar o resultado até os minutos finais. Já os Black Cats, que venceram somente um dos últimos 16 derbies, se aliviaram com o gol contra de Demba Ba.

–  É exemplar a postura do Leeds em relação  ao torcedor que invadiu o campo no clássico contra o Sheffield Wednesday e agrediu o goleiro Chris Kirkland. Não contentes com a punição dada, os Whites baniram o indivíduo de Elland Road pelo resto da vida.