Entre tantos Cáceres do futebol latino-americano, Fernando talvez não seja o mais lembrado. O ex-zagueiro firmou sua carreira com as camisas de Argentinos Juniors, River Plate e Boca Juniors na virada entre os anos 1980 e 1990. Na Europa, rodou por diversos clubes espanhóis, querido no Zaragoza e no Celta. Era reserva no último título da seleção, na Copa América de 1993, e também na Copa de 1994. Lembrou-se dele? Pois a história de vida de Fernando Cáceres merece não apenas que ele seja recordado. Merece aplausos, por tão grande que é.

Em novembro de 2009, aposentado havia dois anos, o argentino foi baleado. Três ladrões tentavam roubar sua caminhonete quando viajava a uma cidade na província de Buenos Aires. A bala atingiu a base de seu crânio. Mudou sua vida completamente. Fernando perdeu a visão no olho direito e, depois de dois meses no hospital, saiu de lá apenas em uma cadeira de rodas. Depois de se consagrar correndo atrás de atacantes, já não podia mais andar.

“Foi um golpe duro e tive que ir assimilando aos poucos”, conta Cáceres, em entrevista ao El País. “No momento em que me vi na cadeira, senti um pouco de vergonha. A minha vida toda eu estava treinando, sempre estava forte. A princípio, foi frustrante”. A situação levou o ex-atleta a uma crise existencial, mas acabou aceitando. Resolveu seguir em frente a nova etapa de sua vida. Sobretudo, para, através do futebol, ajudar jovens a não ter um destino como aqueles que o balearam.

“Nenhum garoto nasce ladrão. Deveriam estar jogando futebol em um campinho ou estudando. Não tenho nenhum rancor, me detiveram um pouco da vida. Porém, só por um instante”, perdoa Cáceres. Junto com um sobrinho que é treinador e outro que é preparador físico, o veterano montou um grupo para trabalhar com jogadores de 15 a 23 anos, que estão sem equipe.  Mantém os jovens em atividade, enquanto dá uma nova esperança às carreiras.

“Trabalhamos com eles para selecionar os melhores, para que possam competir em um clube da segunda ou da terceira divisão. Fazemos isso porque gostamos muito de trabalhar com os meninos. Muitas vezes, temos que dar a roupa dos treinos e as bolas. Meu sonho é que tenham a possibilidade de jogar em um clube algum dia”, explica.

Durante a manhã, Cáceres se dedica ao projeto. À tarde, segue com sua reabilitação. “Tenho que trabalhar todos os dias, sem pensar no que passou. A vida me motiva. Há motivos para viver. E hoje, é um desses dias”, comentou, enquanto era homenageado com outros jogadores do Zaragoza, campeões da Recopa Europeia em 1994/95. “A cadeira em que vocês me veem agora é um troféu diante de toda a guerra que tive”.

El Negro ainda quer treinar seu ex-clube. Enquanto a chance não vem, realiza o seu sonho de viver. E o de muitos outros que esperam ter uma carreira tão brilhante quanto a sua – e, ainda assim, menos brilhante que seu exemplo de vida.

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