Se os últimos anos não foram sempre felizes ao Sampaio Corrêa, a torcida tricolor pegou o gosto por viver no olho do furacão. Esta é uma década de bastante emoção à Bolívia Querida, quase sempre pelo bem, algumas vezes pelo mal. Desde 2010, os maranhenses conquistaram cinco vezes o estadual. Subiram da Série D para a C e logo em seguida para a B. Fizeram duas campanhas satisfatórias na Segundona, até caírem em 2016 e subirem novamente  em 2017. Ainda assim, parecia faltar algo. Parecia faltar uma taça que referendasse de verdade este período histórico, para que os bolivianos pudessem gritar sua grandeza além dos limites do estado ou das limitações das divisões de acesso. Faltava um título que se recontasse de geração a geração. Não falta mais. Neste sábado, orelhuda em mãos, o torcedor do Sampaio pode encher a boca para dizer que é o maior da região. Que é o campeão da Copa do Nordeste, um troféu que não tinha em suas prateleiras.

O Maranhão, de certa maneira, era renegado na Copa do Nordeste. Durante a década de 1990, a CBF integrava o estado à Copa Norte. O Sampaio, aliás, não se fez de rogado e marcou a história da extinta competição. Em sua primeira participação, em 1998, conquistou o título regional, na mesma época em que retornava à Série B e que alcançava as semifinais da Copa Conmebol. Na temporada seguinte, a Bolívia Querida ainda seria vice do certame, sofrendo a revanche no reencontro com o São Raimundo na decisão. Porém, mesmo durante o ressurgimento do Nordestão, em 2013, os maranhenses e piauienses foram deixados de lado. A relevância que os tricolores ganhavam nas competições nacionais, ascendendo da Série D à B em dois anos, ajudava a indicar que não era apenas um erro geográfico. Enfim, a partir de 2015, a Lampions League realmente estava completa, com a adição de ambos os estados.

As três primeiras campanhas do Sampaio Corrêa na Copa do Nordeste foram modestas. A Bolívia Querida sequer passou da fase de grupos. A trajetória nesta temporada, porém, já se mostrava diferente, apesar da falta de expectativas pela fraca campanha no estadual. Em um grupo difícil ao lado de Ceará, CSA e Salgueiro, os maranhenses asseguraram a segunda colocação – suficiente para os mata-matas. E a arrancada começou desde as quartas de final. Primeiro, sem tomar conhecimento do Vitória no Castelão, despachando os rubro-negros com o triunfo por 3 a 0 no primeiro jogo, antes do empate sem gols em Salvador. Depois, garantindo mais uma vez a passagem em casa, contra o ABC, nas semifinais. A vitória por 1 a 0 valeu a tranquilidade para empatarem por 1 a 1 em Natal. Até que o desafio maior acontecesse diante do Bahia, atual campeão regional, dono de um orçamento e de uma folha salarial maiores.

A conquista do Sampaio Corrêa, como de praxe, se encaminhou diante da torcida em São Luís. Quase 17 mil torcedores estiveram nas arquibancadas do Castelão durante a noite de quarta-feira, para empurrar a Bolívia Querida. Logo no primeiro minuto, o artilheiro Uilliam, herói contra o ABC, marcou de cabeça o gol decisivo. E principalmente no segundo tempo, enquanto o Bahia aumentava a pressão, brilhou o goleiro Andrey, com uma série de defesas fundamentais. O triunfo por 1 a 0 já dava uma vantagem tamanha para a visita a Salvador.

Não seria simples encarar a Fonte Nova. Até porque mais de 45 mil torcedores do Bahia confiaram na vitória neste sábado, em mais um belíssimo espetáculo da massa tricolor. O Sampaio Corrêa tentou tomar a iniciativa na partida e criou as primeiras boas chances de gol. Contudo, logo o protagonismo iria aos baianos, buscando o resultado, ameaçando mais o gol de Andrey. O goleiro, novamente, teve papel essencial para transmitir segurança aos companheiros e salvar a pele da Bolívia Querida. Já no segundo tempo, ficou mais evidente o trabalho da defesa maranhense, principalmente para conter as investidas pelos lados.

De qualquer forma, os minutos finais guardaram grande emoção ao Nordestão. Uilliam seria expulso aos 44, recebendo o segundo amarelo. E o lance do título aconteceu aos 50 do segundo tempo, dentro da área do Sampaio Corrêa. A bola sobrou na pequena área para Brumado e o jogador do Bahia tinha tudo para garantir uma vitória apoteótica. A catarse ficou por conta de Andrey, que conseguiu fechar o ângulo do adversário e sentiu a bola bater em seu corpo, milagrosamente desviando à linha de fundo. O ato memorável que deu a taça à Bolívia Querida. Quando o apito final soou, a torcida na Fonte Nova vaiava, descontente com as exibições ruins do Bahia como mandante na Lampions League. Desgosto que contrastava com a euforia dos maranhenses, celebrando o título inédito. O capitão Maracás teve o prazer de erguer o belíssimo troféu.

Durante a comemoração, os jogadores carregaram em seus braços o técnico Roberto Fonseca. O comandante chegou ao clube no início de maio, para substituir Francisco Diá, que não começara bem a Série B. O novo treinador possui seus méritos sobretudo pelo trabalho defensivo, com o time mantendo a invencibilidade na reta final do Nordestão e passando os seis jogos dos mata-matas com um mísero gol sofrido. Já o craque da campanha foi mesmo Andrey, goleiro de 24 anos. Formado pelo Botafogo, o arqueiro era nome frequente nas seleções de base. No entanto, chegou a ser investigado por abuso sexual durante o Pan-Americano de 2015 e, por questões salariais, saiu em litígio do clube carioca. Rodaria depois por Botafogo de Ribeirão Preto, Cabofriense, São Bento e Volta Redonda, até aportar em São Luís durante o último mês de dezembro. O Nordestão oferece uma redenção em sua trajetória.

A Copa do Nordeste, aliás, vale demais ao Sampaio Corrêa, em diversos contextos. A conquista assegura R$1,5 milhão nas contas do clube e também a vaga automática nas oitavas de final da Copa do Brasil de 2019. Mas nada comparado ao bem imaterial inerente a um feito deste tamanho. Levando em conta que os tricolores já venceram as Séries B, C e D em sua história, além de possuírem uma Copa Norte, não é unânime cravar a Lampions League como taça mais importante já faturada pelo clube. No entanto, pode ser considerada como a mais afetiva, pelo peso na identidade regional e pelas rivalidades interestaduais com outros times tradicionalíssimos. É bom se proclamar em uma região que leva o futebol de maneira tão apaixonada e que oferece uma competição neste nível de emoção. Torna-se uma lembrança única, diferente dos acessos recentes, justamente por fugir do comum e botar a Bolívia Querida no lugar mais alto do Nordeste.

O ano ainda guarda uma longa batalha ao Sampaio Corrêa. A Série B se aproxima do final do primeiro turno e a Bolívia Querida ocupa a primeira colocação acima da zona do rebaixamento. O objetivo é evitar a gangorra mais uma vez, após o desce e sobe dos últimos dois anos. Mas, ao menos nos próximos dias, os torcedores tricolores estão no direito de se esquecer desses temores. É hora de desfrutar. É hora de comemorar um momento sem igual na história do clube. O time fez por merecer a conquista e, mesmo contra adversários da primeira divisão, se impôs em diferentes etapas da competição. Antes escanteado, o Maranhão é o epicentro do Nordestão. O Sampaio ofereceu esse orgulho a tanta gente, e não apenas à sua torcida.


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