*Direto do Rio de Janeiro

A cena pitoresca aconteceu bem na Avenida Maracanã, diante de uma das principais barreiras na caminhada dos torcedores até o estádio. A senhorinha estava lá, no meio da rua fechada, toda emperiquitada falando ao celular. Vestia vários tipos de apetrechos em verde e amarelo: a saia que entrelaçava as cores, a camiseta listrada, o chapéu de babados e flores amarelas. Os únicos detalhes que quebravam o padrão eram dois escudos do Fluminense, um na bolsa e outro do lado direito da camiseta. Mas, por incrível que pareça, não era a roupa extravagante que mais chamava a atenção. A dois passos da senhora, coleira de fitas entrelaçadas solta no chão, estava tranquilo um galinho de estimação. Obviamente, vestido a caráter para a ocasião, como a sua dona.

“Cuidado com o Tite, ein!”, falou a senhora, em tom de brincadeira, a um carro de polícia que passava ao seu lado. O policial parou e ofereceu um franco sorriso à dupla de personagens que tão bem coloria o realismo fantástico carioca. A cada minuto, surgia algum curioso querendo também sorrir com a velhinha e tirar uma foto com o galo torcedor.

Era domingo de Maracanã, afinal. Era domingo de final com o Brasil em campo. A idosa encarnava a alegria que sempre imperou nas velhas arquibancadas de concreto do estádio, agora dominadas por cadeiras coloridas que indicam novos tempos de arena. No entanto, o velho espírito bonachão e extrovertido do Maraca continua vagando por ali, graças à sua gente. Graças a pessoas que não se desgrudam daquela cultura popular do estádio, sempre povoando o imaginário do futebol brasileiro. A Vovó Tricolor, célebre figura nos jogos do Fluminense, representava este passado que ainda se faz presente. Mesmo que ali, do lado de fora.

Restavam cerca de quatro horas para a decisão da Copa América, e a vizinhança do Maracanã já estava cheia de gente. Os torcedores lotavam os bares nas ruas próximas ao estádio, mas não eram apenas eles que chegavam. Também estavam por ali as outras pessoas que fazem parte da festa: os vendedores ambulantes, muitos deles saindo da Mangueira e de comunidades próximas, prontos para abraçar a oportunidade; as crianças que perambulavam deslumbradas com esse movimento todo; o pessoal que aparecia pela mera atmosfera repleta de felicidade, de quem espera o futebol como o mais nobre dos lazeres em um domingo de sol. O Maracanã não se limita a quem passa ao lado de dentro da catraca.

Dona Maria de Lourdes, a Vovó Tricolor, é uma dessas pessoas que se misturaram ao transe coletivo que tomou conta do Maracanã durante o domingo. Oferecia simpatia pura, de quem trata o gigante de concreto como uma parte importante de sua vida. Recebia efusivamente os visitantes da vez.

“O Maracanã é minha casa! Se eu estou com 78 anos, comecei a frequentar aos oito anos”, afirmou a senhora, com o galinho Tite sob os braços. “Pela idade que eu tô, eu lembro de muita coisa da Seleção, sempre na torcida. E não perco um jogo do Fluminense aqui, meu filho. Olha, meu irmão mais velho fez ontem 89 anos. Ele é tricolor doente. Meu pai nasceu em 1902, também tricolor. Morreu com 101 anos. Todo mundo em casa é tricolor”.

A idade não se tornou impeditivo para que a Vovó Tricolor preservasse as memórias de sua paixão pelo futebol. Muito menos que se esquecesse de como era torcer no antigo Maracanã, de geral ampla, irrestrita e plural: “Tenho muitas saudades do velho Maracanã… Sabe como era meu nome? Geraldina! A geral, a geral… Tenho muitas fotografias minhas na geral. Era o povo que ficava na geral”.

Através do celular, Dona Maria de Lourdes conversava com as filhas, que já se dirigiam ao estádio. “Eu prefiro ficar do lado de fora. Não quero entrar por causa do barulho”, explicou, embora tenha reclamado do preço dos ingressos a outra reportagem. E exibia uma confiança inabalável que o seu Tite também traria sorte. “Tive vários galos. Esse é o Tite, o mais novo, dei o nome na época da Copa. E ele não vai para a panela se o Brasil perder, que isso! Esse é meu bichinho de estimação! Também não vou mudar o nome, porque vamos vencer. Pensamento positivo! O galo é melhor que o Peru, é claro!”.

Entrar no Maracanã ou não, na maioria absoluta dos casos, não é uma mera questão de opção. A discussão se alonga nesta Copa América, de recordes de renda, mas tribunas majoritariamente vazias. A oposição entre os interesses mercadológicos e a acolhida das camadas populares nas arquibancadas talvez seja, atualmente, a questão mais importante que circunda o futebol brasileiro. Há uma gentrificação dos estádios pelo país e a decisão no Maracanã acaba sendo uma face do processo que se acelera há anos.

É óbvio, quem pôde bancar R$600 num ingresso médio dificilmente representará a antiga geral, salvo exceções. Mas, de certa forma, o velho espírito resiste. Não mais àquela maneira, colado ao campo, através da multidão que se espremia para ver e fazer o futebol. Persiste um pouco mais difuso, entre os personagens que ocupam aqui e ali as atuais arquibancadas e, principalmente, se misturam ao resto da gente no meio da rua. O torcedor popular, este que era a maioria dos geraldinos, raramente vai ao Maraca, sobretudo em jogo da Seleção. Ainda assim, há um quê daquelas cenas, a conta-gotas, perceptível principalmente nas ruas.

Próximo das grades estava Vicente, um Homem-Aranha verde e amarelo, em fantasia na qual o símbolo da CBF substituía o aracnídeo no centro do peito. Por baixo da malha, transparecia uma camisa do Flamengo. Ele, assim como a Vovó Tricolor, se preserva como um bastião da velha geral: “Desde 1986 eu venho ao Maracanã… Sempre fui de geral, durante muitos anos. Sou o Homem-Aranha do Flamengo, mas também me amarro no Brasil. É o país em que eu nasci, tenho que gostar da Seleção. Vou a vários jogos”.

O Homem-Aranha do Flamengo indica um Maracanã que, além de palco ao bom humor tão inerente dos cariocas, também serve como uma espécie de ritual. A quem frequentou por tantos anos aquelas arquibancadas, parece difícil admitir o futebol brasileiro longe do gigante. Por isso mesmo, o torcedor de 53 anos também reclamou do longo período em que a seleção brasileira se ausentou do tradicional templo.

“Fico chateado porque não teve o Brasil na final da Copa. Demoraram para colocar os jogos aqui. O Maracanã é o templo do futebol! O país do futebol tem que jogar aqui! O Maracanã é tudo, representa demais, nossa… Quem gosta de futebol, entende de futebol, sabe que o Maracanã é tudo. Quem vem ao Brasil e não vem ao Maracanã, ele não conheceu o Brasil”, refletiu, antes de conceder mais uma entrevista a jornalistas curiosos.

Assumir uma fantasia para si simboliza aqueles que tratam a paixão pelo futebol como um elemento primeiramente lúdico. A veia popular do Maracanã sempre permitiu que este sentimento irreverente fluísse. No entanto, ele também consegue aflorar nos jogos de seleções. Sem uma obrigação de vencer ou vencer tão explícita, o clima é mais leve do que nas partidas de clubes. Algo que se nota principalmente do lado de lá, onde os estrangeiros surgem de peito aberto justamente pela ocasião festiva. Entre os peruanos, eram ainda mais comuns os rostos pintados, as máscaras, os adereços. Pode ser um caminho para brincar o futebol. E também pode ser mais do que isso, representando a própria identidade.

Cláudio é um desses. Não era uma mera questão de aparecer ou de assumir um alter-ego arquibaldo. Ele se enfeitou justamente para proclamar o seu pertencimento ao povo peruano, após se radicar no Brasil. Morador do Rio de Janeiro, o torcedor do Universitario também adotou o Botafogo para apoiar, enquanto domina a língua portuguesa com perfeição. O Maracanã, todavia, abria as portas para mergulhar completamente em suas origens e expor o seu eu mais peruano.

“A felicidade hoje é muito grande, eu não esperava. Há quantos anos que o Peru não chegava a uma final de Copa América, cara? Ainda mais sendo no Brasil, é muito gostoso. Tirar o Uruguai, tirar o Chile, e o Peru na final? É uma felicidade muito grande para o povo peruano, você não imagina”, declarou, enquanto abraçava outros brasileiros e atendia gentilmente os pedidos para ser fotografado.

Cláudio vestia uma bermuda de listras vermelhas, uma camisa da seleção, usava uma faixa na cabeça e ainda tinha uma bandeira amarrada como capa de super-herói. Como se não bastasse, também carregava outra camisa, exibindo o nome e o número de Paolo Guerrero. Sua fantasia residia justamente na chance de poder se revestir com o orgulho peruano: “O fato de que o Peru está na final, para mim, já é bom demais. Se o Peru vencer ou perder, caraca, já tô feliz da vida, entendeu?”. Ia para o jogo, acreditando ver nas arquibancadas uma surpresa de sua Blanquirroja – nos pênaltis, segundo a sua intuição.

A maior marca da alegoria que adornou o Maracanã desde sempre, aliás, talvez seja isso. Não bastava apenas o escracho. Uma marca dos geraldinos sempre foi a autenticidade. A personalidade extrovertida complementava a satisfação de ser o que é. O futebol, no fim das contas, servia como um fio condutor a toda essa alegria.

E um grande exemplo dessa essência, bela lição nos arredores do Maracanã, era o de Akazu’-Y Tabajara Tapeba. O indígena vinha enfeitado com pinturas corporais, penachos ao redor do corpo, cocar na cabeça, colares pendurados no pescoço e um chocalho. Referências às suas origens que se misturavam com a roupa verde e amarela, de quem se tornou uma figura de natural destaque na concentração à final.

“Sou aquele índio que roda o Brasil todo porque sou atleta. Sou olímpico! E acompanho a seleção em toda a parte”, explicou Akazu’-Y, exibindo um vigor físico impressionante para quem já se aproxima dos 72 anos de idade. Em seu currículo, participou das Olimpíadas Indígenas e correu recentemente uma maratona. O clima da Seleção se torna um prazer a mais. “O melhor plano de saúde que nós temos é a atividade física. Eu amo o esporte”, declarou, sorrindo.

A presença de Akazu’-Y tornava-se mais emblemática ao Maracanã, dentro de todo o contexto. Ele já fez parte da Aldeia Maracanã, uma ocupação realizada a partir de 2006 no antigo Museu do Índio, local histórico abandonado nos arredores do estádio. O prédio se tornou alvo de uma queda de braço entre governo e indígenas durante as reformas do Maracanã rumo à Copa do Mundo. Os moradores foram removidos durante uma reintegração de posse em 2013 e passaram a morar em conjuntos habitacionais, ainda que a ocupação tenha sido retomada nos últimos meses. Atualmente, é um local que preserva as tradições indígenas. Por lá, Akazu’-Y reencontrou amigos, embora resida em casa própria.

Além do mais, o tabajara-tapeba também indicava um laço com o próprio adversário da tarde, o Peru, talvez o país da América do Sul onde as origens indígenas são mais expressas. “Fiz muitas reportagens hoje lá dentro com os peruanos. Tanto que falei para os repórteres que é um povo que é nosso irmão e é nosso sangue, porque o povo peruano tem muita gente indígena. Hoje estou torcendo pro Brasil, vai ser 3 a 1, mas com muito respeito a eles”, afirmou Akazu’-Y, sobre a irmandade com os descendentes dos incaicos – e de quebra cravou o placar.

Akazu’-Y estava do lado de dentro das barreiras, mas não pôde entrar mais depois que “teve a infeliz ideia de fazer um xixi no botequim”, conforme as próprias palavras. Segundo ele, seus colegas estavam do lado de dentro e ele esperava que alguém o resgatasse com um ingresso para poder voltar. Enquanto isso, permaneceu perambulando no entorno do Maracanã, com uma vitalidade marcante, de quem aproveitava a atenção para realizar suas danças tradicionais.

E se há uma gente visível que não entra no Maracanã, quantos mais são os invisíveis, sem qualquer chance de se aproximar da velha geral? Em uma das passagens montadas nos arredores do estádio, na qual só entrava quem tivesse ingresso, um rapaz se aproximou. Residente em um prédio na mesma rua, não queria ir para a sua casa, mas sim entregar um agasalho. Logo à frente, um morador de rua permanecia deitado sobre seus papelões. Seguiu dormindo quando as barreiras foram armadas. Não o afastaram do local.

Não muito distante dali, estava Vinícius. O garoto, de seus sete ou oito anos, certamente poderia ser um geraldino. Naquele momento, era mais um no meio da multidão fora do Maracanã, se misturando à festa e tentando garantir uns trocados vendendo esmigalhadas paçocas. Vinícius não passou tão despercebido assim. Uma repórter da TV colombiana se encantou com o menino e o chamou para um link, onde ele pôde sorrir e gritar pelo Brasil. Mas não era só isso o que ele desejava. Logo depois, ainda insistiu em vender sua paçoca à estrangeira, que antes pareceu tão boazinha.

Vinícius se chateou com a recusa, mas permaneceu por ali. E, quando a repórter se cercava de peruanos para uma imagem à matéria, o rapazinho se meteu no meio deles. “Eu também quero aparecer!”, disse, um tanto quanto imperativo, mas arrancando risadas ao redor. Chegou a ganhar uma pulseirinha de proteção dos peruanos. Porém, conduzido de mão em mão, aos poucos Vinícius passou a ser tirado de cena, até que não mais aparecesse às lentes e, fora do grupo, decidisse desaparecer no meio da massa atrás de clientes às suas paçoquinhas.

Vinícius ainda faz parte do Maracanã. De um Maracanã que tantas vezes vive de fora para dentro. Tomara que um dia o Maracanã também seja seu por dentro, Vinícius.