Por Thales Machado, jornalista, em colaboração para a Trivela

Não há muito o que falar. Há sim muito que se lamentar e muito por se fazer para que se mantenham vivas as boas lembranças das 71 vítimas da maior e mais verdadeira tragédia que o futebol, o tal esporte que, vemos e entendemos só agora, quando jogado, quando em seu noticiário normal, nos faz só fingir que vivemos glórias e reveses de verdade em campo, na arquibancada. Dos 71 que nos deixaram, vinte e um eram ou já tinham sido futebolistas: dezenove jogadores do elenco da Chapecoense, na ativa, e dois já aposentados que também se aventuraram na profissão de treinador.

Vinte um homens dedicados à representação da paixão do outro, dos desconhecidos. Que fizeram de sua profissão uma dedicação física e mental para representar cores que muitas vezes não são suas, locais que eles não tinham nenhuma relação, fanáticos pelos quais, não necessariamente, eles tinham alguma empatia. Viveram assim, morreram assim. Até mesmo o Mário Sérgio, representando as cores do canal de TV onde trabalhou nos últimos tempos. Duvido muito que houvesse no elenco um torcedor da Chapecoense. Ao mesmo tempo, duvido muito, que a altura da final, todos não já simpatizassem muito com o Índio Condá.

Vinte e um homens do futebol que dedicaram suas vidas a representar diferentes camisas, cores e escudos por anos. Representavam, exceto Mário, as cores da Chapecoense no momento da partida, mas antes, incluso Mário, representaram muito mais. Em uma apuração um pouco atordoada (porém correta) com as notícias, com a morte de gente próxima, levantei onde cada jogador/treinador que se foi jogou. Da base até a Chapecoense. Ao todo, as vítimas vestiram as camisas de 120* clubes diferentes pelo mundo, por três continentes, nada menos que por 14 países diferentes.

Só no Brasil, viraram agora heróis para 94 equipes diferentes. Independente de terem jogado ou treinado bem, mal, muito, pouco, representaram a paixão de 94 torcidas, grandes ou pequenas. Todos os clubes da Série A em 2016 tiveram, em algum momento de sua história, um jogador ou treinador que estava entre as vítimas de hoje. Jogaram em todas as cinco regiões do imenso Brasil. Do Guarany de Bagé, onde nasceu o lateral esquerdo Dener, no extremo sul do país, até o Trem, equipe do Amapá, no extremo norte, onde foi se aventurar o atacante paraense Lucas Gomes. No meio campo, meio do país, outros tantos clubes, outros tantos jogadores que deram tudo em nome da paixão de outros.

(se preferir, veja o mapa clicando aqui)

O mapa mostra todos os escudos e localizações de todos os 120 clubes pelos quais passaram os 21 homens que morreram pelo futebol. Navegando por cada canto do Brasil e do mundo, você vê os clubes onde jogaram, e clicando no escudo, vê quais jogadores vítimas de hoje, passaram ontem por ali. O mapa nos mostra o tamanho da tragédia, tamanha imensidão de escudos que se espalham. O mapa nos permite ver também algo que não é tão perceptível no futebol, talvez escancarado pelas manifestações de solidadriedade entre clubes, jogadores e torcedores após a notícia da tragédia: o futebol é um jogo de amigos, os jogadores rodam por anos em diferentes equipes, regiões, cidades. Deixam sua marca ali, nem que seja por uma temporada. Por isso a Chapecoense, ao menos hoje, é em Santa Catatina, mas também é em Pernambuco, no Rio de Janeiro, na Espanha e no Japão.

O mapa também mostra o óbvio: a dor não é só da Chape, é de todo Brasil, de todo o mundo, de todo torcedor. 120 camisas estão no mapa. Muito mais estão juntas por este momento. A torcida é uma só. #ForçaChape

* A contagem inicial havia apontado 118 clubes, mas, com o auxílio dos leitores, foram incluídos mais dois. Muito obrigado pela ajuda!

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