O final de semana marcou a ascensão de alguns clubes tradicionais rumo à elite do Campeonato Carioca. O Americano celebrou sua volta à nata do futebol local após seis anos longe da primeira divisão. O clube de Campos, figurinha carimbada na elite a partir dos anos 1970, faturou o acesso e poderá disputar o clássico com o Goytacaz no primeiro nível, o que não acontecia desde 1992. E há mais uma festa, do histórico America. O Diabo virou um ioiô no Carioca, mas possui um detalhe bacana especificamente nesta campanha: Luisinho Lemos é o técnico. Um dos melhores jogadores que já vestiu a camisa vermelha termina o ano reiterando sua imagem como lenda.

A trajetória de Luisinho no America é irretocável. O atacante costuma ser citado invariavelmente entre os maiores ídolos da história rubra – na virada do século, apareceu na primeira colocação em eleição feita pela revista Placar, à frente mesmo de Edu Coimbra, seu grande concorrente pelo posto. A dedicação do veterano, afinal, fala por si. Irmão mais novo de César Maluco, vestiu diferentes camisas durante a adolescência. No entanto, sua carreira deslanchou mesmo no Diabo, seu clube de coração. Chegou ao elenco em 1973, aos 21 anos, conquistando a Taça Guanabara logo de cara. Seria reconhecido também com a Bola de Prata no Brasileirão, além de ter sido artilheiro do estadual. Em 1975, deixou sua paixão para defender o Flamengo.

Luisinho viveu bons momentos na Gávea, rodando ainda por outros clubes, como Internacional, Botafogo e Las Palmas. Contudo, sua história estava mesmo atrelada ao America. Retornou à equipe em 1982, participando da conquista da Taça Rio ao final daquele ano. Seguiria como referência na maior parte daquela década de 1980, exceção feita a uma rápida passagem pelo Palmeiras. Já em 1986, aos 35 anos, o veterano liderou o Diabo às semifinais do Brasileirão, na última grande campanha nacional dos rubros. Despediria-se da torcida definitivamente em 1987. Sua marca, de qualquer forma, já era profunda o suficiente. Maior goleador do clube em todos os tempos, acumulou 311 gols. Ficou marcado, além do faro de gol, pela agilidade e a movimentação constante, marcas de seu talento.

A idolatria de Luisinho no America bastaria por aquilo que construiu como jogador. Mas continuou com algumas passagens como técnico. O retorno aconteceu em meados dos anos 1990. Em 1995, levou o Mecão ao quinto lugar no Campeonato Carioca, antes de retornar ao cargo em 1997, nono colocado no estadual. Porém, depois disso, o hiato seria bem maior. Foram 21 anos longe do cotidiano rubro, até que o reencontro acontecesse em março de 2018, enchendo os torcedores de esperança. Sabiam que teriam um dos seus à beira do campo. Mesmo trabalhando por um bom tempo em países árabes, o treinador seguiu acompanhando o seu Mecão, ouvindo jogos durante a madrugada e acompanhando o noticiário.

“Independente de ter sido jogador do America, sou torcedor do America. Desde garoto, sou americano e tive a felicidade de começar minha carreira de jogador e treinador no clube. Na minha época, ganhamos muitos títulos, Taça Guanabara, Taça Rio, torneios internacionais… E só não ganhamos Carioca e Brasileiro porque fomos prejudicados várias vezes. A torcida do America é fanática. Se o clube não estiver bem, ela vai estar triste, mas não muda: é America sempre. A torcida merece uma equipe que esteja a altura das tradições. Sei o que os torcedores querem. Por isso, vamos fazer de tudo para dar alegrias a eles”, declarou Luisinho na época, em entrevista ao FutRio. “Sabemos que o clube está passando por situações desagradáveis, como essa dos quatro rebaixamentos em dez anos. Isso vêm afetando bastante. Com isso, a torcida tem que cobrar. Tivemos bons times na minha época, mas também fomos cobrados, é normal”.

A presença de Luisinho não era necessariamente uma garantia ao America. Outros ídolos passaram pelo clube nos últimos anos, sem que isso significasse o sucesso sempre. E o clube sabe como o acesso é apenas parte de uma missão mais difícil: a permanência. Em 2016, a promoção veio com grande festa, após quatro anos de ausência na elite. Então, o Mecão caiu em 2016. A nova conquista na segundona aconteceu em 2017, mas na seletiva do Campeonato Carioca de 2018, o mau desempenho acabou relegando os rubros mais uma vez à divisão inferior. Foi então que o antigo artilheiro retornou e recobrou as esperanças. Com um time baseado no 3-5-2 e um ataque eficiente, o Diabo chegou às semifinais para disputar o acesso com o Sampaio Corrêa. A vitória por 2 a 1 no sábado, após os 3 a 0 na ida, sacramentaram a festa. Uma alegria e tanto, horas depois que a diretoria botou em leilão a sede do clube, na Tijuca, para pagar dívidas trabalhistas.

Durante a comemoração, obviamente Luisinho foi personagem. Com seu rosto tremulando em uma bandeira nas arquibancadas, festejou a conquista do acesso e já mirou os próximos passos, aguardando reforços para a sequência do trabalho. “O coração americano fica tenso durante os jogos. A rapaziada está de parabéns, a diretoria e a torcida também. A emoção é muito grande. Eu que sou America desde garoto, tenho a felicidade de participar do clube e chegar a ser um dos maiores ídolos da história, ser o maior goleador da equipe… Eu gostaria de ver a torcida toda no Maracanã, como já colocamos 120 mil pessoas no estádio. O America voltando à primeira divisão vai ser a mesma coisa. Terei o prazer de ver, estando do outro lado. É uma satisfação muito grande”, declarou ao FutRio.

O Americano, por sua vez, também merece a sua exaltação. Surgido exatamente a partir de uma viagem do America a Campos, em 1914, foi o maior campeão do antigo Campeonato Fluminense e participante costumeiro dos campeonatos nacionais. A partir de 1976, passou a disputar o Campeonato Carioca. E nunca havia sido rebaixado até 2012, com algumas campanhas de destaque no estadual, embora a relação com o presidente da federação Eduardo Viana causasse controvérsia. A partir da queda, os alvinegros demoraram a se restabelecer, batendo na trave algumas vezes – com direito à exclusão no STJD em 2016, por envolvimento em caso de manipulação de resultados, e a amarga derrota pra o rival Goytacaz no jogo decisivo em 2017. Desta vez, o técnico Josué Teixeira, campeão da Série C com o Macaé e rodado no futebol do RJ, foi o responsável pelo feito. O acesso foi selado com a vitória por 2 a 0 sobre o Audax.

America e Americano poderão levar suas torcidas ao Estádio Nilton Santos, para um “Clássico Tio Sam” em clima de euforia. É lá que acontece no próximo sábado a final da segundona carioca, em jogo único contra o Americano – no pouco recomendável horário das 13h10. Ao menos, uma oportunidade a mais aos clubes celebrarem. A presença na elite, afinal, ainda dependerá de mais empenho no final do ano. Em dezembro, começa uma seletiva ao estadual, envolvendo também Goytacaz, Resende, Volta Redonda e Nova Iguaçu. Apenas os dois primeiros colocados avançam à fase principal. É o que resta, dentro das realidades modestas. É o que permite sonhar.