O futebol é um esporte ingrato a quem resolve utilizar os óculos do imediatismo. Sequências contundentes ficam em xeque por um clássico mal jogado, o talento pode ser menosprezado por um gol perdido qualquer, deslizes soam os alarmes da precipitação. O remédio do futebol sempre é o tempo. Ele esfria os ânimos e marca o compasso do que merece ou não ser guardado. Pode até ser que uma injustiça ou outra acabe oculta pelo nome gravado nas páginas de um livro. Mas ainda mais reluzente é a memória viva, aquela que vem à tona naturalmente. É mais difícil se lembrar do que se passa em nossas vidas de maneira apagada, sem envolvimento. Muito mais fácil é reviver os momentos intensos, deslumbrantes, aqueles que deixam marcas na pele através de um arrepio e que nos provocam reações quaisquer. O futebol é um claro exemplo desta regra. Você pode até se esquecer daquele amistoso sem sal da Seleção, mas vai descrever fielmente o que ocorreu com seu time numa vitória emocionante ou numa derrota aborrecedora. E a gente sabe que a história verdadeiramente acontece quando nem é o nosso time, mas a sensação de incredulidade nos consome. Quando é impossível não se conectar, não se contagiar, não se encantar. Tal qual o Ajax fez nesta terça-feira de Liga dos Campeões, no Estádio Santiago Bernabéu.

Há muitos motivos para a gente se envolver com o feito do Ajax, mesmo sem torcer realmente para os holandeses. Como não ansiar o improvável acontecendo diante dos nossos olhos? Como não desejar a vitória do Davi diante do Golias? Como não vibrar junto com uma goleada acachapante, a maior já registrada contra o maior campeão do continente? Como não celebrar a queda da Bastilha merengue, depois da dinastia instaurada nos últimos três anos? A derrota do Real Madrid é a derrota dos poderosos, e há um claro prazer nisso – que me perdoem os madridistas. Tudo se torna mais irônico quando o time símbolo da eficiência sucumbe em sua imprecisão, diante de um oponente letal. E mais ainda a partir do gol no qual a arbitragem pende aos visitantes, depois de tudo o que ocorreu no recente, agora passado, tricampeonato. Os Godenzonen combatem a monotonia que vinha imperando na Champions.

Todavia, acima do sadismo contra o Real Madrid, o feito do Ajax é um resgate da própria história. Uma maneira de ver um clube que representa tanto ao futebol experimentando uma vitória que antes parecia restrita a tempos remotos. A Liga Europa de duas temporadas atrás havia oferecido um gostinho neste sentido. Mas ainda não era a Champions, ainda não era o maior dos palcos, ainda não era um triunfo contra outro gigante. Se já é legal pra gente ver esse renascimento em grande estilo, mesmo que momentâneo, imagine para um torcedor que passou a vida lendo e ouvindo sobre os gloriosos tempos de outrora. A gente se solidariza e até se empolga com a euforia que os holandeses injetaram em suas veias nesta terça-feira.

A goleada do Ajax, além do mais, se dissocia das camisas – mesmo que elas deem um colorido bacana ao jogo. Porque, afinal, é a vitória de um ideal de futebol. De um jogo intenso e participativo, no qual cada uma das 11 peças parecia empenhada para cumprir seus movimentos e recuperar a bola. De uma concentração e de uma solidez impressionantes na defesa, acima das possibilidades deste próprio time. Mas que não perde a dose de magia no ataque. O lado vencedor ofereceu arrancadas fulminantes, que abriram rombos na equipe adversária. Ofereceu trocas de passes bem arquitetadas, que encurtavam caminhos. Ofereceu dribles capazes de tornar alguns dos melhores do mundo em meros cones. Ofereceu enfiadas de bola que desmatavam florestas de pernas até o gol. Ofereceu finalizações cirúrgicas, de quem parece colocar a bola com as mãos rumo às redes. Uma perfeição que não é comum em um jogo de tamanha exigência e contra um adversário de tamanho peso, mas que aconteceu. Que alimenta a tal memória viva.

No entanto, se uma vitória dessas maravilharia com qualquer time, a impressão é de que uma vitória dessas não poderia ocorrer com outro time senão o Ajax. É uma questão de trabalho. Mais do que isso, é uma questão de filosofia que permeia diferentes trabalhos e consegue atravessar o tempo. Que adapte os detalhes, o clube alimenta uma mesma mentalidade há meio século. É o futebol total que conduziu a trajetória do esporte e ainda marca a identidade do Ajax. Só poderia ser tão desta forma sendo o Ajax. Nem sempre as coisas dão certo e os tombos são recorrentes, até pelas dificuldades em manter os principais craques por um longo tempo. Apesar disso, tudo conspirou e confluiu rumo a esta noite no Santiago Bernabéu.

Parecia um Ajax programado a jogar desta maneira. E era assim na firmeza de De Ligt na linha defensiva. Era assim na onipresença de Blind para proteger a área. Era assim na versatilidade de Tagliafico. Era assim na sobriedade de Schöne, na regularidade de Van de Beek, na maestria de Frenkie de Jong – este, cada vez mais pronto a escrever sua própria trajetória singular. Continuava assim mais à frente, seja pela intensidade de Ziyech, pela eletricidade de David Neres, pela inspiração de Tadic. Crias da casa ou não, pareciam todos no mesmo compasso – apesar de alguns deslizes pontuais, como os de Mazraoui e Onana, também vitais em outros lances. Encaixados ao que se pensa e ao que se pede, através do mentor Erik ten Hag. Bem sucedidos pelo ideal de futebol que se internalizou desde a tenra idade ou pela essência que se aflora dentro do ambiente favorável. Os Godenzonen poderiam ter sofrido uma dura decepção? Claro, e as circunstâncias não deixam mentir, sobretudo pelas bolas na trave. Mas que bom que os planetas se alinharam e proporcionaram uma atuação como esta em Madri. Que pudemos assisti-la.

O imediatismo pode ser carrasco deste Ajax. Pode guardar uma goleada humilhante na sequência da Champions, como ocorreu no clássico recente contra o Feyenoord – outro lado da moeda, não menos empolgante. Pode também ver alguns desses jogadores se acomodarem e não desabrocharem como se espera – embora o talento esteja ali, adubado com a filosofia dos ajacieden. Para saber essas respostas, só o tempo será remédio, ressalto. Elas virão em algumas semanas, até o fim da temporada, ou em alguns anos, para saber como esse elenco se desenvolve, apesar da dolorosa tristeza ao já saber que ele não durará muito reunido. E será o tempo que também assentará as emoções vividas no Bernabéu.

A convicção de que a memória viva foi adquirida nesta terça de Champions é inegável. Restará desfrutar, vez ou outra, o prazer de resgatar essa lembrança de 90 minutos sensacionais. É o marco já estabelecido deste Ajax, independentemente do futuro. É a aura que sustenta a grandeza do clube Ajax e que faz valer toda essa devoção à ideia desenvolvida a partir de Rinus Michels e Johan Cruyff, sustentada por diferentes herdeiros. Uma noite histórica como esta, da forma como se consumou, são a prova cabal de que eles sempre estiveram certos. Temos a honra do testemunho.