Arsenal e Liverpool encaram uma partida decisiva neste sábado. Pode valer muito na briga por vaga na próxima Champions League, um objetivo importante por prestígio, dinheiro e a possibilidade de brigar por títulos importantes. Em 1989, o objetivo era muito mais palpável e importante. Na última partida da temporada, ambos tinham chance de título no confronto que aconteceu em Anfield. Os donos da casa, com três pontos de vantagem, poderiam perder por até um gol de diferença para manter a coroa que haviam conquistado no ano anterior, mas não conseguiram. Perderam nos segundos finais em um último ato dramático.

LEIA MAIS: O artigo de jornal que, em 1992, previu Gerrard como uma “futura estrela” do Liverpool

O jogo estava marcado inicialmente para 23 de abril, mas oito dias antes, 96 torcedores contraíram ferimentos fatais na semifinal da Copa da Inglaterra, em Hillsborough, no maior desastre da história do clube e do futebol inglês. A liga conseguiu encontrar uma data disponível apenas depois da final da FA Cup, que teve o próprio Liverpool sendo campeão contra o Everton. Em um belo gesto, os jogadores do Arsenal entraram em campo com flores e as entregaram à torcida dos Reds.

A briga pelo título deveria ter terminando muito antes, na verdade. O Arsenal chegou a ter 19 pontos de vantagem para o rival, mas uma sequência invicta de 18 partidas pelo Campeonato Inglês havia deixado o time de Kenny Dalglish com 76 pontos, contra 73 do adversário. No saldo de gols, 39 contra 35. O Liverpool não perdia desde 31 de dezembro de 1988 para qualquer time da liga. Para o Arsenal, em casa, pelo Inglês, desde 1974. Foram 13 partidas, com 10 vitórias do time da casa e três empates, 26 gols a favor e apenas sete contra. Havia também uma grande diferença de confiança por causa das temporadas anteriores. Enquanto os Reds viviam o ocaso da sua época mais vencedora, os Gunners não conquistavam o título nacional desde 1971.

Tudo isso entrou em campo no Anfield Road. Embora o Arsenal tenha disputado o primeiro tempo pressionando o rival, o Liverpool tinha a calma e a experiência para administrar a partida, mesmo após o gol que abriu o placar. Aos 7 minutos do segundo tempo, Alan Smith raspou com a cabeça uma bola jogada na área e venceu o goleiro Bruce Grobbelaar. Uns dez torcedores até invadiram o gramado para comemorar e foram rapidamente detidos pelos fiscais. Todos os jogadores do Liverpool rodearam o árbitro David Huntchinson para reclamar porque achavam que Smith não havia tocado na bola. Como o lance saiu de uma cobrança de tiro livre indireto, isso invalidaria o gol. Depois de consultar seu assistente, o apitador confirmou que o placar estava 1 a 0 para os visitantes.

MAIS ARSENAL: Bergkamp, Van Persie e a banheira que mudou a vida do garoto holandês

A estratégia de administrar a partida seguiu até os minutos finais. Era compreensível. O Liverpool jogava em casa, com uma vantagem ainda substancial, e deveria estar exausto emocionalmente depois de tudo que aconteceu em Hillsborough. Aos 44 minutos, o meia Steve McMahon informou os companheiros que faltava apenas um minuto. Eles começaram a gastar tempo. O próprio McMahon recuou para o goleiro, Barnes segurou a bola na ponta direita e o relógio estava sendo gasto.

Mas não faltava apenas um minuto. Faltavam mais. Aos 47, o lateral direito Lee Dixon deu um chutão para frente, Alan Smith desviou e Michael Tomas dominou. Errou. A bola sobrou para Steve Nicol, mas este não conseguiu afastar. Devolveu para Thomas, que avançou dentro da área, esperou a reação de Grobbelaar, e tocou com o bico do pé no canto direito. A 25 segundos do final da partida.

A comemoração do Arsenal foi intensa. A reação do Liverpool foi desesperadamente buscar o gol que lhe daria o título. Chutão para frente, cruzamento na área de qualquer jeito, mas o desespero era muito grande. Não dava para esperar dois milagres seguidos em um espaço tão curto de tempo. Hutchinson apitou o final da partida e fez a festa dos visitantes, que quebravam um longo jejum sem títulos ingleses.

Os donos da casa desabaram. Aquela temporada infelizmente histórica e trágica havia chegado ao fim. Não era da pior forma possível, porque esta, eles sabiam, havia acontecido um mês atrás. Ainda assim, foi bastante triste para eles. Dalglish não conseguia se mexer. McMahon, Barnes, Rush, Hansen e outros ídolos do Liverpool simplesmente caíram de joelhos, aliviados por poderem finalmente descansar, desesperados por terem visto o troféu escapar por entre seus dedos.