O Bayer Leverkusen não tem o apelido de “Neverkusen” à toa. Os Aspirinas até possuem alguns títulos importantes em sua galeria de troféus, como a Copa da Uefa de 1987/88 e a Copa da Alemanha de 1992/93. Ainda assim, a sina na Bundesliga é cruel: são cinco vices, quatro deles experimentados entre 1997 e 2002. E o momento em que o clube esteve mais próximo de tocar o céu, em 1999/00, se transformou em seu maior inferno. O Leverkusen liderava o campeonato até a última rodada, com a vantagem do empate no compromisso final, quando perdeu para o inexpressivo Unterhaching por 2 a 0 – com direito a um gol contra de Michael Ballack para abrir o placar. O Bayern de Munique ganharia sua partida e ficaria com a Salva de Prata graças ao saldo de gols, em desastre que completou 20 anos nesta quarta.

A consolidação do Bayer Leverkusen como um clube expressivo na Alemanha começa exatamente na virada dos anos 1980 para os anos 1990. O time fundado para os funcionários da farmacêutica Bayer até disputou a primeira divisão regional às vésperas da criação da Bundesliga, mas vagou entre a segunda e a terceira divisão a partir de 1963, quando a liga nacional saiu do papel. A estreia na Bundesliga aconteceu em 1979/80 e, a partir de então, os Aspirinas não seriam mais rebaixados. Começaram a fazer campanhas na parte de cima da tabela durante o final da década, rendendo classificações aos torneios continentais, até a conquista da Copa da Uefa em 1988 – em time cheio de jogadores de seleções, a exemplo de Wolfgang Rolff, Cha Bum-kun, Andrzej Buncol, Tita e do artilheiro Herbert Waas.

O clube seguiria com um bom aporte financeiro para montar equipes competitivas no início da década de 1990. O resultado disso veio na Copa da Alemanha de 1993, garantindo a taça numa final curiosa contra a equipe B do Hertha Berlim. O goleiro Rüdiger Vollborn, símbolo dos Aspirinas, era o remanescente do troféu anterior. Aquela equipe se aproveitou bem da derrocada do comunismo no leste europeu para fazer negócios interessantes no mercado de transferências – muitos deles arquitetados pelo executivo Reiner Calmund. O ataque era comandado pelos alemães-orientais Ulf Kirsten e Andreas Thom, além de Heiko Scholz, do tcheco Pavel Hapal e do romeno Ionut Lupescu compondo o meio. Mais atrás, os destaques ficavam a Franco Foda e Christian Wörns – Jorginho havia acabado de ser vendido ao Bayern. Já a campanha seguinte ainda se deu uma terceira colocação na Bundesliga, o melhor desempenho até então, com Paulo Sérgio e Bernd Schuster entre os reforços.

Apesar da afirmação, o Bayer Leverkusen tomou um susto em 1995/96. Aquela equipe possuía Rudi Völler em seu segundo ano de BayArena e no último da carreira, mas ainda assim correu sérios riscos de rebaixamento. Os Aspirinas sofreram uma queda livre durante toda a metade final da campanha e terminaram o segundo turno com míseras duas vitórias. A salvação se tornou possível graças a um empate com o Kaiserslautern na última rodada, que acabou decretando o descenso dos Diabos Vermelhos. Ainda era um time com bons valores, mas ficava clara a necessidade de uma renovação de ideias. E ela veio no banco de reservas.

O Leverkusen teve dois treinadores em 1995/96: Erich Ribbeck, de volta à equipe com a qual conquistara a Copa da Uefa, e Peter Hermann, antigo ídolo que trabalhava como assistente desde 1989 (ficaria no cargo até 2008), quebrando um galho como interino a partir de abril de 1996. A aposta para assumir as rédeas em 1996/97 foi alta. Chegava Christoph Daum, comandante que estava no Besiktas, mas tinha despontado como um dos melhores técnicos da Alemanha em seus primeiros trabalhos. Chegou a levar o Colônia ao vice no fim dos anos 1980, com uma equipe ofensiva, antes de ser campeão com o Stuttgart em 1992. Teria o apoio fundamental de Völler, que passou a atuar como diretor de futebol na BayArena.

Entre jogadores que despontavam e novos reforços, Daum montou uma base forte ao Bayer Leverkusen a partir de 1996/97. Wörns permanecia como referência na defesa, com a companhia de Jens Nowotny e do jovem Robert Kovac. O meio tinha várias promessas, a exemplo de Zé Elias, Claudio Reyna, Carsten Ramelow e Niko Kovac. Mais à frente, Ulf Kirsten era o ídolo e continuava rendendo muito aos 30 anos, com a companhia de Paulo Sérgio. Na primeira edição da Bundesliga com o novo comandante, o Leverkusen saiu de um “quase rebaixamento” ao vice-campeonato. Os Aspirinas permaneceram entre os três primeiros durante quase toda a campanha, mas uma goleada por 4 a 0 sofrida durante a visita ao Colônia na penúltima rodada deu o título ao Bayern. Kirsten seria o artilheiro da liga.

Para 1997/98, o Leverkusen fez caixa principalmente com as vendas de Paulo Sérgio e Zé Elias. Em compensação, teria uma postura agressiva no mercado, que incluía as adições de Paulo Rink ao ataque e de Émerson ao meio-campo. Os Aspirinas não aguentaram a maratona de jogos e caíram à terceira colocação da Bundesliga, mas distantes de acompanharem o ritmo do campeão Kaiserslautern, recém-promovido da segundona. Kirsten, pela terceira vez na carreira e a segunda consecutiva, abocanhou a artilharia do campeonato. Já a campanha de estreia na Champions League seria positiva. Os germânicos avançaram na fase de grupos, em chave com Sporting e Monaco, antes de caírem para o Real Madrid nas quartas de final.

Com a base mantida (apesar da saída de Wörns ao PSG), os investimentos em 1998/99 renderiam a contratação de Zé Roberto, que estava no próprio Real Madrid. E a impressão de que o momento do time de Christoph Daum chegaria se solidificava. Não deu para competir com um fortíssimo Bayern, que encerrou a campanha 15 pontos à frente, mas os Aspirinas permaneceram na segunda colocação durante toda a caminhada na Bundesliga. A volta à Champions estava assegurada, assim como alguns milhões extras no caixa, que resultariam em mais compras. O investimento da Bayer seria o equivalente a €20 milhões para 1999/00, seu recorde até então.

Viriam jogadores para aguentar a maratona de competições e também melhorar o rendimento na Bundesliga, concentrados sobretudo do meio para frente. A ligação com o ataque ganhou as adições de Michael Ballack, Bernd Schneider e Robson Ponte. Prodígio do Kaiserslautern, Ballack se consolidava como um dos meio-campistas mais completos da Alemanha, enquanto Bernd Schneider apresentava seus predicados na armação do Eintracht Frankfurt. Já Robson Ponte brilhara no Guarani, com destaque no Brasileirão de 1998. Mais à frente, com o empréstimo de Paulo Rink ao Santos, chegou Oliver Neuville do Hansa Rostock. O curioso era a relação que se mantinha com a antiga Alemanha Oriental. Se Neuville saiu de um clube de lá, embora proveniente da Suíça, Ballack e Schneider nasceram no antigo lado comunista.

No papel, o Leverkusen fazia por merecer o respeito. Daum tinha suas variações táticas, mas costumava optar pelo 3-4-3 ou pelo 3-5-2. O goleiro polonês Adam Matysek vestia a camisa 1. A zaga tinha Robert Kovac e Nowotny como opções principais. Zé Roberto era um ala com muita liberdade pela esquerda, enquanto na direita diversas vezes eram escalados jogadores mais ofensivos, como Schneider ou Neuville. O meio possuía a solidez de Ramelow, por vezes recuado à defesa, e de Émerson – na época, vestindo a camisa 10 e se soltando bastante no apoio. Lesionado durante parte do primeiro turno, Ballack se consolidou depois, enquanto Stefan Beinlich era outro frequente no setor, o motor na faixa central. Já na frente, Kirsten servia de referência, aos 33 anos. As companhias se revezavam entre Neuville, Robson Ponte e Paulo Rink – que, sem dar certo no Santos, voltou fazendo barulho em janeiro de 2000.

A primeira mostra de potencial do Leverkusen viria nas seis primeiras rodadas, quando o time se manteve invicto e assumiu provisoriamente a liderança da Bundesliga. Com gols de Kirsten e Neuville, a partir de duas assistências de Émerson, os Aspirinas derrotaram o Bayern por 2 a 0 dentro da BayArena. Também bateram Stuttgart, Schalke e Kaiserslautern para aparecer no topo. Contudo, uma sequência de empates na virada de outubro para novembro fez a equipe perder fôlego e ser ultrapassada pelos bávaros. A recuperação ocorreu com uma sequência de cinco vitórias em seis rodadas no fim do primeiro turno – incluindo os 2 a 1 sobre o recém-promovido Unterhaching, que incomodaria mais à frente.

O Leverkusen viajou a Munique na segunda rodada do returno. Estava na vice-liderança, atrás do Bayern apenas por causa do saldo de gols. Mas aquela não seria uma jornada feliz ao time de Christoph Daum: os bávaros golearam por 4 a 1, comandados por Stefan Effenberg. O chacoalhão fez bem aos Aspirinas, que acordariam e iniciariam uma arrancada. Eliminado nas demais competições de mata-matas, o clube concentrou suas forças na Bundesliga. Ficaria invicto por 14 rodadas, com 11 vitórias neste caminho, exibindo um futebol implacável e deslumbrante. Vários clubes de peso estariam entre as vítimas, mas nada comparado aos 9 a 1 durante a visita ao novato Ulm 1846. Émerson e Zé Roberto fizeram dois gols cada, enquanto Ballack, Neuville, Schneider, Kirsten e Paulo Rink também balançaram as redes.

Neste embalo todo, uma hora o Leverkusen conseguiria superar o Bayern na liderança. Isso aconteceu a oito rodadas do fim, quando derrotou no Estádio Olímpico o Munique 1860, que fazia boa campanha. A vitória sobre o Dortmund na sequência fincou o pé dos Aspirinas, que até empataram na visita ao Hansa Rostock, mas sem perder a ponta. Faltando mais cinco jogos, o Leverkusen emendou quatro vitórias, quase todas sonoras, sobre Arminia Bielefeld, Werder Bremen, Hamburgo e o rival Frankfurt. O Bayern também fazia sua parte, mas a derrota no Dérbi de Munique os deixou três pontos atrás. Até que o desfecho ficasse à última rodada.

Precisando vencer e torcer por uma derrota dos concorrentes diretos, o Bayern tinha um compromisso relativamente mais difícil. A equipe de Ottmar Hitzfeld pegava o Werder Bremen em casa. Na sétima posição, os Verdes tinham nomes como Aílton, Claudio Pizarro e Torsten Frings entre seus titulares. Já o Leverkusen encarava o novato Unterhaching, em sua primeira temporada na elite. Localizado em uma cidadezinha rural de 25 mil habitantes, nos arredores de Munique, o clube era mais conhecido por suas equipes de bobsleigh – sim, a corrida de trenós, formando diversos campeões mundiais e olímpicos. Era um azarão, cotado antes da temporada como provável lanterna.

Àquela altura, o Unterhaching não tinha qualquer interesse no campeonato. O time ocupava o 11° lugar, sem risco de rebaixamento e também sem forças para as copas europeias. Seu elenco era modesto e, entre os poucos destaques, estavam dois jogadores campeões com Daum no Stuttgart: o zagueiro Alexander Strehmel e o meia Ludwig Kögl. Entretanto, os laços do passado não significariam muita coisa. Os bávaros se empenhariam a fazer um bom jogo no acanhado Sportpark Unterhaching, com 11,3 mil presentes. Consequentemente, ajudaram o Bayern.

Calejado pela traumática derrota na final da Champions em 1999, cerca de um ano antes, o Bayern não demorou a fazer sua parte no Estádio Olímpico de Munique. Com apenas 16 minutos, os bávaros haviam aberto uma vantagem de três gols contra o Werder Bremen – que só descontaria pouco antes do intervalo, fechando a contagem em 3 a 1. Carsten Jancker mostraria o seu oportunismo logo de cara, com dois gols de centroavante na pequena área. O terceiro seria o mais bonito, de letra, uma cortesia de Paulo Sérgio – que agora torcia contra seu antigo clube. Marco Bode diminuiu aos Verdes, mas neste momento todo mundo estava de olho no que acontecia em Unterhaching.

E o colapso do Bayer Leverkusen também aconteceu rapidamente, mesmo com a presença de sua torcida em peso na Baviera. Ver a Salva de Prata na beira do campo não motivou. O Unterhaching abriu o placar logo aos 20 minutos. O lance foi uma cortesia de Michael Ballack. Após o cruzamento de Danny Schwarz, o jovem se antecipou ao goleiro Matysek e meteu o pé na bola. Na tentativa de fazer o corte, desviou contra as próprias redes. A pressão dos Aspirinas não daria muito resultado. Mesmo com uma equipe ofensiva, em que Kirsten tinha o apoio de Schneider e Ballack mais atrás, o gol de empate não vinha. Neste momento, os visitantes só precisavam de um tento, mas andava difícil superar o goleiro Gerhard Tremmel. Não criavam chances suficientemente claras.

As alterações realizadas por Daum deixavam o Leverkusen mais ofensivo. Paulo Rink e Thomas Brdaric eram dois atacantes para dar mais vigor ao time, em campo antes dos 20 minutos do segundo tempo. Ainda assim, a situação piorou aos 27. Um cruzamento de Jochen Seitz encontrou Markus Oberleitner livre dentro da área. O camisa 10 fuzilou de cabeça e ampliou a diferença ao Unterhaching. Os Aspirinas sequer conseguiram descontar no final, com o placar confirmando o triunfo por 2 a 0 dos nanicos. Nos céus, um pequeno avião ainda tirava sarro, com uma faixa congratulando o título do Bayern.

Enquanto a desolação tomava o estádio em Unterhaching, com a emblemática imagem de Ballack aos prantos no banco de reservas, o Bayern erguia a Salva de Prata em Munique. A torcida no Estádio Olímpico, com o radinho colado ao ouvido, viveu aquela tarde em êxtase. A equipe de Ottmar Hitzfeld fechou a campanha com os mesmos 73 pontos dos concorrentes, mas sete gols a mais no saldo, e caminharia ao almejado título da Champions em 2001. Como consolação, os Aspirinas tiveram o melhor ataque e também o melhor jogador segundo a revista Kicker – o meio-campista Émerson. Cerca de 5 mil torcedores ainda foram dar um abraço de pêsames em seus jogadores no aeroporto.

O Bayer Leverkusen continuaria competitivo nas temporadas seguintes, mas o drama se ampliaria um pouco mais. Quarto colocado em 2000/01, o clube enfrentou uma transição forçada no banco de reservas. Contratado pela seleção alemã, Christoph Daum deveria sair dos Aspirinas ao final do campeonato. Todavia, o treinador se envolveu em um escândalo por uso de cocaína e abandonaria o cargo em outubro de 2000. O interino Rudi Völler e Berti Vogts dirigiram a equipe na sequência, até a chegada de Klaus Toppmöller em julho de 2001. O novo comandante aproveitou bem a base deixada por Daum e sonharia em todas as frentes. O problema é que seriam três vices naquela temporada de 2001/02. Derrotado pelo Real Madrid na final da Champions e pelo Schalke na final da Copa da Alemanha, o Leverkusen seria o principal concorrente do Dortmund na Bundesliga. Liderou até a antepenúltima rodada, quando uma série de três tropeços permitiu a guinada dos aurinegros.

Naquele momento, o Leverkusen já tinha em seu elenco Lúcio, Dimitar Berbatov, Hans Jörg Butt e Yildiray Bastürk. O sucesso, porém, também teria o seu preço e o desmanche se tornou paulatino nas temporadas seguintes – não só pelas vendas, mas também pela aposentadoria de Kirsten. Depois de um 15° lugar em 2002/03, o final daquele ciclo chegaria em 2003/04, com a terceira colocação. Desde então, o Leverkusen permanece como um participante costumeiro da Champions e até voltou a ser vice na Bundesliga 2010/11, durante o retorno de Ballack, ainda que sem incomodar tanto o Dortmund de Jürgen Klopp. As chances reais de título haviam ficado para trás. E aquele empate que não veio em Unterhaching, pronto a consagrar o timaço de Christoph Daum, dói na alma dos torcedores mesmo 20 anos depois.