* Direto do Maracanã

Em diferentes cantos do Maracanã, a cena se repetia. Havia um clima de irmandade que conduzia a decisão da Copa América. Antes que o jogo começasse, brasileiros e peruanos confraternizavam. Havia uma grande festa para a decisão, não apenas pelas expectativas de título, mas também por respeito àquilo que os desafiantes incaicos construíram em sua jornada. Abraços, fotografias e cânticos permitiam aos dois povos compartilharem o momento. E isso se seguiu também após o resultado. Quando os jogadores peruanos subiam ao pódio para buscar as medalhas de prata, um grupo considerável de torcedores brasileiros gritou “Peru, Peru, Peru” nas arquibancadas. Por mais que houvesse resignação, nada diminuía o orgulho dos peruanos pelo desempenho digníssimo da Blanquirroja.

Já haviam se passado 44 anos desde a última decisão de Copa América disputada pela seleção peruana, aquela que rendeu o segundo título continental ao país. Some-se ao jejum também as longas décadas sem grande relevância no cenário continental, quebradas especialmente pela classificação à Copa do Mundo de 2018. A satisfação pelo bom momento conduz e chega a mais um ápice com a final no Maracanã, depois de alguns bons papéis recentes na Copa América.

“O desempenho do Peru na final me deixa tranquilo, mas não é por isso que deixaremos de ver onde mais podemos chegar. Hoje nos custa aceitar, mas vamos no caminho certo. Fizemos o que podíamos, não há nada para reprovar os rapazes. Ao contrário, é preciso agradecê-los por darem tudo em campo. Temos evoluído com o tempo, mas devemos seguir insistindo em manter a humildade. Estamos em constante superação”, declarou o técnico Ricardo Gareca, após a partida.

(Pedro Vilela/Getty Images)

Se o número de torcedores peruanos nem de longe competiu com o de brasileiros, isso não significa que a hinchada blanquirroja se intimidou no Maracanã. Os Incas se concentravam em grupos de algumas dezenas de pessoas, sobretudo no anel inferior. E fizeram barulho. Durante os primeiros minutos de jogo, quando a sua seleção era melhor, os cânticos tradicionais da barra peruana chegaram a abafar o som dos brasileiros, ainda desencontrados em sua maneira de torcer. Obviamente, o vigor dos visitantes não foi suficiente para conter a explosão no tento de Éverton, mas voltou a se ouvir quando Paolo Guerrero empatou.

Que fosse mais difícil fazer a voz ecoar nas partes superiores das tribunas, pela proximidade do campo os peruanos se tornaram ainda mais audíveis na transmissão da TV. Ainda mais presentes. “Estou contente porque conheci o Brasil e o Rio de Janeiro. Os peruanos têm a melhor torcida do mundo. Ao contrário, os brasileiros são campeões e estão acostumados a não celebrar, não esquentaram o estádio. Se isso acontecesse no Peru, o país inteiro já estaria arrebentando. Por óbvia razão, de tão longe não vieram tantos, mas asseguro que estão cantando por aí. E até agorinha o Brasil nada, entende? Pensei que a Seleção tivesse mais torcida”, declarou Erick, torcedor que saiu de Cajamarca para acompanhar a epopeia no Brasil. Apesar das pitadas de humor ácido, ele tinha sua razão.

Até porque nem mesmo a derrota levou os peruanos a deixarem o Maracanã de imediato. Pelo contrário. Eles não arredaram o pé enquanto sua seleção não recebeu a premiação pelo segundo lugar. Ficaram para erguer o ânimo de seus jogadores, alguns deles às lágrimas, como o ídolo Paolo Guerrero. A medalha de prata tem seu peso, afinal. Principalmente a um país que busca a sua reafirmação, que vem em ascensão, que reverteu os prognósticos depois de um mau início de campanha. O verdadeiro “título” já havia acontecido na classificação histórica contra o rival Chile nas semifinais. Desbancar o Brasil seria também dificílimo. E não é o revés que apaga o desempenho memorável durante os mata-matas.

(Wagner Meier/Getty Images)

Sem a empolgação de antes, os torcedores peruanos não estavam exatamente cabisbaixos na saída do Maracanã. Eles eram, acima de tudo, conscientes. “Estamos orgulhosos por ter chegado aonde chegamos. É uma seleção que ainda está em processo. A segunda colocação também é válida. Deixamos para trás equipes que eram favoritas e, mesmo assim, estamos onde estamos. Seria melhor ter vencido o Brasil, mas não se pode tudo na vida. Vamos com paciência e para isso miramos”, analisou Edwin, que mora com a família em Montevidéu e resolveu viajar ao Rio de Janeiro justamente após a classificação sobre os chilenos.

A presença da massa peruana no Rio de Janeiro, aliás, surpreendia pelas circunstâncias. A Blanquirroja certamente não imaginava chegar tão longe no torneio continental. A distância costuma ser um impeditivo, assim como a campanha errante de início conteve o planejamento. Era possível ver torcedores de todos os outros países sul-americanos, com destaque principalmente aos chilenos – inclusive com casos no qual a soberba diante dos rivais os levou a adquirir as entradas antes mesmo das semifinais. Apesar de toda a desconfiança, alguns milhares de peruanos coloriram o entorno do Maraca com vermelho e branco neste domingo.

“Chegando aqui no Maracanã, fomos ao banderazo, nos juntamos com a torcida peruana que veio de Lima. Estivemos em Porto Alegre, São Paulo, Rio, Salvador… Por todo lado seguimos a seleção. E só de estar aqui, comove muito os peruanos que pela primeira vez assistiram a nosso time em uma final de Copa América. Lamentavelmente perdemos, mas ficamos muito alegres em poder ver uma competição tão grande e por chegar tão longe. Por chegar, claro”, declarou Jairo, limeño que seguiu a jornada de sua torcida.

(Wagner Meier/Getty Images)

O próprio padrão da torcida peruana era particular. Os fanáticos pela Blanquirroja eram majoritariamente homens, parte considerável com fantasias. No entanto, também dava para notar muitas famílias, muitas mulheres, muitas crianças. Na chegada ao estádio, além dos ‘banderazos’ de trechos em trechos da Avenida Maracanã, se percebiam até mesmo grupos de torcedores organizados como turistas, aqueles que vieram em cima da hora para empurrar sua seleção. E nem mesmo estes podem ser chamados de meros “consumidores”. Enquanto um guia os conduzia, seguiam pulando e festejando rumo às tribunas.

O brasileiro não demorou a compreender esse sentimento ao redor dos peruanos. Isso facilitou o clima amistoso, por mais que valesse taça. “Agradecemos a todo Brasil, que nos respeitou e nos tratou muito bem. Também fomos cavalheiros e, com as mãos erguidas, agradecemos o segundo lugar. Somos conscientes de onde conseguimos chegar, graças a Gareca e todo o corpo técnico. Estamos muito contentes”, pontuou Juan, que veio com um grupo significativo de imigrantes peruanos em Buenos Aires.

A proximidade, aliás, ajudou que esses expatriados no sul do continente também compusessem boa parte da torcida incaica na final. E seguiam olhando além, como declarou Hugo, outro morador da capital argentina: “Sempre com a cabeça levantada, esperamos vocês na Copa América de 2020. A comunidade peruana na Argentina torceu muito pela seleção – não só nós, mas também os argentinos nos apoiaram. O Peru veio melhorando, veio escalando na competição, e isso aumentou o apoio”.

(Lucas Uebel/Getty Images)

Por fim, enquanto muitos dos peruanos no Rio de Janeiro seguem explorando as maravilhas da cidade após a decisão, eles também nutrem uma expectativa sobre o que acontece em Lima na recepção ao time. Uma erupção tomou a capital após a classificação contra o Chile. E o sinal máximo de satisfação continuou acontecendo durante as primeiras horas da segunda-feira. A delegação desembarcou no final da madrugada. Mesmo assim, centenas de pessoas recepcionaram os heróis no aeroporto e outros milhares se posicionaram nas ruas durante o início da manhã, em cortejo até a sede da federação. Uma demonstração de orgulho por parte dos compatriotas.

“Foi uma alegria imensa acompanhar até a final meu querido Peru, depois de muitos anos. Estamos felizes. Somos vice-campeões, mas para mim é suficiente. A recepção em Lima vai ser uma loucura total, 100% garantido. Uma loucura. Já foi uma enorme insanidade contra o Chile, todo mundo ficou louco. Imagine agora”, concluiu Orlando, outro limeño em visita ao Maracanã. A representatividade desta atual geração peruana é imensa. Pode não ser tão bem sucedida quanto o time dos anos 1970. Em compensação, ajudou o seu povo, completamente fanático pela Blanquirroja, a reexibir seu sentimento ao restante do mundo. O Maracanã foi um digno palco para amplificar esta paixão.