Escolher o melhor jogador do Bayern de Munique nesta sexta-feira histórica em Lisboa é uma missão impossível. Porque, afinal, não houve um melhor jogador. A goleada por 8 a 2 aconteceu por aquilo que os bávaros produziram coletivamente – e não foi pouco, diante da maneira como arrasaram o Barcelona nestes 8 a 2, com Marc-André ter Stegen evitando um estrago maior. Estritamente pelos números, Thomas Müller foi quem mais produziu e, por isso, é compreensível que leve o troféu da Uefa – até pelo simbolismo que o atacante possui. Mas mais gente deveria ser condecorada. Ao todo, 9 dos 16 jogadores em campo pela equipe de Hansi Flick contribuíram com gol ou assistência, e isso sem precisar incluir David Alaba na lista. Raras vezes se viu um time de futebol subjugar seu adversário como fizeram os bávaros nesta noite.

E o mais prazeroso de ver foi a forma como o Bayern fluiu ofensivamente. Era um carrossel, com movimentação, trocas de posições, participação constante. Sobretudo, partindo para cima e buscando a finalização. Os bávaros não deixaram de desejar o gol por um momento sequer, e isso diz muito sobre a mentalidade da equipe nesta reta final de Champions. Porém, isso só se torna possível pelo trabalho engendrado por Hansi Flick. Além de, é claro, a qualidade dos jogadores que possui à disposição. São eles que concretizam tamanho volume de jogo e tamanha pressão sem a bola.

Robert Lewandowski, por incrível que pareça, não roubou a cena para si. O maior artilheiro da temporada europeia, com números absurdos, não deixou de balançar as redes. Mas se fez muito mais notável pela maneira como puxou a marcação e aproveitou os deslocamentos dos companheiros com passes açucarados, algo escancarado no tento de Thomas Müller. O camisa 25, aliás, serve como este complemento ao polonês e a todas as outras peças que se conectam ao seu redor, facilitando a ocupação dos espaços como alguém disposto a servir.

Nas laterais, o Bayern tem dois dos melhores do mundo. Joshua Kimmich até precisa se readaptar à posição e por vezes cochilou sem a bola, mas com ela é um verdadeiro armador pelo lado direito. Nenhum outro jogador em campo criou mais chances de finalização para os companheiros do que ele. E isso porque o alemão acaba encoberto pelo que faz do outro lado Alphonso Davies, um lateral com espírito de ponta – e dos mais ariscos. Semedo terá pesadelos com os pés incessantes do canadense. Essa forma como os bávaros ocupam as laterais contribui muito ao que acontece mais ao centro.

A zaga não viveu sua noite mais feliz, entre o gol contra de David Alaba e o drible que Jérôme Boateng tomou de Luis Suárez. Mas são dois jogadores com qualidade técnica acima da média para o setor, especialmente para trabalhar com a bola. Assim como é Manuel Neuer, que salvou quando o Barcelona teve o mínimo de vida durante os primeiros minutos, antes de reproduzir uma daquelas suas atuações com saídas constantes da área. Os adversários assim permitiam, bem como os companheiros ao sufocarem os catalães. Até alguns passes de categoria o goleiro descolou.

De qualquer maneira, é impossível destacar o que o Bayern produziu nesta partida sem exaltar o que jogaram os volantes e os pontas. Foi no meio-campo que o massacre aconteceu. O quarteto deixou a marcação do Barcelona zonza e anulou as saídas dos oponentes.

Thiago Alcântara está de saída do Bayern. O meio-campista prefere buscar seu espaço em outro canto ao final de seu contrato, apesar das ofertas para renovar. O espanhol teve altos e baixos na Baviera, embora picos muito bons, inclusive como melhor jogador da Bundesliga nos tempos de Carlo Ancelotti. Por mais que queira sair, isso não cria um ambiente ruim e seu comprometimento segue máximo. Foi o que se viu em Lisboa. Um título rende a valorização ao volante, é claro. Mas não é apenas sobre este interesse que pode se limitar a avaliação do que aprontou Thiago. Visto um dia como sucessor na linhagem de Xavi e Andrés Iniesta, ele mostrou em grande estilo o tamanho da bobagem que o Barça cometeu ao deixá-lo escapar. E isso já deveria falar por si.

Ao seu lado, Leon Goretzka é uma realidade. O meio-campista por vezes é difícil avaliar, sem se encaixar totalmente às características que muitas vezes se pede em cada setor que ocupa no campo. Mas é um jogador com um senso tático muito aguçado e refinado no trato com a bola. A aposta que o Bayern fez nele se paga desde que Hansi Flick chegou e a assistência para o terceiro gol foi sensacional. Deu só um tapa na bola, para encobrir a defesa do Barcelona e deixar Serge Gnabry na boa, antes de correr para o abraço.

Gnabry, aliás, dispensa apresentações. Chegou ao Bayern para ser mais um e, hoje em dia, é bem difícil pensar o time sem ele. O ponta se mostrou um jogador preparado à primeira prateleira, apesar de certa desconfiança ao seu redor, e só está atrás de Lewandowski em uma lista dos melhores jogadores do time nesta Champions. Jogou muito contra o Tottenham em Londres e jogou muito contra o Chelsea em Londres. Até poderia ser um tipo de revanche do ex-Arsenal, mas o duelo com o Barcelona mostrou como é fome de bola mesmo. A goleada se abriu muito graças ao camisa 22. Deu uma enfiada de bola que clareou o lance do primeiro gol, fez a roubada de bola e deu a assistência ao segundo, antes de enfim assinalar o seu. Detalhe que a movimentação o levou a ser decisivo pela esquerda, e não pela direita, onde teoricamente ocupava o campo.

O principal sócio de Gnabry na noite foi o outro ponta. Ivan Perisic chegou como um negócio de ocasião, emprestado pela Internazionale, como opção à falta de constância do Bayern no setor. Não se podia negar que o veterano tinha bola para se tornar importante em Munique e assim contribui, mesmo sem ser titular absoluto. E as mostras nestes dois primeiros jogos de volta da Champions o colocam em papel de destaque. Já tinha sido um dos melhores na goleada contra o Chelsea durante o final de semana passado e, de novo, deu sua ajuda para destroçar o Barça. Foi ele quem recebeu a enfiada de Gnabry no primeiro tento, antes de se encarregar do segundo.

Há um banco bem servido no Bayern, com raras carências, como também ficou expresso nesta sexta. Lucas Hernández deu assistência e Philippe Coutinho parecia com sede de vingança diante do Barcelona. Talvez só falte mesmo um centroavante confiável à reserva de Lewandowski, o que não é problema diante da temporada do polonês. E a amálgama deste time chama-se Hansi Flick. O treinador era elogiado por seu trabalho tático desde os tempos de seleção, como assistente de Joachim Löw, mas impressiona como fez o elenco comprar suas ideias e mudar de atitude – principalmente quando se traz os tempos de Niko Kovac como parâmetro.

Não se sabe como se dará o desfecho da Champions e, com jogos únicos, a probabilidade de que o favoritismo não se cumpra é maior. Mas o que fez o Bayern nestes 8 a 2 é para que sua escalação seja recitada de cor, com a Orelhuda ou não em mãos. Não foi apenas o placar ou as debilidades do adversário, mas sim a maneira como essa avalanche ocorreu. Daquelas partidas que enchem os olhos, pelo bom futebol e pela vontade de cada jogador em produzir esse primor coletivo.