Se a mesmice prevalece na maioria absoluta das grandes ligas europeias, as boas histórias surgem no segundo escalão do continente. E a Rússia vê o seu maior campeão ressurgir, em conquista para deixar em chamas a mais numerosa torcida do país. Depois de longos 16 anos de espera, o Spartak Moscou volta ao topo da Premier League. Os alvirrubros recuperaram a taça de maneira bastante imponente. A confirmação veio com três rodadas de antecedência, abrindo dez pontos para o segundo colocado. É o 22° título do Clube do Povo nas ligas nacionais. Levaram 12 troféus no antigo Campeonato Soviético, enquanto abocanharam 10 vezes o Russo – sendo nove das primeiras dez edições a partir do desmembramento da União Soviética.

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O Spartak investiu na luta pelo título. Acostumado a apenas brigar pela Liga Europa nos últimos anos, o clube foi o segundo que mais gastou em contratações no país para a atual temporada. Entre os novatos, os meio campistas Fernando e Roman Zobnin logo se encaixaram na equipe titular. Já em janeiro, Luiz Adriano e Aleksandr Samedov se tornaram dois acréscimos importantes. No entanto, o grande reforço dos alvirrubros esteve à beira do campo. Massimo Carrera era uma aposta, que acabou sendo certeira.

Como defensor, Carrera fez longa carreira no futebol italiano. Jogou até os 44 anos, se destacando principalmente nas passagens por Bari, Atalanta e Juventus. Assim que pendurou as chuteiras, já começou a trabalhar nas categorias de base da Velha Senhora. E, a partir de 2012, se transformou no braço direito de Antonio Conte, seu companheiro na conquista da Champions em 1996. Como assistente, chegou a substituir Conte durante os quatro meses em que este ficou suspenso em 2012/13 e também o acompanhou à seleção italiana. Após a Euro 2016, Carrera acertou sua mudança para Moscou, inicialmente para auxiliar Dmitri Alenichev, ídolo do clube nos anos 1990. Todavia, o ex-meia não resistiu à eliminação para o AEK Larnaca nas preliminares da Copa da Uefa. Mal que veio para bem. O italiano assumiu o comando e ofereceu a glória outra vez ao Clube do Povo.

Fato é que o Spartak, mesmo com a mudança repentina, sobrou no Campeonato Russo. Os alvirrubros mantiveram a liderança em 25 das 27 rodadas disputadas até o momento. Tiveram raros momentos de oscilação, com apenas quatro derrotas. Além disso, é um time que vai em busca dos resultados, com 20 vitórias, cinco a mais que qualquer outro concorrente. Diante da postura implacável, os alvirrubros já foram para a pausa de inverno com cinco pontos de vantagem. Terminaram de fazer o serviço ao longo de abril, com cinco vitórias em seis partidas. Neste intervalo, bateram os seus dois principais rivais, Zenit e CSKA Moscou. A celebração virou questão de tempo. Espera encerrada neste final de semana, com o triunfo por 1 a 0 sobre o Tom Tomsk no sábado, combinado com a derrota do Zenit em casa para o Terek Grozny neste domingo. Diante da notícia, centenas de torcedores se reuniram em frente ao estádio do Clube do Povo, acompanhados por alguns dos jogadores.

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Entre as figurinhas carimbadas do elenco, estão os zagueiros Salvatore Bocchetti e Serdar Tasci; os meio-campistas Denis Glushakov, Dmitri Kombarov e Jano Ananidze; e os atacantes Lorenzo Melgarejo e Zé Luis. Além dos citados Fernando e Luiz Adriano, o zagueiro Maurício engrossa a legião brasileira, que ainda contou com o volante Rômulo durante boa parte do primeiro turno. Já o grande protagonista é o ponta holandês Quincy Promes. No clube desde 2014, o camisa 10 combina força física e qualidade técnica. E o seu poder de decisão é inegável, somando 11 gols e 10 assistências em 23 partidas. Não à toa, o tento decisivo saiu de seus pés, cobrando pênalti.

O título premia, sobretudo, a gigantesca torcida do Spartak Moscou. A popularidade da equipe se construiu desde o início de sua história. Impulsionados inicialmente por Nikolai Starostin, um dos jogadores mais populares do país na década de 1920 e que também atuava na direção do clube, os alvirrubros passaram a contar uma vigorosa massa de seguidores tanto pelo futebol apresentado quanto pela imagem sustentada. Por não terem ligação direta com o establishment do governo soviético, bancados por uma cooperativa da indústria alimentícia, os moscovitas se tornaram uma oposição ao Kremlin, quando outros times da capital eram apadrinhados por órgãos poderosos do regime, como o exército e a polícia. O próprio nome, adotado nos anos 1930, era bastante sugestivo: homenageia Spartacus, o gladiador que liderou uma grande rebelião de escravos no Império Romano.

Na bola e no calor das arquibancadas, o Spartak se colocou como principal força do Campeonato Soviético no final dos anos 1930. Na década seguinte, um duro golpe: a prisão de Starostin e seus irmãos, sob acusação de criarem um plano para matar Joseph Stalin e posteriormente enviados para um gulag por “propagandearem o esporte burguês”. Após dez anos de trabalhos forçados, o velho ídolo foi solto e voltou a liderar os alvirrubros de volta ao topo, ocupando o posto de presidente de 1955 a 1992. Ao mesmo tempo em que brigava pelas taças, o Clube do Povo virou o maior símbolo do orgulho russo no futebol, oposto aos ucranianos do Dynamo Kiev, principalmente. Já o desmembramento da URSS beneficiou os moscovitas. Sem tanta dependência da estrutura estatal, nadaram de braçada no Campeonato Russo por dez anos.

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A conquista do Campeonato Russo em 2016/17 promete não ser um ponto fora da curva pelo Spartak. Na virada dos anos 2000, os alvirrubros enfrentaram uma séria crise financeira e acabaram salvos por Leonid Fedun. Dono de uma fortuna estimada em US$ 5,8 bilhões, entre os 250 homens mais ricos do mundo, o acionista majoritário da petrolífera Lukoil evitou a falência do clube com a compra. A injeção financeira recolocou a equipe na briga pelo título, apesar dos cinco vice-campeonatos desde então, sem conseguir superar os fortes períodos de CSKA Moscou, Zenit e Rubin Kazan. Desta vez, não houve o que interrompesse o seu sonho. E o maior legado da gestão vai além das quatro linhas, com a construção do estádio próprio sob o custo de US$ 430 milhões. A moderna Otkrytiye Arena, um dos palcos da Copa do Mundo de 2018 e que auxilia na sustentação das receitas, foi inaugurada em 2014. A média de público chega aos 32 mil, com sobras a maior da liga.

Agora, o Spartak pensa mais alto com a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, já sabendo que será cabeça de chave no sorteio. Protagonista de boas campanhas continentais até meados dos anos 1990, o clube acumula quedas precoces em suas últimas participações. Poderá almejar uma participação digna na próxima temporada, caso Fedun resolva reforçar a base de Massimo Carrera. Em um ano no qual o futebol toma conta da Rússia, seria legal ver a maior e mais apaixonada torcida do país fazendo bonito além das fronteiras. O primeiro passo foi dado com o fim do jejum na Premier League.