Os clássicos mobilizaram o Campeonato Brasileiro neste domingo. Palmeiras x Corinthians e Fluminense x Flamengo concentraram as atenções na rodada. Juntos, os dois jogos levaram aproximadamente 92 mil pessoas ao Maracanã e ao Allianz Parque. Mais ou menos o mesmo público que o Estádio Salt Lake recebeu no mesmo dia, para um dos clássicos mais antigos e mais calorosos do mundo: o Dérbi de Calcutá, entre Mohun Bagan e East Bengal, que costuma ter média de público na casa dos 100 mil espectadores. Desta vez, para uma goleada histórica dos vencedores e enorme comemoração nas arquibancadas.

Ainda que a Índia tente reinventar seu futebol com a Super League, criada em 2014 na tentativa de atrair público e grandes astros ao país, o futebol por lá é bem mais antigo. Está enraizado desde a colonização britânica, com os primeiros pontapés dados ainda no Século XIX. E nestes primórdios é que surgiram os clubes indianos mais tradicionais, assim como o seu principal dérbi. O Mohun Bagan foi fundado em 1889 e possui como maior honra uma vitória sobre o time do regimento de East Yorkshire, em 1911 – a primeira de um time da colônia sobre os colonizadores, de grande valor simbólico. Já o East Bengal surgiu em 1920, cinco anos antes da disputa do primeiro clássico.

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Desde então, são mais de 300 confrontos entre os rivais. Os ânimos acirrados entre as duas torcidas são explicadas por uma divisão regional: o Mohun Bagan representa a população do oeste da região de Bengala, onde fica a cidade de Calcutá; do outro lado, o East Bengal é usado como bandeira do leste, que se transformou em Bangladesh com a independência do império britânico, em 1947. São os Ghoti, os ‘locais’, contra os Bangal, os ‘imigrantes’, que costumam sofrer preconceito das elites de Calcutá.

“Calcutá é conhecida na Índia como a Meca do futebol. Em toda a região de Bengala Ocidental, a população é dividida entre os dois clubes”, conta o jornalista indiano Laltu Chakrabarty, em entrevista à revista francesa So Foot. “Em 1975, um torcedor do Mohun Bagan se suicidou após uma derrota por 5 a 0 para o rival. Na carta de despedida, ele escreveu que sua intenção era se reencarnar como um jogador de futebol para marcar muitos gols contra o East Bengal e reverter a derrota algum dia. Já os jogadores do time precisaram ficar escondidos em um barco no Ganges, para não sofrerem represálias da torcida”.

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A casa tradicional do dérbi é o Estádio Salt Lake, que possui capacidade para 120 mil espectadores – o segundo maior do mundo, atrás apenas do Rungnado May Day, na Coreia do Norte. “A média de público chega a 100 mil torcedores e, em 1997, houve o recorde de 137 mil pessoas no estádio para ver o dérbi. Quando há uma ação de perigo nos jogos, o nível de barulho gerado pelas torcidas se aproxima aos decibéis de dez aviões em decolagem”, complementa Chakrabarty. “Em geral, a rivalidade é pacífica. Mas também existem episódios trágicos, como em 1980, quando 16 pessoas foram mortas em um tumulto. Desde então, 16 de agosto se transformou no ‘Dia dos Apaixonados por Futebol’ na Índia, com doações de sangue organizadas pelos dois clubes”.

Neste domingo, o Dérbi de Calcutá permitiu ao East Bengal ir à desforra contra os rivais. Os Bangal venceram por 4 a 0 e conquistaram o título do Campeonato de Calcutá, o principal torneio da região. Em compensação, o Mohun Bagan tem como argumento a conquista do Campeonato Indiano de 2014/15, que garantiu uma vaga nas etapas preliminares da próxima edição da Liga dos Campeões da Ásia. Mas a beleza do clássico esteve mesmo nas arquibancadas, onde as bandeiras em vermelho e dourado dividiram espaço com as verde-rubras. Enquanto a Super League Indiana se farta em milhões de dólares, os clubes mais tradicionais se sustenta graças à paixão.