A falência do Lokeren, decretada no último dia 20 de abril, encerra a trajetória do clube belga que viveu grandes momentos na elite do futebol do país desde os anos 1970 e que chegou a contar em seu elenco com craques que se destacaram em Copas do Mundo, como o polonês Grzegorz Lato e o dinamarquês Preben Elkjaer. Os dois brilharam na temporada mais marcante para seus torcedores, a de 1980/81, quando o clube foi vice-campeão belga, finalista da copa nacional e ainda chegou às quartas de final da Copa da Uefa.

A história da falência do clube, decretada após contrair uma dívida com salários de jogadores e funcionários considerada impagável e avaliada em cinco milhões de euros – quantia irrisória para os clubes de ponta do futebol europeu – também evidencia o abismo econômico existente dentro do jogo em seu continente mais rico. Aos torcedores, resta lembrar os tempos em que o Lokeren fez ótimas campanhas e abrigou astros internacionais.

História e ascensão

O Koninklijke Sporting Club Lokeren nasceu em 1970, da fusão de dois outros clubes da cidade situada na província de Flandres Oriental. Mas sua origem remete a 1920, data em que foi fundado o Football Club Racing Club Lokeren – extinto no ano seguinte, mas que daria lugar, dois anos depois, a outro Racing Club Lokeren (agora sem o “FC” no prenome). Este, enfim, se fundiria ao Standaard Lokeren para a criação da agremiação relembrada aqui.

O acesso à primeira divisão chegaria em 1974, sob o comando de Armand “Jef” Jurion, lendário ex-atacante do Anderlecht que marcou época no futebol belga e europeu na década anterior. Porém, ele deixaria o clube rumo ao Beveren antes do início da campanha de estreia na elite, sendo substituído pelo tchecoslovaco Ladislav Novák, outro célebre ex-jogador dos anos 1950 e 1960. A equipe terminaria numa boa oitava colocação.

Rapidamente o Lokeren se firmou na elite com campanhas consistentes. Entre as temporadas 1974/75 e 1982/83, o time terminou sempre entre os oito primeiros colocados, exceto pela de 1977/78, quando chegou a ser ameaçado pelo descenso e ficou em 13º. Como resultado, neste mesmo período, o clube chegou a disputar quatro vezes a Copa da Uefa e se tornou uma equipe atraente para jogadores notáveis. De médio porte, mas ambicioso.

Antes mesmo do acesso, o clube já havia recrutado um nome experiente e histórico do futebol belga, o ponta-esquerda Wilfried Puis, ex-Anderlecht, Club Brugge e com a participação na Copa do Mundo de 1970 no currículo. Assim que subiu, trouxe também o centroavante Johan Devrindt, companheiro de Puis nos Diabos Vermelhos que foram ao México. A eles se somariam outros atletas mais jovens, que ajudariam a construir as boas campanhas iniciais.

Já na segunda temporada, o clube concretizaria sua primeira contratação de impacto de um atleta estrangeiro ao trazer o atacante polonês Wlodzimierz Lubanski, do Górnik Zabrze. Destaque da seleção de seu país na conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, ele perdera a Copa de 1974 por uma fratura no pé, mas mantinha seu prestígio em alta como um dos grandes goleadores do futebol europeu de então.

Com Lubanski, o time subiria para o quarto lugar na temporada 1975/76, classificando-se pela primeira vez para a Copa da Uefa, na qual cairia na segunda fase diante do Barcelona de Johan Cruyff e Johan Neeskens, perdendo por 2 a 0 no Camp Nou antes de arrancar uma vitória por 2 a 1 em casa, em seu alçapão do Daknamstadion. O retorno às competições europeias se daria quatro anos depois, na campanha mais marcante da história do clube.

Na temporada 1978/79, o time alcançaria novamente a quarta colocação contando com o brilho de dois jovens atacantes oriundos de países nórdicos. O forte dinamarquês Preben Elkjaer-Larsen (a quem se costumava referir então como “Larsen”), de 21 anos, veio do Colônia, pelo qual havia conquistado a Bundesliga, mas praticamente sem entrar em campo. E o habilidoso islandês Arnór Gudjohnsen, de apenas 17 anos, fora contratado do Víkingur local.

Um outro quarto lugar (o terceiro em cinco anos) em 1979/80 levou o clube novamente à Copa da Uefa e a se reforçar com outros dois estrangeiros, estes bem mais experientes. O polonês Grzegorz Lato, artilheiro da Copa do Mundo de 1974, havia sido liberado pelo governo de seu país para atuar no exterior e logo tomou o rumo do Lokeren, num período em que a Bélgica abrigava muitos atletas vindos da Europa Oriental.

Outro, também vindo do outro lado da Cortina de Ferro, era o tchecoslovaco Karol Dobias, um polivalente que podia atuar como lateral-direito, volante ou até mesmo zagueiro. Campeão da Eurocopa de 1976 com a Tchecoslováquia, marcando inclusive um dos gols sobre a Alemanha Ocidental na final, chegara contratado junto ao Bohemians de Praga, após disputar a edição seguinte do campeonato europeu de seleções, na Itália.

Os destaques belgas daquela equipe eram três nomes que mais tarde integrariam os convocados da seleção para a Copa do Mundo de 1982: o lateral-esquerdo Maurice De Schrijver, o armador René Verheyen e o ponta-esquerda Raymond Mommens. Por fim, outro jogador emblemático daquele time, embora sem passagem pela seleção de seu país, era o excêntrico goleiro holandês Bob Hoogenboom, titular desde a estreia na elite.

Campeão da Copa da Bélgica em 1978 com o Beveren, o treinador Urbain Braems aportou logo em seguida em Lokeren, mas permaneceu apenas por uma temporada antes de ser contratado pelo Anderlecht. Porém, seu assistente Urbain Haesaert ficaria para dar continuidade ao trabalho, auxiliado no comando da equipe pelo tchecoslovaco Jozef Vacenovsky. A dupla estaria à frente do clube de Flandres Oriental para a excelente campanha de 1980/81.

O elenco principal

A versatilidade de quase todos os jogadores e a variação constante nas escalações em virtude das várias competições simultâneas tornavam vãs as tentativas de se estabelecer um time-base. Mas havia um elenco principal que costumava ser utilizado com mais frequência. Sob as traves, porém, Bob Hoogenboom, já em seus 31 anos ao início da temporada e antigo reserva de Heinz Stuy no Ajax do início dos anos 1970, era intocável.

A estrutura tática mais comum era um 4-3-3 bastante compacto com um dos defensores centrais fazendo a função de líbero, mas podendo variar até para um ofensivo 4-2-4 em certos momentos. Dentro disso, os nomes mudavam dentro dos grupos de jogadores de defesa (os quatro zagueiros e um volante) e de ataque (especialmente o ponta-de-lança e os três homens de frente). René Verheyen, meia talentoso, era o elo entre os dois setores.

Do grupo dos defensores faziam parte Karol Dobias (que poderia atuar como lateral-direito, meia de contenção ou zagueiro central), Roland Ingels (lateral-direito ou zagueiro), Ronny Somers (volante que chegou a atuar também nas laterais), Bob Dalving (líbero ou zagueiro central), Eddy Snelders (meia que podia ser recuado para a zaga), Maurice De Schrijver (lateral-esquerdo ou líbero) e, por fim, Marc Verbruggen (lateral-esquerdo ou zagueiro).

Já no bloco ofensivo, que contava com apoio de René Verheyen, revezavam-se Grzegorz Lato (ponta-direita de origem, mas que podia ser escalado por dentro, como um ponta-de-lança vindo de trás), Arnór Gudjohnsen (ponta-direita), Raymond Mommens (ponta-esquerda que podia ser armador ou finalizador), Wlodzimierz Lubanski (atacante mais centralizado) e Preben Elkjaer-Larsen (centroavante que também abria pelos lados).

Como não havia limite para escalar os estrangeiros no campeonato ou na copa belga, não era raro ver Hoogenboom, Dobias, Lato, Gudjohnsen, Lubanski e Elkjaer, todos ao mesmo tempo entre os titulares. Já nos torneios europeus, a regulamentação da Uefa permitia apenas quatro em campo e um no banco – o que fazia com que Dobias fosse excluído com frequência do time, além de colocar Gudjohnsen e Lubanski disputando uma vaga.

A bola começa a rolar

O Campeonato Belga daquela temporada foi dominado de ponta a ponta pelo Anderlecht, que trouxe o técnico iugoslavo Tomislav Ivic e acrescentou ao seu já poderoso elenco o zagueiro iugoslavo Luka Peruzovic, o líbero dinamarquês Morten Olsen e o meia espanhol Juan Lozano para reconquistar o título que não vencia desde 1974. Os Mauves garantiram a taça ainda na 29ª rodada (de um total de 34) e terminaram 11 pontos à frente do vice Lokeren.

Mas a trajetória dos Tricolores naquela temporada também rendeu boas histórias. Já de saída, na primeira e terceira rodadas, o clube recebeu seus dois maiores rivais locais e venceu ambos: fez 1 a 0 no Gent e 2 a 0 num Beveren que ainda conservava grande parte da equipe campeã nacional de 1979, incluindo o goleiro da seleção Jean-Marie Pfaff. No entanto, entre um jogo e outro, o time perdeu por 2 a 1 na visita ao Standard de Liège.

Naquela metade inicial do primeiro turno, essa foi a rotina da equipe: vencer no Daknamstadion e ser derrotada quando atuava fora de casa, exceto por um empate em 1 a 1 diante do fraco Berchem. A partir de meados de outubro, porém, o time emendou quatro vitórias seguidas, que o catapultaram para o terceiro lugar. Em casa, goleou o Kortrijk (5 a 1) e derrotou o RFC Liège (1 a 0). Fora, bateu o Beerschot (2 a 0) e o Beringen (1 a 0).

Por volta desta época, as campanhas copeiras também já haviam começado. Na Copa da Bélgica, o clube entrou na fase de 32-avos de final enfrentando o modesto Herentals, da terceira divisão. O jogo original acabou interrompido por motivos de chuva forte pouco após o início do segundo tempo, quando os Tricolores venciam por 1 a 0. Em novo jogo, a vitória foi um pouco mais folgada, por 3 a 1. Na semana seguinte viria a estreia na Copa da Uefa.

O Lokeren sofreu um bocado para superar seu primeiro obstáculo na competição europeia. O Dínamo de Moscou não vivia exatamente um bom momento (terminaria o campeonato soviético de 1980 apenas na 14ª colocação), mas saiu na frente no Daknamstadion com um gol de Valeri Gazzaev aos 28 minutos da etapa inicial, e o empate belga só veio a quatro minutos do fim do jogo, num pênalti cobrado por René Verheyen.

No jogo da volta, o empate sem gols que classificava os soviéticos persistia até a última volta do ponteiro. Até que surgiu uma falta frontal próxima à área do Dínamo. A cobrança forte, seca e à meia-altura de René Verheyen passou pela barreira e morreu nas redes, no canto direito do experiente goleiro Vladimir Pilguy, para o delírio dos Tricolores. Uma classificação cardíaca, que devolveu a confiança numa boa campanha continental.

O próximo adversário seria o Dundee United, força ascendente no futebol escocês e bicampeão da Copa da Liga de seu país em 1980 e 1981. Em Tannadice Park, os belgas chegaram a abrir o placar aos 15 minutos da etapa final, com Raymond Mommens, antes de sofrerem o empate dos Tangerines por meio de Willie Pettigrew seis minutos depois. De todo modo, era um resultado a ser comemorado com vistas ao jogo de volta.

Agora com o 0 a 0 jogando ao seu favor, o Lokeren conseguiu segurar o placar em branco diante de sua torcida e avançou graças ao gol marcado na Escócia. Entre os jogos de ida e volta, o time também avançou na Copa da Bélgica, derrotando o KV Mechelen, então na segunda divisão, por 3 a 0. Dois gols de pênalti de René Verheyen, um em cada tempo, e outro de Arnór Gudjohnsen com bola rolando selaram a passagem às oitavas de final.

A boa sequência na liga acabou encerrada por duas derrotas nas últimas semanas de novembro. A primeira, um renhido 3 a 2 na visita ao Club Brugge, fez com que o clube descesse para a quarta posição. Já a segunda seria o único revés em casa naquela temporada. Um resultado pesado, no entanto: 4 a 1 para o Antuérpia. Mas entre um e outro, o clube obteve uma grande vitória que ajudou a encaminhar mais uma classificação na Copa da Uefa.

Vice-campeã espanhola em 1980 e a caminho de seu primeiro título nacional naquela temporada (que se transformaria em bicampeonato em 1982), a Real Sociedad tinha uma equipe forte, com um punhado de jogadores da seleção da Espanha – alguns haviam inclusive enfrentado a Bélgica pela Eurocopa, em junho daquele ano. Entre eles, o grande destaque estava no gol: Luís Miguel Arconada, então apontado como um dos melhores do mundo na posição.

Diante da enorme pressão exercida pelo Lokeren durante todo o jogo de ida, disputado em 26 de novembro de 1980 no Daknamstadion, de fato Arconada brilhou com um sem-número de defesas espetaculares que impediram uma goleada. Mas mesmo ele não pôde fazer nada quando, aos dois minutos do segundo tempo, Raymond Mommens cobrou falta na área pelo lado esquerdo e Grzegorz Lato cabeceou firme para marcar o gol da vitória dos belgas.

A partida de volta aconteceria em 10 de dezembro, quatro dias após o empate em 1 a 1 diante do Waterschei fora de casa pela liga. E o Lokeren começou a confirmar a passagem às quartas de final ainda na primeira etapa, aos 21 minutos, quando Elkjaer foi lançado por Lato e chutou forte de fora da área para vencer Arconada. O mesmo Elkjaer ampliaria aos três minutos do segundo tempo, com um bonito voleio após cobrança de escanteio.

Nos minutos finais, a Real Sociedad ainda descontaria com um gol de pênalti de Roberto López Ufarte e empataria com Jesús Zamora em jogada individual, mas não evitaria a classificação do Lokeren, que ainda avançaria mesmo se levasse mais um gol. Quatro dias depois, em seu último jogo de 1980, o time se reencontrou com a vitória na liga batendo o líder Anderlecht por 2 a 0, salvaguardando a quarta posição e encerrando muito bem o ano.

Vitória arrasadora no início de 1981

O pontapé inicial de 1981 viria com uma tranquila goleada de 4 a 1 sobre o RFC Liège pelas oitavas de final da Copa da Bélgica, logo no dia 4 de janeiro. De volta à liga, o clube perdeu por 1 a 0 na visita ao Waregem, mas em seguida arrancou um bom empate em 1 a 1 diante do Beveren na casa do rival. Mas nem mesmo a boa atuação no Freethiel poderia indicar o quão avassalador seria o triunfo seguinte, no primeiro jogo em casa pela liga no ano.

Em 25 de janeiro, a equipe pisou o gramado do Daknamstadion precisando vencer para se manter na quarta posição (Molenbeek e Lierse vinham um ponto atrás). O adversário naquela segunda rodada do returno era o Berchem, 14º colocado, com quem os Tricolores haviam empatado no jogo do turno em 1 a 1 e que, curiosamente, contava com dois quase desconhecidos brasileiros no elenco: o ponteiro Marquinhos (ex-Inter de Limeira) e o meia Adílson.

O primeiro tempo foi até econômico em gols marcados. Mommens fez 1 a 0 aos 29 minutos após confusão na área e, dois minutos depois, passou por vários defensores antes de fazer a assistência para o chute de virada de Verheyen, ampliando o placar. Aos 37, o zagueiro Luc Dreesen cometeu pênalti bobo em Snelders. Cobrador oficial do time, Verheyen se encarregou de converter sem problemas e fechar o placar da etapa inicial em 3 a 0.

No segundo tempo, o Lokeren voltou com a fome de gols redobrada. Aos cinco minutos, Elkjaer arrancou, tabelou com Lato e marcou o quarto. Dois minutos depois, nova tabelinha, agora entre Mommens e Verheyen, resultou no quinto tento. E ainda aos 12, De Schrijver desceu ao ataque pela esquerda e cruzou para Elkjaer chutar forte, anotando o sexto. Aos 24, Lato faria o seu ao receber de Mommens e bater sem chances para o goleiro Tony Goossens.

Mesmo perdendo de sete, o Berchem jogava limpo e conseguiria um gol de honra aos 34, quando Hoogenboom deu rebote em um chute forte de Jos van Pelt e o brasileiro Adílson aproveitou. Mas, nos dez minutos finais, o Lokeren continuaria em cima e seguiria balançando as redes – já no minuto seguinte, Elkjaer marcaria o oitavo, alcançando sua tripleta pessoal. Aos 38, viria o nono gol, no momento mais emocionante da partida.

Na virada do ano, Urbain Haesaert havia decidido sacar Lubanski da equipe titular, uma vez que o veterano polonês não tinha mais gás para se dedicar ao intenso trabalho de marcação feito pela equipe. Embora a decisão fizesse sentido, o talento e o carisma do atacante envolveram a medida em críticas pesadas e muitos protestos por parte dos torcedores. Contra o Berchem, Lubanski começou no banco e entrou aos 12 minutos da etapa final.

A sete minutos do fim do jogo, Verheyen passou por vários defensores adversários e ficou frente a frente com o goleiro Goossens. No entanto, em vez de chutar, rolou para Lubanski finalizar, anotando o nono tento para o delírio nas acanhadas arquibancadas do Daknam. O polonês ainda teve tempo de retribuir a gentileza aos 42: arrancou do meio-campo, fugiu de uma falta e, em vez de finalizar, passou de volta a Verheyen para fechar o massacre em 10 a 1.

O placar igualava a maior goleada aplicada pelo clube em sua história na primeira divisão belga até ali, obtida pouco mais de um ano antes, no dia 17 de novembro de 1979, quando arrasou o pequeno Hasselt pelos mesmos 10 a 1. Por ironia, o modesto placar do Daknamstadion de então não comportava um escore de dois dígitos. Assim, em ambas as ocasiões, quando o Lokeren chegou ao décimo gol, o marcador passou a mostrar “0-1”.

Nos três jogos seguintes, todos pela liga, a equipe ficou no empate em 1 a 1 na visita ao Cercle Brugge, mas reabilitou goleando o Winterslag por 4 a 1 em casa e batendo o Lierse, então rival direto pela quarta colocação, por 2 a 1 na casa do adversário. O próximo desafio já seria pelas quartas de final da Copa da Bélgica, uma etapa já disputada em partidas de ida e volta e na qual o Lokeren teria pela frente o clássico regional diante do Beveren.

Despachando o rival na Copa da Bélgica

Na partida de ida, no estádio Freethiel, o Beveren parecia já ter dado um grande passo em direção às semifinais no início da etapa final, quando já vencia por 2 a 0, gols marcados por seu artilheiro alemão Erwin Albert: o primeiro aos 35 minutos do primeiro tempo num pênalti e o segundo aos oito da etapa complementar. Até que, aos 27, foi a vez do Lokeren ter uma penalidade ao seu favor – mas sem ter em campo seu cobrador oficial, René Verheyen.

Em meio a muita confabulação, emergiria um herói improvável que comandaria a reação do time: o goleiro Bob Hoogenboom saiu de sua área, cruzou toda a extensão do campo, apanhou a bola e colocou na marca. Na casa do grande rival, ele bateria o pênalti que poderia recolocar a equipe no jogo. Do outro lado, nada menos que Jean-Marie Pfaff, arqueiro titular da seleção belga e um dos grandes nomes da posição no futebol mundial naquela década.

Tremer? Nem pensar. Com calma, Hoogenboom converteu a cobrança e diminuiu para o Lokeren. E a três minutos do fim, Raymond Mommens igualaria o placar, frustrando a torcida da casa e levando um ótimo resultado para a partida de volta no Daknamstadion. O compromisso seguinte, uma movimentada vitória doméstica sobre o Molenbeek por 5 a 3, fez o clube pular para a terceira posição no campeonato, ultrapassando o Standard de Liège.

Embalado, o time se preparou para a volta dos confrontos europeus: o AZ ’67, equipe sensação do vizinho futebol holandês, era o adversário nas quartas de final da Copa da Uefa. Mesclando alguns veteranos com revelações que em breve despontariam na seleção holandesa (além de alguns bons estrangeiros), o clube de Alkmaar rondaria o título nacional até levantá-lo bem naquela temporada, com campanha bastante impressionante.

Sua força em casa seria determinante naquele confronto. No jogo de ida, em 4 de março de 1981, o time marcou duas vezes logo no início do jogo – o atacante Pier Tol abriu o placar aos nove minutos e o ponteiro austríaco Kurt Welzl ampliou aos 17 – e criou outras chances para aumentar a contagem. O Lokeren, desfalcado de Elkjaer (o que abriu espaço para a única partida de Dobias naquela campanha), não teve o mesmo poderio ofensivo.

A derrota de 4 a 2 para o Kortrijk no jogo seguinte, pela liga, expôs problemas defensivos: o time havia sofrido gols em todos os 11 jogos que disputara até ali naquele ano de 1981, com números preocupantes nos últimos três, quando viu sua rede ser balançada nove vezes. Mas o setor logo se acertaria, bem a tempo de dois jogos de volta valendo por quartas de final de mata-matas, ambas no Daknamstadion, contra o Beveren e o AZ.

Diante dos rivais regionais, o Lokeren se aproveitou do ânimo revigorado pela reação no jogo de ida e despachou o Beveren sem dificuldades. Ronny Somers abriu a contagem aos 22 minutos da etapa inicial. E após o intervalo, o time confirmaria a classificação às semifinais marcando mais duas vezes: Elkjaer, aos 21 minutos, anotou o segundo. E para evitar qualquer reação adversária, Lato fechou a vitória por 3 a 0 a dois minutos do fim.

Já contra o AZ, a história não foi tão feliz. Os visitantes começaram bem, com chances de definir o duelo. Mas o gol de Verheyen aos 36 minutos, num chutaço da intermediária batendo o goleiro Eddy Treijtel, pôs fogo o jogo e reabriu a disputa. Nos contragolpes, os holandeses assustavam, fazendo Hoogenboom trabalhar. No fim, a insuficiente vitória de 1 a 0 se mostraria frustrante, mas o time caía de pé: o adversário seria finalista daquela edição.

O ótimo desfecho na liga

Com a equipe eliminada da Copa da Uefa e as semifinais da Copa da Bélgica marcadas para só depois do fim do campeonato, os dez jogos seguintes foram todos pela reta final da liga. E neles, o clube obteve um retrospecto exemplar, com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota, para o já coroado campeão Anderlecht em Bruxelas. A sequência final seria marcada por grandes triunfos e a subida de mais um degrau na classificação.

O time empatou sem gols na visita ao RFC Liège e em seguida derrotou o Beringen por 2 a 0 em casa. Em 1º de abril, uma quarta-feira, foi a vez de cumprir uma partida adiada da rodada de 15 de março, diante do Beerschot em casa, que também terminou 0 a 0. Se por um lado, aquele seria o único empate no Daknamstadion na campanha, por outro era o quinto consecutivo que a defesa do Lokeren passava sem ser vazada.

O time voltaria a ter sua rede balançada no jogo seguinte, diante do Club Brugge, mas registraria uma ótima vitória por 3 a 1, consolidando-se na terceira posição, mas já de olho na vice-liderança, então nas mãos do Beveren. Em 11 de abril, os auriazuis foram batidos em casa pelo Winterslag por 2 a 0, entregando o título por antecipação ao Anderlecht, que arrasara o Beerschot por 8 a 2. No dia seguinte, perderiam também o segundo posto para o Lokeren.

Os Tricolores venceriam o Antuérpia dentro do Bosuilstadion por 1 a 0. O único gol foi marcado aos 37 minutos do primeiro tempo pelo lateral-esquerdo Maurice De Schrijver, num toque preciso de pé direito, após cobrança de falta, em bola que ainda resvalou no defensor adversário Patrick Ipermans e tomou o caminho das redes. O resultado levaria o Lokeren aos mesmos 38 pontos do Beveren, mas com saldo de gols bem superior (27 contra 19).

Na partida seguinte, as credenciais para se consolidar na segunda colocação foram mais uma vez reiteradas com uma grande vitória sobre o Waterschei. A equipe dominou o jogo desde o início, mas foi para o intervalo em desvantagem depois que Heinz Gründel aproveitou cochilo da defesa para abrir o placar. No segundo tempo, porém, reagiria de maneira arrasadora, apresentando o que o jornal De Voorpost chamaria de “recital Verheyen-Larsen” (no caso, Elkjaer).

Aos oito minutos da etapa final, o empate chegaria quando Verheyen escapou da marcação para acertar uma bela cabeçada. Daí em diante, Elkjaer se consagraria como o artilheiro da tarde. Aos 17, receberia passe de Verheyen para virar o placar. O terceiro sairia aos 32, após combinação com Lubanski. Aos 37, após outra jogada sensacional de Verheyen, driblando dois adversários, o dinamarquês receberia para anotar o quarto.

Três minutos depois, uma bela jogada coletiva encerraria a goleada, mais uma vez iniciada por Verheyen. O meia cruzou da esquerda, Mommens fez o corta-luz e a bola sobrou de novo para Elkjaer, que só teve o trabalho de empurrar para as redes, anotando seu quarto gol no jogo (sua melhor marca individual naquela temporada) e fechando o placar em 5 a 1. Com o empate do Beveren diante do Molenbeek, o Lokeren livrava um ponto na segunda posição.

Na rodada seguinte, os Tricolores seriam derrotados em Bruxelas pelo Anderlecht, já de taça na mão, por 3 a 1. Mas nos três últimos jogos da campanha na liga, já adentrando o mês de maio de 1981, o time registraria uma trinca de grandes vitórias. Primeiro, um categórico 4 a 0 diante do Waregem. Em seguida, 4 a 1 sobre o Gent fora de casa, com mais dois gols de Elkjaer. E por fim, 2 a 0 no Standard Liège (dois gols de Lato), selando o vice-campeonato.

A reta final da Copa da Bélgica

Depois de alcançar aquela que seria até hoje a melhor campanha de todos os tempos na liga, o clube tentaria fazer história também na Copa da Bélgica, depois de ter chegado às semifinais da competição apenas pela segunda vez – em 1978, havia sido eliminado pelo rival Beveren, em quem agora dera o troco. Mas no caminho até a decisão ainda haveria o Lierse, time de Erwin Vandenbergh, artilheiro da liga com 22 gols, dois a mais que Elkjaer.

Os jogos seriam disputados nos dois últimos domingos de maio. No dia 24, em Lier, o Lokeren saiu na frente com gol de Lato aos 29 da etapa inicial, mas o time da casa empatou ainda antes do intervalo por meio de Herman Helleputte. O empate persistiu até o fim, levando a definição para o Daknamstadion no dia 31. Na outra chave, o Standard de Liège praticamente encaminhou sua passagem ao golear o Waterschei fora de casa por 5 a 2.

Na partida de volta, a classificação do Lokeren à final também viria com placar elástico. Lato abriu a contagem logo aos dez minutos, mas a goleada ocorreria mesmo no segundo tempo. Aos 19, foi a vez de Lubanski (que entrara no intervalo no lugar de Gudjohnsen) marcar o segundo. O terceiro veio aos 37 com Verheyen, cobrando penalidade com categoria. E três minutos depois, Elkjaer fecharia o placar anotando o quarto gol.

O time chegava embalado à decisão, a ser disputada em jogo único no campo neutro de Heysel, no dia 7 de junho, mas do outro lado o Standard de Liège – que vencera o Waterschei também na volta por 3 a 2 – era outro forte candidato ao título. Seu técnico era ninguém menos que o lendário austríaco Ernst Happel, campeão europeu com o Feyenoord em 1970 (e mais tarde com o Hamburgo em 1983) e técnico da Holanda na Copa do Mundo de 1978.

Naquela equipe do Standard na final, eram sete os nomes frequentes na seleção belga: o jovem goleiro Michel Preud’Homme, o lateral-direito e capitão Eric Gerets, o zagueiro Michel Renquin, o lateral-esquerdo Gerard Plessers, os meias Guy Vandersmissen e Jos Daerden e o atacante Eddy Voordeckers. Os demais eram estrangeiros, com destaque para o ponta-direita holandês Simon Tahamata e o centroavante sueco Ralf Edström.

Mesmo com o ligeiro favoritismo atribuído ao Standard, foi o Lokeren quem começou sufocando o adversário nos minutos iniciais. Reclamou de pênalti numa finalização de Lubanski que bateu no corpo de um defensor dos Rouches posicionado sobre a linha de gol e, minutos depois, acertou o pé da trave numa cabeçada de Elkjaer. Quando parecia que seu gol já amadurecia e era apenas questão de tempo, os Tricolores levaram um balde de água fria.

Aos 24 minutos, Simon Tahamata recebeu na meia esquerda e aprofundou para a passagem de Gerard Plessers. O lateral foi à linha de fundo e cruzou na segunda trave, para a cabeçada de Ralf Edström abrindo o placar para o Standard de Liège na decisão. O primeiro tempo terminaria com aquele placar de 1 a 0, e o Lokeren teria todo o intervalo para colocar a cabeça no lugar e tentar uma reação nos 45 minutos que viriam.

Mas logo aos oito minutos do segundo tempo, Jos Daerden apanhou uma bola mal rebatida pela defesa num escanteio e marcou o segundo gol do Standard. O abatimento e desconcentração dos jogadores do Lokeren ficaram definitivamente nítidos quatro minutos depois, quando De Schrijver errou um passe na saída de bola e Mommens teve de derrubar Voordeckers na área. Pênalti que Tahamata converteu com tranquilidade.

No último minuto, com o time do Lokeren já entregue, o zagueiro Erhan Önal roubou uma bola na intermediária ofensiva, tabelou e surgiu livre para tocar na saída de um estático Hoogenboom, decretando a goleada de 4 a 0 e confirmando o título aos Rouches. Um placar inimaginável pelo início de jogo das duas equipes e bastante doloroso para os Tricolores, ao mesmo tempo tão perto e tão longe da glória naquela temporada.

O clube ainda obteria um quarto lugar na liga na temporada seguinte, chegando ainda às oitavas de final da Copa da Uefa, eliminando Nantes e Aris Salônica, antes de cair diante do bom time do Kaiserslautern de Hans-Peter Briegel. Na Copa de 1982, o Lokeren seria representado por quatro jogadores: De Schrijver, Verheyen e Mommens na Bélgica e Lato na Polônia (Lubanski já havia sido convocado como atleta do clube em 1978).

Dois anos depois, seria a vez de Elkjaer brilhar como jogador do Lokeren defendendo a Dinamarca que surpreendeu o continente ao chegar às semifinais da Eurocopa de 1984. Após aquele torneio ele deixaria o clube, sendo negociado com o Verona – pelo qual conquistaria a Serie A italiana já em sua temporada de estreia no Calcio. Aquele ano também marcaria o declínio dos Tricolores, que passariam a figurar do meio de tabela para baixo no futebol belga.

Da temporada 1983/84 até o primeiro rebaixamento, em 1993, o clube terminou o campeonato no bloco de cima apenas uma vez, quando conseguiu mais um quarto lugar em 1987. Depois de três campanhas na segunda divisão, o clube retornou para seu segundo longo período na elite, entre 1996/97 e 2018/19. Nessa passagem, chegaria a vencer duas vezes a Copa da Bélgica, em 2012 e 2014, além de se classificar para torneios europeus.

Após o segundo rebaixamento, um grupo de investidores liderado por Louis De Vries e Alexander Janssens assumiu a direção. Mas menos de um ano depois, a situação financeira da agremiação já era irreversível. Com a falência decretada em 20 de abril deste ano, o clube anunciou dois dias depois sua fusão com o KSV Temse para dar origem ao KSC Lokeren-Temse, que disputará a segunda divisão amadora, equivalente à quarta nacional.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.