Muitas vezes, o Liverpool parece deixar de ser um clube. Ele se transforma em uma entidade viva. Um ser amorfo, vermelho, composto por milhares e milhares de almas compromissadas a fazer um gigante se erigir em Anfield. Atraído pelo cântico irresistível desta massa (que é muitos, mas também é só um), o ser inquebrantável surge em campo. Perpetua sua mística vencendo partidas de futebol. Foi assim que os Reds registraram seus maiores feitos, com uma menção especial à classificação contra o Barcelona nas semifinais da Champions League. Pois esse fenômeno único, tão característico da atmosfera de Merseyside, se moveu até Madri neste sábado decisivo. Não era um clube que tomou as ruas da cidade e as arquibancadas do Wanda Metropolitano. Era uma entidade viva, composta por milhares e milhares de almas.

As imagens que foram gravadas na Espanha, e rodaram o mundo, confirmam a dimensão do Liverpool. São raros os clubes de futebol que proporcionam tamanha mobilização, tamanha devoção. E nenhum outro da maneira particular que se vê entre os Reds. Há uma unidade que permite aos torcedores do clube compartilharem uma mesma identidade. São semelhantes na profissão de fé que se renova a cada semana, em cima das arquibancadas, e dividem o mesmo credo, a mesma fidelidade, o mesmo comprometimento. Ser Liverpool é se entregar de corpo e alma para se transformar em algo além. E esse algo, além da própria compreensão em alguns momentos, é contagioso.

A torcida do Liverpool possui uma conexão muito forte entre si. A voz e a cor vermelha são os elementos que fundem a multidão, enquanto há uma transmissão incessante de energia, de sintonia, de pensamentos. Há sinapses entre os fanáticos, em impulsos que fluem para tomar a atmosfera. A quem vive de dentro, o estado de euforia possui o corpo. A quem vê de fora, o risco de hipnose é praticamente incontornável. E esse arrebatamento acaba se espalhando feito maré. É o que se viu em Madri, que já tinha se visto em Istambul. Antes do jogo, nas ruas abarrotadas. No estádio, pela força que regeu o clima da decisão em tantos momentos, sobretudo nos minutos finais.

O gol de Divock Origi, o segundo do Liverpool, o que valeu o título, desencadeou um instante com um quê de sobrenatural. Já não existiam mais dúvidas de quem conquistaria a taça. Já não havia vacilações que abalassem a confiança dos torcedores. Por isso mesmo, o canto mais genuíno soou alto. Pareceu se tornar denso no ar, como se envolvesse os jogadores. Aos adversários, a lamentação de que não seria possível. Aos Reds, o conforto pela glória que finalmente chegara. E a única canção possível àquele momento era You’ll Never Walk Alone. Não é um hino, é o ethos do Liverpool. Aquilo que dita o ser, que arrasta as massas, que aglutina. É a metáfora perfeita àquilo que não poderia ser traduzido de outra maneira. Que, sentimentos à flor da pele, conduziu o clube a mais uma conquista da Europa.

A entidade viva, mais viva do que nunca, recuperou a taça que sempre serviu como elemento mágico para elevar essa simbiose. O êxtase coletivo transbordou em Madri e, dentro de algumas horas, volta como tsunami às ruas de Merseyside, para se despejar como uma multidão vermelha.