Existe muita controvérsia sobre a suposta ligação de Roman Zozulya com a extrema-direita e o neonazismo ucranianos, mas o caso envolvendo o jogador do Albacete, no fim de semana, em partida contra o Rayo Vallecano, deixou clara uma coisa: ao menos em termos do que vale suspensão de um jogo, a liga espanhola considera acusar um jogador de neonazista um problema maior do que proferir insultos racistas, homofóbicos ou misóginos.

No domingo, a partida entre Rayo Vallecano e Albacete, pela segunda divisão espanhola, foi suspensa pelo árbitro por causa de gritos da torcida do time de Vallecas, bairro de raízes operárias em Madri, contra Zozulya, ucraniano do Albacete, a quem os torcedores acusavam de ser um “puto nazi”.

Na súmula da partida, o árbitro López Toca afirmou que, depois de seguir o protocolo de paralisação momentânea, consultou a coordenadora de segurança do jogo, que disse que “as forças não podiam garantir a segurança dos participantes do encontro na atual situação”. Pediu então para que os torcedores do setor de onde vinham os insultos fossem retirados do estádio, mas ouviu que “não havia efetivos suficientes para a desocupação”. Com isso, “esgotando as possibilidades”, decidiu pelo fim do jogo.

Oficialmente, os envolvidos se pronunciaram com repúdio às ações da torcida do Rayo Vallecano. A Associação de Jogadores de Futebol da Espanha (AFE) condenou os “insultos contínuos” ao atacante; o Rayo Vallecano disse acreditar nos valores de “não-discriminação a nenhuma pessoa por sua raça, religião ou ideologia”, condenando “qualquer manifestação de violência física ou verbal contrária a esses valores”.

Para entender a relação entre Zozulya e a torcida do Rayo Vallecano, precisamos voltar quase três anos no tempo. Tentando sobreviver na segundona espanhola em 2016/17, o clube foi atrás de reforços e, no fechamento da janela de inverno, no fim de janeiro, anunciou a contratação de Zozulya, que pertencia ao Betis, por empréstimo. Rapidamente, a torcida reagiu, afirmando que não queria fascismo ou um neonazista em seu clube.

A resposta do Rayo Vallecano foi rechaçar a ligação de seu novo contratado com a extrema-direita ucraniana, e o próprio jogador, em declaração compartilhada pelo clube, afirmou que suas ações coincidiam “com os valores sociais defendidos pelo Rayo Vallecano”. O apelo não funcionou, os muros do estádio do Rayo foram pichados com mensagens dizendo que Vallecas “não era lugar para nazistas”, e o empréstimo foi cancelado.

As polêmicas em torno de Zozulya têm como origem o apoio do jogador em 2014 às forças paramilitares ucranianas envolvidas na guerra civil no leste da Ucrânia, entre o governo ucraniano e separatistas pró-Rússia. No ano seguinte, após amistoso contra a Espanha, o atleta leiloou a camisa que usou em campo para levantar fundos para a 25ª Brigada Aérea ucraniana.

No passado, ainda expressou sua admiração pelo ícone da extrema-direita ucraniana Stepan Bandera, líder nacionalista antissemita do século XX, aparecendo em foto com um cachecol do chefe da antigo Organização dos Nacionalistas Ucranianos.

Naturalmente, Zozulya ganhou o apoio do governo ucraniano, com o presidente Volodymyr Zelenski afirmando que o jogador era um “verdadeiro patriota”, além da diplomacia ucraniana acusar os torcedores de caírem na suposta “propaganda russa anti-ucraniana”. Vale apontar, no entanto, que boa parte dos voluntários paramilitares no conflito no leste do país possui visões políticas ligadas ao neonazismo.

Roman Zozulya com cachecol de líder de extrema-direita antissemita ucraniano (Reprodução/MARCA)

Este pano de fundo sobre Zozulya é toda uma história à parte, e, independentemente de quais sejam seus ideais políticos, o principal ponto de toda esta polêmica no fim de semana é o posicionamento da liga espanhola.

A Liga de Fútbol Profesional, que administra as duas primeiras divisões da Espanha, tem um histórico de leniência com incidentes racistas, homofóbicos e mesmo misóginos. Casos emblemáticos vêm à mente, como a banana jogada em direção a Dani Alves, as ofensas homofóbicas a Guti, a faixa em ofensa a Shakira, nenhum deles acarretando em suspensão de um jogo.

Diante da acusação de nazista a Zozulya, a resposta foi rápida, e, mesmo com tempo para digerir o assunto, a liga reagiu em apoio à decisão da arbitragem de encerrar a partida, declarando seu “mais sincero repúdio” ao ocorrido.

É importante apontar que Javier Tebas, presidente da liga, em janeiro deste ano declarou, em entrevista a uma rádio espanhola, o seu voto no partido de extrema-direita Vox. Dois anos antes, em 2017, foi repudiado ao colocar homossexuais no mesmo barco que nazistas. “No Rayo (Vallecano), não querem nazistas. E se amanhã outra equipe não quiser homossexuais?”, disse na rádio Onda Cero, ao falar justamente sobre o caso envolvendo Zozulya e sua transferência fracassada ao time de Vallecas.

Verdade seja dita, Tebas e a liga espanhola provavelmente têm levantado às mãos aos céus, agradecendo pelas repetidas cenas de racismo na Itália que têm conferido ao futebol italiano a pecha pública de representante “quase único” da discriminação no futebol europeu. A sujeira que o futebol espanhol tem colocado debaixo de seu próprio tapete, por outro lado, não é pouca coisa.