Alguns jogadores têm maior capacidade de compreender e falar sobre aspectos táticos do futebol do que outros. Dani Olmo parece estar no grupo dos que enxerga com maior clareza os mecanismos por trás de uma partida, e por isso é tão interessante ouvir o que ele tem a dizer, sobretudo com propriedade, quando é o caso de descrever sua própria equipe. Em entrevista ao jornal El País, o meia do RB Leipzig destrinchou como podia o jogo do time de Julian Nagelsmann, que enfrenta o Atlético de Madrid nesta quinta-feira (13), pelas quartas de final da Champions League.

Uma característica marcante desta equipe é a constante movimentação de seus jogadores, que intercalam posições em campo em busca sempre dos melhores espaços e de confundir o adversário. O sistema tático de Nagelsmann costuma mudar muito também, mas existe um elo entre eles.

“Podemos encarar cada partida com uma formação diferente, mas, no fim, jogamos com uma ordem dentro da desordem”, resume Olmo. O meia criador afirma que ele e seus companheiros têm “liberdade para mudar de posição, para sair de nossas zonas, buscar o espaço livre e se colocar lá”. Porém, com uma ressalva: “Há sempre os automatismos que é preciso cumprir”.

“Por exemplo, se o atacante faz determinado movimento, o ‘mediapunta’ (meio-campista mais próximo do atacante, responsável pela armação, mas também com chegada ao gol) tem que reagir e fazer outro movimento. Depende da posição em que você se encontra. Por isso, no elenco, temos jogadores muito polivalentes, como Laimer, que pode jogar tanto de meia central como de ‘carrilero’ (espécie de box-to-box, mas com menor chegada na área ofensiva e maior responsabilidade defensiva), ou Sabitzer, um ‘mediapunta’ que joga em todas as posições do meio de campo. Rodamos muito dentro de uma ordem. Observo todo o tempo onde estão os espaços livres para receber a bola e para que os meus companheiros a recebem. Às vezes, você faz desmarques de ruptura (ação de se movimentar para sair da marcação em profundidade) sabendo que não te darão a bola. Porém, você o faz para criar um espaço atrás.”

No Leipzig de Nagelsmann, a responsabilidade dos jogadores na condução da partida é grande, mas isso não significa que o técnico não tenha uma contribuição mais direta. “O mister nos dá certa liberdade para ocupar os espaços, mas também nos dá soluções quando não encontramos respostas, automatismos que nos ajudam a desenvolver nosso futebol. Treinamos muitas coisas. Não quero dar pistas ao Atlético. Trata-se de romper as linhas de pressão. Tudo depende das qualidades dos jogadores e da posição da bola.”

Tudo volta, no fim das contas, para a movimentação intensa. Para Olmo, “o mais difícil para um defensor é enfrentar jogadores que estão em constante movimento”.

“Utilizamos muito bem os movimentos para que vários de nós estejamos prontos para receber entre linhas com pressão, como fazem Forsberg e Nkunku, que têm condições para isso. Eles não têm uma posição fixa.”

Por fim, o estilo de jogo buscado pelo Leipzig faz Olmo compará-lo ao futebol de salão. Os espaços são reduzidos, e é preciso habilidade nos pés para manter a posse e fazer o ataque evoluir. Com sucesso, acelera-se as jogadas no terço final, e espaços são criados.

“Tentamos nos apoiar em outros jogadores para dar mais velocidade ao jogo. Se abrimos (em amplitude), não podemos jogar tão rápido como o treinador quer. Por isso, tentamos nos juntar o máximo possível, quase como no futebol de salão. Quanto mais reduzido for o espaço, melhor, porque mais velocidade damos à circulação da bola. Você atrai mais adversários, mas é preciso estar preparado para jogar sob pressão. Se você consegue, os espaços que se abrem são maiores, e você progride com mais profundidade”, completou.

Na teoria, o que Olmo descreve parece dificílimo de ser parado, mas o futebol é mais do que tática. É técnica, é físico e é também mental. Esses dois últimos pontos, em especial, ganham valor maior em um tempo de futebol atípico, com uma pandemia à solta do lado de fora e arquibancadas vazias do lado de dentro. No entanto, Olmo, particularmente, tem sua própria receita para lidar com isso.

“Sem o público, você precisa se automotivar. Nos dias prévios ao jogo, sempre penso no adversário, no que posso fazer na partida, o que posso trazer. Essa visualização serve como motivação. É um exercício muito bom, porque te prepara mentalmente para reagir a situações que podem ocorrer e que, de outra forma, te surpreenderiam mais.”

Toda essa preparação de Olmo e do Leipzig será posta em prova quando o Leipzig enfrentar o copeiro Atlético de Madrid, de Diego Simeone, nas quartas de final da Champions League. O jogo acontece em Lisboa, no Estádio José Alvalade, às 16h (horário de Brasília), e você pode conferir detalhes de transmissão em nossa programação de TV.