Há quem veja uma chuva forte como sinal premonitório. O aguaceiro incessante e também o vendaval que atingiram o Estádio St. Mary’s, no entanto, serviram como metáfora ao temporal de gols protagonizado pelo Leicester City nesta sexta: 9 a 0 sobre o Southampton. Nem as condições climáticas adversas foram capazes de atrapalhar as trocas de passes objetivas e impetuosas das Raposas, que igualaram a maior goleada da história da era Premier League. Desde que o Manchester United aplicou 9 a 0 sobre o Ipswich Town em Old Trafford, no dia 4 de março de 1995, um jogo da liga não via tamanha supremacia de uma equipe. Além disso, nunca, em 131 anos de Campeonato Inglês, um visitante havia vencido por nove ou mais gols de diferença. Os comandados de Brendan Rodgers foram impiedosos a este ponto, para assumir provisoriamente a vice-liderança da competição.

É preciso ponderar que o Southampton sofreu uma expulsão aos dez minutos, durante o lance que resultou no primeiro gol. A superioridade numérica contribuiu ao placar elástico imposto pelo Leicester, é claro. Todavia, não é explicação suficiente para tamanho vareio. A vontade das Raposas em buscar os gols pesou muito mais. Nem depois de abrir cinco tentos no primeiro tempo os visitantes relaxaram. Acredite, ficou barato de não sair mais, com seis defesas do goleiro adversário e outras bolas que ficaram a um triz de entrar. O duplo dígito era uma possibilidade totalmente factível.

O massacre serve de emblema à mentalidade da equipe de Brendan Rodgers e ao estilo de jogo ofensivo adotado pelo treinador. Mesmo que de maneira distinta, o clube provoca um encantamento que se aproxima daquilo que se viveu no milagroso 2015/16. Vardy e Ayoze Pérez foram insaciáveis, com três gols cada, mas o destaque também fica à penca de garotos que tratam muito bem a bola – Maddison, Barnes e Chilwell, para ficar em alguns.

Desde o apito inicial, o Leicester indicou que só a vitória interessava. E a circunstância que abriu o jogo aconteceu no segundo ataque dos azuis, aos dez minutos. Num avanço em velocidade, Harvey Barnes chutou rasteiro e o goleiro Angus Gunn espalmou, mas o rebote ficou livre para Ben Chilwell balançar as redes. O grande problema do Southampton, contudo, não foi propriamente o gol. Na construção da jogada, em lance no qual o árbitro havia dado vantagem, Ryan Bertrand acertou uma duríssima solada na panturrilha de Ayoze Pérez, cravando as travas da chuteira no adversário. Após a revisão do VAR, o árbitro com justiça decidiu expulsar o alvirrubro.

Com um jogador a menos, o Southampton sentiu o baque. Muito mais méritos, porém, teve o Leicester em sua ofensiva. A precisão das Raposas era imensa e praticamente cada avanço rendia um gol aos visitantes. Em meio à pressão, Barnes fez grande jogada pela esquerda e cruzou para Youri Tielemans. Apesar do desvio no meio do caminho, o belga mandou no contrapé de Gunn e ampliou aos 17. Dois minutos depois, veio o terceiro tento. Desta vez o ataque subiu pela direita e, após tabelar com Tielemans, Ayoze Pérez mandou para dentro.

Neste momento, já se ouviam vaias contra o Southampton e alguns torcedores deixavam as arquibancadas. O Leicester explorava bastante as pontas, sobretudo pelo apoio vigoroso de seus laterais. Além disso, a defesa dos alvirrubros encontrava muitas dificuldades, permitindo as linhas de passes. Enquanto o temporal malhava o gramado, a chuva de gols cessou um pouco a partir dos 20 minutos, com os Saints dando os seus sustos em Kasper Schmeichel. Contudo, as Raposas voltaram com tudo nos 10 minutos anteriores ao intervalo.

Depois de Gunn se safar de uma falha, o Leicester anotou o quarto gol aos 39. Mais uma vez Ayoze Pérez balançou as redes. Depois de uma boa trama que começou na direita, Chilwell cruzou para o espanhol bater quase sem ângulo. Faltava o de Vardy? Deixou de faltar aos 45, quando o veterano assinou uma pintura. As Raposas trocavam passes confortavelmente no campo ofensivo, até que Chilwell recebeu mais uma e cruzou de primeira. A zaga não conseguiu cortar e o centroavante resolveu em três toques: dominou, deu um corte seco no marcador e fuzilou o goleiro. Era uma atuação com sangue nos olhos.

E o Leicester não pareceu disposto a reduzir a marcha nem mesmo no segundo tempo. Ralph Hasenhüttl voltou com duas alterações no Southampton, que surtiram pouco efeito. Gunn salvaria os alvirrubros duas vezes logo nos primeiros minutos, até que Ayoze Pérez completasse seu hat-trick aos 12. Barnes deu um lançamento espetacular, para o companheiro matar no peito e definir. Pois as Raposas demoraram mais um minuto para pintar os sete no placar. Outro avanço pela esquerda, outro cruzamento de Chilwell e a bola na cabeça de Vardy, que cumprimentou livre na área.

A festa no setor visitante não era ditada apenas pelo chocolate aplicado pelo Leicester. No 60° minuto, uma referência à idade de Vichai Srivaddhanaprabha, os torcedores ergueram cachecóis brancos e cantaram para homenagear o falecido presidente, cuja queda do helicóptero completará um ano no próximo domingo. Dentro de campo, as Raposas correspondiam. Não deixaram de procurar o gol por um instante sequer.

O Southampton tentou fazer o de honra, e nem isso o Leicester permitiu. Nathan Redmond era um Dom Quixote na linha de frente e lutava contra os seus moinhos de vento. Mas, quando exigido, Schmeichel fez milagres. Foram duas ótimas intervenções do dinamarquês, salvando os arremates de James Ward-Prowse e do próprio Redmond. Isso não queria dizer que os visitantes haviam esmorecido – longe disso. As Raposas arriscavam muitas jogadas de linha de fundo e cruzamentos a meia altura. Era até impressionante a maneira como o oitavo não entrava, com a bola passando pela pequena área. Aos 28, faltaram alguns centímetros para que a batida cruzada de Pérez se transformasse em seu quarto tento ou em assistência.

Pérez e Barnes seriam substituídos, sob muitos aplausos de seus torcedores. Entretanto, outros grandes jogadores seguiam famintos. Tielemans deu seu aviso, em outra bola perigosa. Já o oitavo seria cortesia de James Maddison, aos 40. O camisa 10 coroou a grande atuação que também viveu ao cobrar uma falta frontal na gaveta, sem que Gunn conseguisse alcançar. Por fim, querendo recorde, Vardy assinalou seu hat-trick nos acréscimos. Lançado em profundidade, o artilheiro foi derrubado dentro da área. Pênalti que ele cobrou com segurança, para também levar a sua bola para casa. As Raposas fizeram por merecer a história.

Após o apito final, os jogadores exibiam enorme euforia. Tinham plena consciência da façanha que haviam protagonizado. “Nós realmente soubemos da possibilidade de alcançar o recorde quando Jonny Evans veio correndo nos 6 a 0, dizendo que poderíamos conseguir se continuássemos naquele ritmo. Insistimos até o fim e alcançamos isso. É uma grande vitória, uma baita atuação dos rapazes e estou absolutamente empolgado pelos torcedores”, contou Jamie Vardy, na saída de campo.

O artilheiro também dedicou o resultado a Vichai: “O que Khun Vichai sempre quis de nós era ver homens que lutassem e vencessem. Acho que você pôde notar isso pelos garotos hoje à noite, porque lutamos e vencemos num nível acima do que já vimos da nossa equipe. Créditos para os rapazes. Espero que o chefe esteja vendo a gente lá de cima”.

É apenas a segunda vez que um time registra dois hat-tricks na mesma partida da Premier League. Ayoze Pérez e Vardy repetiram o feito de Robert Pirès e Jermaine Pennant pelo Arsenal, contra o mesmo Southampton, em maio de 2003. A goleada por 9 a 0, além de igualar a maior marca na fase moderna do Campeonato Inglês (desde 1992/93), se isola como a mais elástica de uma equipe como visitante desde a criação da Football League, em 1888/89. As maiores diferenças de um visitante até então haviam sido de oito gols: Wolverhampton 0x8 West Bromwich, em 1893/94; Newcastle 1×9 Sunderland, em 1908/09; e Cardiff City 1×9 Wolverhampton, em 1955/56.  Também é a maior vitória da história do Leicester fora de casa.

Brendan Rodgers, por sua vez, exclamou: “Dissemos no intervalo para mantermos a velocidade. É difícil para Ralph, mas temos que fazer nosso trabalho e marcar o máximo de gols que pudermos. No intervalo nós falamos que o jogo estava 0 a 0. É parte de nossa educação sair da zona de garotos e atuar como adultos, respeitar o jogo. Os rapazes são muito talentosos e estão aprendendo a não ter piedade. Kasper estava muito feliz, porque igualou o recorde de seu pai. Acreditamos no nosso trabalho, acreditamos que podemos ir além durante a temporada. Nossa mentalidade é como treinamos todos os dias. Os jogadores querem evoluir e fazer melhor”.

Na segunda colocação ao menos durante as próximas horas, até o Manchester City entrar em campo, o Leicester chega aos 20 pontos na Premier League – um a mais do que havia anotado após dez rodadas em 2015/16, a temporada do título. O problema desta vez é que a concorrência anda mais qualificada: o Liverpool já soma 25. De qualquer maneira, se o título ainda parece um objetivo ambicioso demais, as Raposas têm credenciais suficientes para o G-4, não só pelos resultados, mas pela qualidade do futebol apresentado. Brendan Rodgers deixa no chinelo outros clubes mais badalados.

Os azuis também ficam com o segundo melhor ataque, somando 25 gols, e a terceira melhor defesa, só vazada oito vezes. Individualmente, Jamie Vardy assume a artilharia, com nove gols. E são os detalhes do momento espetacular que mostram como este triunfo por 9 a 0, por mais excepcional que seja, não é um ponto fora da curva. Dá gosto de ver o Leicester jogando.

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