O Leicester é um mero novato nas competições continentais. As Raposas fazem sua estreia na Liga dos Campeões, enquanto possuem no currículo apenas três participações anteriores em outros torneios. Ainda que o histórico no Campeonato Inglês não seja glorioso, o clube carimbou seu passaporte graças ao desempenho nas copas nacionais: na virada do século, venceu por duas vezes a Copa da Liga, além de ter sido vice da FA Cup em 1960/61, quando herdou a vaga do Tottenham na Recopa Europeia – os Spurs faturaram também a liga naquele ano.

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Curiosamente, um algoz em comum surge no passado do Leicester. Em duas destas três participações, as Raposas foram eliminadas por um mesmo adversário: o Atlético de Madrid. E como o destino gosta de aprontar… Mais uma vez, os espanhóis cruzam o caminho dos ingleses. Serão os adversários nas quartas de final da Champions. Quem sabe, a revanche para o time de Craig Shakespeare. Ou a oportunidade para os colchoneros manterem a escrita que já dura mais de cinco décadas.

Em 1961/62, a Recopa Europeia vivia a sua segunda edição. E o Leicester mostrou as suas credenciais logo na etapa preliminar, ao atropelar o Glenavon, da vizinha Irlanda do Norte. Bateram os oponentes por 4 a 1 e 3 a 1, sem grandes dificuldades para chegar às oitavas. O problema vinha a seguir. O Atlético de Madrid eliminara o Sedan e vivia um momento copeiro de sua história, bicampeão da Copa do Rei (então chamada de Copa do Generalíssimo). E em uma época na qual a força dos espanhóis nas competições continentais era inegável.

No primeiro jogo, empate por 1 a 1 em Filbert Street. O Leicester saiu em vantagem com Ken Keyworth, artilheiro lendário das Raposas. Contudo, o Atlético de Madrid arrancou o empate aos 44 da segunda etapa. Tento do português Jorge Mendonça, vencendo o promissor Gordon Banks, então com 23 anos. Já no reencontro em Madri, o Atleti terminou de fazer o serviço. Triunfo por 2 a 0, com gols de outros dois ídolos do passado colchonero: Enrique Collar e Miguel Jones.

Seria apenas o início de uma campanha histórica do Atlético de Madrid. Os espanhóis ainda eliminaram Werder Bremen e Motor Jena, antes de alcançarem à final. Mediram forças com a Fiorentina, campeã da Recopa no ano anterior e treinada por Ferruccio Valcareggi, que tempos depois levaria a seleção italiana ao título da Euro 1968 e ao vice-campeonato mundial em 1970. No primeiro jogo, as duas equipes empataram por 1 a 1 no Hampden Park, em Glasgow. O craque Joaquín Peiró abriu o placar aos ibéricos, enquanto Kurt Hamrin deixou tudo igual. Como mandava o regulamento da época, os adversários precisaram disputar uma partida-extra, de desempate – que viria a acontecer apenas quatro meses depois, no Neckarstadion, em Stuttgart. Desta vez, não houve dúvidas sobre a supremacia do Atleti, enfiando 3 a 0 na Viola, com tentos de Jones, Mendonça e Peiró. O técnico José Villalonga, que já havia levado o Real Madrid a seus dois primeiros títulos na Copa dos Campeões, se consagrava novamente.

Aquele foi o primeiro título continental do Atlético de Madrid. O clube disputou a final da Recopa também em 1963, mas acabou derrotado pelo Tottenham. Depois do vice na Champions de 1974 e na Recopa de 1986, só voltaria a erguer uma taça europeia em 2010, com a Liga Europa. O Leicester, por sua vez, ainda desfrutou de bons momentos naquela década de 1960. Foi mais duas vezes vice-campeão da Copa da Inglaterra e faturou sua primeira Copa da Liga, que, entretanto, não dava vaga para as copas europeias na época. Além disso, também fez grande campanha no Campeonato Inglês 1962/63, quando chegou a liderar por algumas semanas e flertou com o título, mas acabou em quarto. Time célebre em Filbert Street, conhecido como ‘Os Reis do Gelo’.

O retorno do Leicester aos torneios continentais se deu em 1997. Naquele ano, as Raposas faturaram a Copa da Liga Inglesa pela segunda vez, derrotando o Middlesbrough no jogo-extra – em trajetória na qual eliminaram o Manchester United nas oitavas de final. E, logo nos 32-avos de final, o sorteio já apontou o Atlético de Madrid como pedra no sapato dos ingleses. Um ano antes, em 1995/96, os colchoneros haviam conquistado a dobradinha na Espanha, campeões de La Liga e da Copa do Rei.

Apesar do favoritismo evidente do Atleti, o Leicester não facilitou. Os colchoneros venceram o primeiro encontro de virada no Vicente Calderón, por 2 a 1. Ian Marshall abriu a contagem para as Raposas, enquanto Christian Vieri e Juninho Paulista comandaram a reação dos anfitriões. Aliás, aquele confronto tinha um gosto de revanche ao brasileiro, que estava em campo na derrota do Boro pela Copa da Liga. Já na volta, o Leicester não foi páreo ao nível dos oponentes, mesmo apoiado pela torcida em Filbert Street. Juninho e José Mari definiram os 2 a 0 no placar.

Ambos os elencos, aliás, contavam com jogadores de respeito. Treinado por Martin O’Neill, o Leicester via em suas fileiras nomes como Kasey Keller, Steve Walsh, Neil Lennon, Emile Heskey, Robbie Savage, Matt Elliott e Muzzy Izzet. De qualquer maneira, abaixo do Atlético de Radomir Antic. Além dos supracitados, os colchoneros também tinham José Francisco Molina, José Luis Caminero, Kiko, Santi, Carlos Aguilera, Paulo Futre, Milinko Pantic, entre outros. Time para ser campeão, mas que não passou das semifinais. Depois de eliminarem PAOK, Dinamo Zagreb e Aston Villa, os rojiblancos foram batidos pela fortíssima Lazio de Sven-Göran Eriksson.

Já a terceira participação do Leicester nas copas europeias aconteceu em 2000/01, após derrotarem o Tranmere Rovers na final da Copa da Liga. Logo de cara, o time de Martin O’Neill pegou o Estrela Vermelha. O jogo pela primeira fase causou polêmica, porque os ingleses acionaram a Uefa, afirmando que não havia segurança para jogarem na Iugoslávia. A entidade deu razão à reclamação, o que foi uma exceção na temporada, enquanto todos os outros adversários de iugoslavos viajaram até o país. Na primeira partida, empate por 1 a 1 em Filbert Street. Então, os vermelhos fizeram o serviço em Viena, eliminando as Raposas por 3 a 1.