Em agosto de 2010, os torcedores do Leicester receberam a notícia nebulosa: uma nova direção chegava ao clube. A cautela e o ceticismo pareciam um tanto quanto necessários diante de Vichai Srivaddhanaprabha, um magnata desconhecido que assumia o time recém-saído da terceira divisão do Campeonato Inglês. Em tempos nos quais os traumas deixados por outros cartolas estavam frescos na memória, o dono da King Power precisaria construir sua própria relação em Filbert Street. Conseguiu, e não apenas por alcançar aquilo que parecia mero devaneio às Raposas, o impensável título da Premier League 2015/16. Mais importante, Vichai alimentou uma noção de comunidade ao redor do clube. Abraçou a torcida, assim como a população da cidade. Não negou sua generosidade aos jogadores. Botou a instituição acima de seus interesses pessoais. Foi aquilo que se espera de um dirigente e, mais do que isso, se prontificou como um amigo. É natural que a notícia de sua morte, no trágico acidente de helicóptero, cause tamanha comoção. Foi-se aquele que amou a camisa e fez de tudo por seu sucesso. A perda é irreparável.

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Nascido em 1958, Vichai Srivaddhanaprabha construiu seu império nos aeroportos da Tailândia, um país com altíssimo potencial turístico. A King Power surgiu em 1989, operando free-shops ao redor do país. A fortuna cresceu substancialmente na década passada, quando o governo do então primeiro-ministro Thaksin Shinawatra garantiu ao empresário a concessão para atuar no maior aeroporto de Bangkok, recém-inaugurado. E os bilhões acumulados no negócio levaram o tailandês a diversificar sua pasta de investimentos. Em agosto de 2010, sentou na mesa com o sérvio-americano Milan Mandaric, então dono do Leicester, e assegurou a compra do clube por £39 milhões. Seria, como seu antecessor, mais um dos cartolas que ignoraram o desejo dos torcedores e os fizeram sofrer, com direito à inédita queda à terceirona? A resposta viria com o tempo.

A justificativa inicial para desembarcar em Filbert Street parecia dita por um aventureiro. Vichai apontou que se interessou pelo Leicester por conta de suas cores, o azul compartilhado com a King Power. Porém, a garantia de que as Raposas não seriam um mero brinquedo em sua mão vieram no dia a dia. Um de seus primeiros atos foi sanar a dívida do clube, desembolsando £103 milhões para que a agremiação não tivesse mais credores. Depois, encerrou a parceria para a administração do estádio com uma companhia americana, que vinha irritando a torcida, e o devolveu à instituição. A partir de então, começou a desenvolver um projeto na Championship, esperando não apenas conquistar o acesso à Premier League, como também botar seu time na rota da Liga dos Campeões. Tinha auxílio de Aiyawatt, seu filho, que se tornou vice-presidente e seu braço direito na empreitada, bem como de Susan Whelan, funcionária da King Power que foi nomeada chefe-executiva do clube e passou a oferecer uma gestão profissional e humanizada.

A estratégia na segunda divisão foi ousada. Vichai realizou um investimento alto para os padrões da competição, com a ideia de faturar a promoção o quanto antes. Assim, os prejuízos pela contratação de jogadores logo seriam contrabalanceados com o reforço econômico que a Premier League traria. Era uma bomba-relógio, já que a teoria pode não funcionar muito bem na prática e os adiamentos no acesso aumentavam o rombo. Por isso, quando os azuis bateram na trave em 2012/13, caindo no dramático jogo dos playoffs contra o Watford, o fardo aumentava. Mas o sinal do sucesso logo viria em 2013/14, com a ascensão e, de quebra, com o título da Championship. Neste quadriênio, foram desembolsados £100 milhões em reforços, garantidos aos cofres através de empréstimos, patrocínios e naming rights do estádio. Os balanços operavam no vermelho e as Raposas chegaram a ser investigadas pelo Fair Play Financeiro na Inglaterra, até garantirem o superávit na primeira temporada de volta à elite.

O falecimento de Vichai Srivaddhanaprabha não o tornam necessariamente alheio a qualquer crítica. É necessário lembrar que, na Tailândia, a King Power enfrentou acusação de uma fraude na casa de R$1,36 bilhão, por não pagar devidamente suas taxas de operação ao governo local e corromper funcionários dos aeroportos – em entrave também com conotações políticas, após trocas no poder. Já naqueles anos de sucesso na Championship, as suspeitas se deram sobre o doping financeiro do Leicester, através da associação com uma empresa obscura para aumentar as receitas e evitar punições. De qualquer forma, as acusações foram superadas após um acordo com a Football League, compensando a entidade com o pagamento de £3,1 milhões. E, em contrapartida, os méritos esportivos do planejamento realizado pelo dirigente são muito maiores. Afinal, um possível drible na legislação da Championship significa muito pouco diante da realidade abastada da Premier League. De uma força entre os pequenos, as Raposas se tornaram um pequeno entre os gigantes. Saltaram montanhas para atingir seus feitos.

Quando o Leicester retornou à Premier League, em 2014/15, Vichai já possuía laços fortalecidos com a comunidade da cidade. O sucesso esportivo ajudava a encurtar distâncias, mas bem mais importante era a sua postura. O tailandês não se tornou um dirigente que usava intermediários na gestão ou que aparecia no clube uma vez por ano, delegando ordens de seu escritório em outro país. Em todos os jogos, tentava comparecer às tribunas do Estádio King Power e, quando não podia, lá estava o seu filho Aiyawatt. Era presente e interessado, já uma diferença gritante à maioria dos estrangeiros donos de clubes na Inglaterra. A cena do helicóptero pousando e decolando no gramado, muito antes de ganhar contornos trágicos, demonstrava como o magnata se importava com o dia a dia das Raposas.

E se importava em pequenos gestos, que podiam não custar muito aos seus bolsos, mas transmitiam sua atenção com o público do Leicester. Passou a oferecer ônibus gratuitos aos jogos fora de casa. Bancava cerveja e tortas a todos no estádio em ocasiões especiais, sobretudo em meados de abril, quando fazia aniversário. Distribuía cachecóis ou outros presentes à massa azul. Afagos de quem realmente parece valorizar a paixão. Além do mais, logo ficou claro que Vichai não estava em Filbert Street apenas para encher os próprios bolsos, como tantos outros dirigentes da Premier League. Por mais que o clube figurasse como seu negócio, o tailandês não se furtou a tirar dinheiro da própria conta bancária nos primeiros anos, até que os rendimentos explodissem na primeira divisão. Ao menos pelo que se sabe, as Raposas não serviam meramente para o seu enriquecimento, mas sim para que deixasse sua marca.

O tipo de administração conduzido por Vichai se torna ainda mais emblemático quando se conhece a história do Leicester. O clube foi fundado em 1884, no quintal de uma casa, por garotos que estudavam juntos e frequentavam a mesma igreja. A agremiação ganhou importância na região e, dez anos depois, quando já disputava a segunda divisão do Campeonato Inglês, só acabou salva pela união de empresários locais. Eles se juntaram para formar uma companhia que administrasse o clube, inovação para a época. Em tempos nos quais a Football Association prevenia que acionistas lucrassem com o esporte, o interesse maior dos benfeitores que custodiavam o clube estava mesmo em se envolver com a comunidade e criar laços. Mais de um século depois, esse pensamento se reiterou em 2003, quando as Raposas foram salvas da bancarrota por um consórcio local – que, entre outros, contou até mesmo com a participação do empresário de Gary Lineker. Foi neste contexto que o tailandês se inseriu, em 2010. E, mais do que sustentar a instituição, ele entendeu e respeitou o valor sentimental daquela camisa à sociedade local.

O planejamento do presidente no Leicester era de longo prazo. O empresário investia nas estruturas do clube, seja com melhorias no estádio ou na academia destinada às categorias de base. Também apresentou planos grandiosos no renovado centro de treinamentos, avaliado em £100 milhões. Enquanto isso, na Premier League, traçava conquistar uma vaga na Liga dos Campeões em 2017. Só que o destino acabaria sendo muito mais afável. Entre grandes descobertas de seus olheiros, treinadores que entenderam o espírito do elenco e uma pitada de travessura do destino, o sucesso da equipe foi meteórico.

Nigel Pearson assegurou a milagrosa permanência na Premier League em 2014/15, com uma arrancada impressionante na reta final da campanha. O treinador entrou em litígio com a diretoria após um escândalo envolvendo seu filho, defensor do clube, mas os Srivaddhanaprabha caíram para cima quando apostaram em Claudio Ranieri, um comandante que parecia relegado ao ostracismo. O italiano se transformou em um paizão ao elenco e logo deixou claro que aquele grupo de jogadores desconhecidos contava com um punhado de talentos para se botar na primeira prateleira do futebol mundial. Tirou o máximo deixando-os livres e à vontade, correspondido com o máximo de comprometimento.

N’Golo Kanté, Jamie Vardy, Riyad Mahrez e Kasper Schmeichel se confirmaram como extraclasses. Outros tantos excederam suas próprias capacidades, como Danny Drinkwater e Wes Morgan. E vitória após vitória, ficava a dúvida sobre até quando duraria aquela sensação; se conseguiriam aguentar o ritmo dos grandes também na maratona de fim de ano; sobre como lidariam com as expectativas depois de meses no topo; sobre como seria a reta final, quando o mundo aguardava ansiosamente a façanha. O Leicester não sucumbiu, a façanha aconteceu e a dúvida final, cortesia do encantamento, era se todo aquele conto de fadas tinha sido mesmo real. Apaixonados por futebol em todo canto do planeta caíram de amores, porque o clube permitiu acreditar que tudo era possível, mesmo na liga mais forte. As Raposas mantiveram os pés no chão como os pequeninos que eram, mas com a mentalidade de gigantes e um futebol pronto a deslumbrar, com suas jogadas fulminantes e os muitos golaços. Neste contexto, Vichai era a fada madrinha que transformou a abóbora em carruagem, desfilando por tantas rodadas na Premier League.

A conquista do título apresentou ao resto do mundo quem era Vichai, o homem que deu seu toque especial para aumentar o fascínio àquele sonho que também era seu. Ou como negar isso, com a presença de Andrea Bocelli em plena celebração do feito, um afago a Ranieri? Ou como negar isso diante dos carrões esportivos que prometeu e deu aos seus campeões? Ou como negar isso com a doação de £2 milhões à Leicester Hospitals Charity, entidade que trabalha para melhorar as estruturas dos hospitais locais, em retribuição à maneira como a população da cidade o acolheu? Olhando à fortuna bilionária do tailandês, pode parecer trocado, mas com significado imensurável a quem recebe.  Seu próprio sobrenome, aliás, já indicava benevolência. Batizado Vichai Raksriaksorn, o impronunciável Srivaddhanaprabha, na verdade, é um título recebido junto à família real tailandesa em 2012. Reconheciam seu sucesso e sua filantropia com uma alcunha que, na língua local, pode ser traduzido como “luz de uma glória progressiva”. O nome continuará transmitido à sua família.

No próprio trato do dia a dia, Vichai era classificado como uma ótima pessoa. A timidez do primeiro contato era substituída pelo sorriso sempre presente. Conferia poucas palavras à imprensa, mas deixava explícitos seus pensamentos através de atos. E logo começou a construir uma relação muito próxima com todos ao redor do clube, principalmente os jogadores. Sempre os consultava pedindo opiniões. Além disso, levava o elenco para pequenas diversões ou passeios – seja em viagens com tudo pago, seja jantando em bons restaurantes, seja em noitadas de bolsos cheios em cassinos. Aos corredores da sede das Raposas, o tailandês chegava a levar até mesmo monges budistas, para tornar o trabalho mais leve. Um grupo de religiosos passou a fazer viagens regulares da Tailândia à Inglaterra, entregando talismãs e transmitindo tranquilidade. A figura do empresário nada mais era do que um reflexo disso.

A empatia demonstrada por Vichai Srivaddhanaprabha não cessou nas temporadas seguintes após o título, quando o sucesso não se repetiu novamente – apesar da participação marcante na Liga dos Campeões. Outros grandes atos se repetiam, desprendidos de grandes interesses aparentes. Congelou o preço dos carnês de temporada e, em 2017, doou mais £1 milhão para financiar pesquisas do instituto de medicina na Universidade de Leicester. Porém, com o tempo foi necessário entender que o presidente também poderia ter pulso firme e tomar medidas pouco populares. O maior exemplo esteve na demissão de Claudio Ranieri, em meio à disputa com o elenco, ou na insistência em garantir a permanência de Riyad Mahrez contra a vontade do jogador. O histórico de benfeitorias não era necessariamente um impeditivo para o tailandês decidir aquilo que avaliava como o melhor ao rendimento do time.

E apesar de possíveis discordâncias, por tudo o que Vichai já tinha feito ao clube, a torcida do Leicester sabia que nada havia sido realizado para prejudicar a instituição. A relação de confiança se cimentara ao longo daqueles oito anos, transformando um clube pouco expressivo da Inglaterra em protagonista de uma das melhores histórias que o futebol já viveu. Firmou bases sólidas para as Raposas seguirem relevantes por muito mais tempo, mesmo que não repitam a glória. Mais do que isso, ainda melhorando a comunidade e o entorno onde sua paixão estava inserida. Uma relação que, pelo carinho entre ambas as partes, poderia durar por décadas. Até que a fatalidade deste sábado rompesse da forma mais trágica.

A comoção dos jogadores e o tributo dos torcedores dimensionam, na dor, ainda mais Vichai. O Estádio King Power tornou-se um memorial à gratidão da comunidade de Leicester, retribuindo os presentes e os pensamentos que o tailandês ofereceu. A generosidade agora se transforma em desejo de paz de espírito e condolências, com velas e flores tomando o clube. Por tabela, um conforto também aos familiares e às outras pessoas próximas do presidente, sobretudo os funcionários do clube. E a prova maior da adoração surge com os pedidos para que uma estátua de Srivaddhanaprabha seja construída nos arredores do estádio. Algo dedicado a grandes jogadores ou técnicos, mas, com tamanha espontaneidade, impensável a cartolas. Mas merecido, para ressaltar como o empresário realmente foi diferente. Como ele se tornou mais um dos torcedores.

Neste momento de luto, fica difícil projetar qual será o futuro da gestão do Leicester. Aiyawatt tende a tomar as rédeas e deverá trabalhar para preservar o legado do pai. O momento, no entanto, é de relembrar os atos de Vichai e a maneira como ele contribuiu para engrandecer o clube, sem pedir nada além de apoio. Foi-se como um dos homens que ajudou a tornar o futebol mais fascinante, por aquilo que fez acontecer. Se viver é melhor que sonhar, ainda melhor é acreditar que um sonho pode se tornar realidade. O presidente do Leicester acreditou, ao lado de milhares de torcedores e de milhões de aficionados pelo esporte. A lembrança pelas sensações que proporcionou será eterna. A realização de uma vida, permitindo que sua memória prevaleça através de gerações.