Qualquer goleiro brasileiro deveria reconhecer o nome de Valdir Joaquim de Moraes e saber o tamanho de sua importância ao futebol. O gaúcho se colocou entre os melhores arqueiros do Brasil durante as décadas de 1950 e 1960, a ponto de ser pré-convocado a duas Copas do Mundo. Na Academia do Palmeiras, gravou-se como ídolo, empilhando títulos e se aproximando dos 500 jogos com a camisa alviverde. E a verdade é que o veterano conseguiu ser daqueles raros personagens que superam sua própria trajetória em outra função. Afinal, se foi um ótimo camisa 1, Valdir também se marcou como um revolucionário na preparação específica à posição.

Sinônimo de vitórias nos três grandes da cidade de São Paulo, Valdir foi um dos pioneiros como treinador de goleiros. Transmitiu seu conhecimento e sua técnica a diversos aprendizes, ajudando a estabelecer métodos de preparação no país. E, tão importante quanto o ato à frente de seu tempo, está também a qualidade de tanta gente que passou por suas mãos. Emerson Leão, Waldir Peres, Gilmar Rinaldi, Zetti, Rogério Ceni, Marcos, Velloso e Dida integram uma lista fantástica de alunos do gaúcho, seja como preparador ou como consultor técnico. Fez escola e muito do desenvolvimento da posição se deve à sua iniciativa.

Neste sábado, aos 88 anos, Valdir faleceu em Porto Alegre. Vítima de um AVC em 2016, o veterano já enfrentava problemas de saúde, sobretudo após sofrer uma fratura no fêmur em 2017. Internado na madrugada da última terça-feira, o ex-goleiro teve falência múltipla dos órgãos. E, apesar da notícia triste, fica o orgulho por aquilo que construiu. Valdir é, sem dúvidas, uma figura notável à história do futebol brasileiro. Não há melhor maneira de eternizar sua memória do que relembrar seu legado.

Valdir Joaquim de Moraes nasceu em novembro de 1931, na cidade de Porto Alegre. E a aptidão pelo gol corria pelas veias do garoto: seu pai, Hilário Moraes, também atuou como goleiro durante os anos 1920. O progenitor vestia a camisa do Concórdia e chegou a disputar o Campeonato Citadino, que servia de classificatório ao Gauchão na época. Além disso, Hilário também era amigo de Eurico Lara, lendário arqueiro do Grêmio no mesmo período. Ambos costumavam participar de rodas de viola, antes do trágico falecimento do ídolo tricolor.

Valdir não pôde conviver com Lara durante muito tempo, mas teve em seu pai o primeiro grande professor. Após deixar a carreira, Hilário tocava uma loja de acessórios automotivos e incentivava o seu filho, tanto na meta quanto nos estudos. O garoto cresceu no bairro Floresta e, diante de sua casa, via seis campos de várzea à disposição para jogar. Aprimorou-se como goleiro, mas também formou-se como técnico em contabilidade. Ainda na adolescência, Valdir começou a defender o Pombal, na segundona da cidade. Já em 1947, contratado pela fábrica de tecidos Renner, passou a atuar pelo clube de funcionários da companhia, que na época disputava a primeira divisão de Porto Alegre. Tornou-se nome frequente como titular aos 17 anos e logo se firmaria como um dos melhores arqueiros do Rio Grande do Sul.

O Renner atravessou o grande momento de sua história em 1954. Naquele ano, o clube faturou o Campeonato Citadino, superando os dominantes Grêmio e Internacional. Já no Gauchão, os campeões municipais justificaram sua força e também levaram a taça em cima do Brasil de Pelotas. Aos 23 anos, Valdir era uma das referências do time, transmitindo muita segurança sob as traves. O defensor Ênio Rodrigues, que logo depois se tornaria ídolo do Grêmio, e o meia esquerda Ênio Andrade, lendário sobretudo como treinador, figuravam entre os destaques. O Renner, que rompia uma hegemonia de 14 anos da dupla Gre-Nal, teria que esperar mais 44 anos até ver outra equipe superar as duas potências no estadual.

O sucesso levou Valdir à seleção gaúcha. E o jovem goleiro encurtaria seu caminho à seleção brasileira a partir de então. Em 1956, para a disputa do Campeonato Pan-Americano, a CBD resolveu convidar a equipe do Rio Grande do Sul para representar o país no torneio continental realizado no México. Reserva do gremista Sérgio nas três primeiras partidas, Valdir ganhou uma chance como titular na reta final da competição. Participou da goleada sobre a Costa Rica e segurou o empate por 2 a 2 contra a Argentina na rodada final, que garantiu o bicampeonato aos brasileiros. Ênio Rodrigues era o capitão e Ênio Andrade vestia a camisa 10, em equipe dominada por atletas da dupla Gre-Nal.

O Renner manteve o seu departamento de futebol até 1959. Valdir deixaria o time pouco antes. Turbinado pelo dinheiro da venda de Altafini Mazzola ao Milan, o Palmeiras trouxe Ênio Andrade para reforçar o elenco e o novo armador indicou também a contratação do goleiro, seu companheiro no Rio Grande do Sul. O vínculo seria registrado pelo clube em agosto de 1958, quando Valdir estava às vésperas de completar 27 anos de idade. E, por mais que o novato chegasse para a reserva de Aníbal, os alviverdes não demorariam a perceber o excelente arqueiro que haviam trazido, vital na conquista do Campeonato Paulista de 1959.

O Palmeiras, que levava nove anos sem faturar o estadual, foi capaz de rivalizar com o poderosíssimo Santos durante aquela campanha. Sob as ordens de Oswaldo Brandão, o clube formava sua primeira Academia com contratações de peso – que incluíam Djalma Santos, Julinho Botelho e Chinesinho, dentre outros. Mesmo com um ataque capaz de anotar 112 gols em 41 partidas, os palmeirenses ainda possuíam a melhor defesa do certame e sofreram apenas 36 tentos.

Empatados ao final da campanha, Palmeiras e Santos foram obrigados a disputar partidas extras para definir a taça – o que precisou se repetir três vezes, após dois empates nos dois primeiros encontros. Valdir aguentou a pressão do Peixe nos três jogos, que se arrastaram até janeiro de 1960 e deram à competição a alcunha de “Supercampeonato Paulista”. Apesar do domínio alviverde na terceira partida, o camisa 1 também realizou intervenções essenciais e permitiu a vitória por 2 a 1, que valeu o troféu. “Vibrei como um menino. Sabem lá o que é ser supercampeão paulista, derrotando logo uma equipe da categoria do Santos, com Pelé e tudo?”, declarou, na época.

Medindo 1,75 m, Valdir Joaquim de Moraes era considerado relativamente baixo, mesmo na época. O gaúcho compensava a estatura com um senso de posicionamento excelente e muita técnica, além de impulsão e elasticidade sob as traves. Ágil e arrojado, o gaúcho também era um exímio pegador de pênaltis e primava em suas saídas do gol. Um de seus hábitos, para aprender com os erros, era rever os tapes de cada um de seus jogos.  E a qualidade na reposição oferecia ainda uma arma extra ao ataque alviverde. A conquista de 1959 escancarou que os palmeirenses tinham um camisa 1 para proteger sua meta ao longo da próxima década. Colocava-se como um digno sucessor a Oberdan, que permanecera no clube até 1954. O veterano, aliás, frequentava os treinos e dava suas dicas para o novato.

“Devo ser um bom goleiro. Se não fosse, não estaria jogando num clube da envergadura do Palmeiras. De uma coisa eu me envaideço: jamais procurei imitar quem quer que seja. Jogo à minha maneira e tenho meu estilo próprio”, declarou, à Revista do Esporte, em 1960. “A envergadura influencia, mas o que deve importar é a técnica do arqueiro. Na posição, o que conta é a segurança, a calma, o arrojo do atleta, e não apenas o tamanho. Coloquem um gigante que não possua essas características e vejam se ele joga bem. Claro que não”.

Eleito o melhor arqueiro em atividade no futebol paulista em 1960 e 1961, Valdir passou a frequentar a seleção estadual. Também foi pré-convocado à Copa de 1962, mas perdeu a disputa com os veteranos Gylmar e Castilho. Demonstrava, inclusive, consciência sobre as virtudes dos colegas: “Luto dentro do futebol sempre para conseguir o máximo, e a seleção brasileira significa o máximo para mim. Não me considero superior nem inferior a Gylmar e Castilho, pois se eles possuem qualidades que eu não tenho, disponho de alguns dons que eles não possuem. É a lei das compensações. Contudo, eles ainda são os melhores goleiros do país”.

A era vitoriosa do Palmeiras, aliás, se estendeu naqueles anos. O clube também conquistou a Taça Brasil em 1960, quando atropelou o Fortaleza nas finais, após eliminar o Fluminense na fase anterior. Além disso, os palestrinos também chegaram à decisão da Libertadores em 1961, na qual terminaram derrotados pelo Peñarol. A concorrência aos alviverdes era pesadíssima na época, sobretudo por causa do Santos, no auge com Pelé. Ainda assim, a Academia era a única potência capaz de rivalizar com o Peixe no Paulistão e ergueria outras taças ao longo da década. O time voltaria a ficar com o troféu estadual em 1963, quando Picasso (outro goleiro de primeira linha) apareceu entre os titulares.

Já o novo momento iluminado de Valdir aconteceu entre 1965 e 1966, aliando a experiência aos seus predicados na meta do Palmeiras. Naqueles anos, os alviverdes conquistaram o Torneio Rio-São Paulo de 1965 e o Paulistão de 1966, além do Torneio IV Centenário no Rio de Janeiro – com o goleiro pegando dois pênaltis de Pedro Rocha, então no Peñarol, durante a decisão no Maracanã. Valdir liderava uma linha defensiva fortíssima, que contava com Djalma Santos, Djalma Dias, Valdemar Carabina e Geraldo Scotto. O momento era tão favorável que os palestrinos seriam convidados a representar a seleção brasileira durante a inauguração do Mineirão, derrotando o Uruguai em setembro de 1965. Além disso, o camisa 1 voltara a figurar nas convocações de Vicente Feola.

Voando baixo no clube, Valdir viveria um dos jogos mais célebres de sua carreira em março de 1966, ao defender um pênalti de Garrincha no Palmeiras 2×1 Corinthians do Torneio Rio-São Paulo. O arqueiro também integrou a Seleção na longuíssima e conturbada preparação à Copa do Mundo daquele ano, viajando à Europa na série de amistosos preparatórios à competição. Ao lado de Gylmar e Manga no elenco, o palmeirense chegou a disputar um amistoso contra o Atvidabergs na Suécia, mas terminou cortado e precisou voltar ao Brasil. Ficou certo ressentimento, num Mundial em que as coisas saíram mal aos brasileiros. Como resposta, o gaúcho seria eleito o melhor de sua posição no Paulistão de 1966, faturado durante o segundo semestre.

“Minha receita para seguir na meta do Palmeiras é uma só: tranquilidade. Sem o espírito tranquilo, nada se consegue na vida. Principalmente no futebol. Aliás, o goleiro que não tem paz de espírito e não leva uma vida tranquila dificilmente pode fazer sucesso na carreira, que é das mais ingratas”, afirmou à Revista do Esporte, em 1966. “Não é o técnico quem escala o jogador. Quem se escala é o próprio atleta. Por isso, o conselho que dou a todos os meus colegas é que se empenhem sempre nos treinos, cumpram as determinações do técnico e não se descuidem da forma. Jogador que não se cuida está cavando sua barração”

Apesar de sua consciência, a carreira de Valdir no Palmeiras já se aproximava do final. Em 1967, o goleiro foi campeão do Robertão e da Taça Brasil, mas sofreu com as lesões em ambas as campanhas e se ausentou das retas decisivas. Lidando com os problemas físicos, despediu-se em grande ocasião da Academia, apesar do desfecho infeliz: o gaúcho foi o titular na meta alviverde durante as três partidas da decisão da Libertadores de 1968, contra o Estudiantes. Após a derrota por 2 a 1 na Argentina, os brasileiros forçaram o terceiro jogo graças à vitória por 3 a 1 em São Paulo. Contudo, os pincharratas levaram a taça em Montevidéu, com o triunfo por 2 a 0. Com 480 partidas no Palmeiras, incluindo 291 vitórias, Valdir deu seu adeus à torcida.

Próximo dos 37 anos, Valdir ainda teve tempo de voltar ao Rio Grande do Sul. Atuaria por mais duas temporadas no Cruzeiro de Porto Alegre, antes de realmente pendurar as luvas em 1969. E o fim de sua belíssima carreira como jogador iniciaria outra etapa ainda mais brilhante de sua trajetória no futebol. Ele até montou uma loja em São Paulo a partir de 1969. Mas, a convite de Oswaldo Brandão, retornou ao Palmeiras como um de seus auxiliares em 1971. A revolução pessoal partiria de uma ideia do próprio Valdir: o veterano desejava realizar um trabalho específico de treinamento com os arqueiros alviverdes e solicitou o posto especial a Brandão. Seria um dos pioneiros, então, como preparador de goleiros.

“Nos meus últimos anos de carreira, eu já vinha treinando os goleiros mais jovens do clube e sugeri ao Oswaldo Brandão que ficasse nessa função ao encerrar meu ciclo de goleiro. Ele aceitou de imediato. Na época, alguns dirigentes foram contrários a isso. Mas os goleiros passaram a ter uma nova dinâmica e todos os outros clubes brasileiros começaram a copiar o Palmeiras”, declarou, em 2008, durante entrevista ao Globo Esporte.

A segunda Academia do Palmeiras também teve o dedo de Valdir Joaquim de Moraes. Emerson Leão se firmou como o melhor goleiro do Brasil (e um dos melhores do mundo) no período, com a ajuda essencial de seu mentor. O estilo de jogo em seus tempos como arqueiro moldaram muito a mentalidade do treinamento elaborado pelo veterano, sobretudo ao enfatizar os recursos técnicos e a importância do posicionamento. Também dava uma atenção especial ao trabalho psicológico, contribuindo à confiança de seus aprendizes. Seus métodos tornaram-se um exemplo para outros profissionais ao redor do país. E, quando necessário, Valdir também se tornou técnico interino dos palestrinos ao longo da década de 1970.

A excelência de Valdir Joaquim de Moraes o levou à Seleção como preparador de goleiros, membro da comissão técnica de Telê Santana na Copa de 1982. Era o responsável por desenvolver as capacidades de Waldir Peres, Paulo Sérgio e Carlos no Mundial da Espanha. Depois disso, seguiria trabalhando em clubes de ponta e com treinadores de elite. O passado no Palmeiras não o impediu de ser querido também no Corinthians, treinando os arqueiros no período vitorioso da Democracia Corintiana, ou mesmo no São Paulo, durante a sequência dos anos 1980. Já ao lado de Rubens Minelli, formou a primeira comissão técnica do Paraná Clube em 1989.

Já na década de 1990, outra guinada na carreira de Valdir aconteceu em seu reencontro com Telê Santana. Recontratado pelo São Paulo em 1991, o preparador de goleiros aprimorou outra lenda, Zetti, e também participou dos primeiros passos de Rogério Ceni no Morumbi. O gaúcho fez parte da comissão técnica em todas as conquistas enfileiradas pelos tricolores naquele período mágico, incluindo as duas Libertadores e os dois Mundiais. Reza a lenda que até mesmo Johan Cruyff, treinador do Barcelona, se impressionou com o trabalho realizado pelo preparador durante o aquecimento de Zetti em Tóquio – abismado sobretudo com a precisão daquele senhor nos chutes para testar seu goleiro.

A volta de Valdir ao Palmeiras aconteceu na sequência dos anos 1990, por intermédio de Vanderlei Luxemburgo. O veterano se tornaria consultor técnico no período dominante dos alviverdes e, de novo, o professor teria a sua influência na formação de outros goleiraços. Ensinou um bocado de suas técnicas a Velloso e Sérgio, além de ajudar na preparação de Marcos em sua ascensão na meta palestrina. Depois, o gaúcho acompanharia Luxa como supervisor técnico do Corinthians na virada do século. Voltou a ser multicampeão com os alvinegros, além de ter o seu contato com Dida. Não é exagero dizer que boa parte dos melhores goleiros brasileiros desde a década de 1970 trabalharam com Valdir, enquanto indiretamente todos se beneficiaram com o desenvolvimento que ele encabeçou.

Valdir Joaquim de Moraes realizou outros trabalhos no futebol durante os anos 2000, inclusive passando pelo próprio Palmeiras. Após voltar ao clube com Luxemburgo em 2008, o veterano se despediu dos alviverdes em 2011, sem a merecida consideração da diretoria. Com quase 80 anos, naquela época já tinha a chance até de ver seu neto atuando profissionalmente, o zagueiro Danny Moraes. A partir de sua aposentadoria, o futebol tornou-se um hobby inseparável ao gaúcho, vidrado nos jogos diante da TV.

Em sua despedida, Valdir deixou esposa, dois filhos, dois netos e cinco bisnetos. Deixou também uma legião de fãs, gratos por aquilo que conquistou, e também inúmeros aprendizes de sua arte. Seu maior legado é carregado por todos os goleiros do país. É difícil mencionar a evolução da posição no Brasil sem notar uma parcela de contribuição do porto-alegrense. Em sinal de respeito e reconhecimento, os diversos clubes pelos quais passou prestaram sua homenagem nos últimos dias. Sabem que parte de sua história vitoriosa está atrelada à dedicação e à visão do saudoso professor. Um verdadeiro mestre do futebol brasileiro.