Janeiro é mês de pré-temporada, de Copinha e, tenho notado, de campeonato inglês todos os dias. É mês também de ensaio dos blocos de carnaval de rua aqui pelas bandas de São Sebastião. Tempo perfeito para debater o legado de Obina no mais pagão dos feriados nacionais – empatado, é claro, com o feriado da Confraternização Universal, no primeiro dia do ano.

Antes de chegar no artilheiro dos gols comemorados mostrando o cofrinho, vamos voltar aos tempos mais primórdios e parar ali em 1950. Meu avô garante ter ido a todos os jogos do Brasil na Copa do Mundo daquele ano e sempre relembra um momento da goleada sobre a Espanha, por 6 a 1 (Chupa, Xavi!), na semifinal. Agitando panos brancos, o Maracanã inteiro cantava a marchinha:

Eu fui às touradas em Madri
Para tim bum, bum, bum
(Acho que é melhor conferir direto no vídeo)

Quando era criança, ouvi essa passagem tantas vezes que consigo imaginar cada degrau da arquibancada do Maracanã (estádio que já não está aqui entre nós). E aquele “Para tim bum, bum, bum” ficou na cabeça, é claro. Hoje, se quiser ouvir essa marchinha e esperar bater aquela nostalgia dos tempos que não vivi, o ideal é partir para um bloquinho de Carnaval nas ladeiras de Santa Teresa.

Lamartine Babo é o criador de várias dessas marchas que embalam o festa de Momo, mas vou falar só dos hinos dos clubes do Rio porque não sou biógrafo do sujeito. Reza a lenda que ele escreveu os do Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco em um único dia. Ainda teve tempo de fazer o do Bangu (“A torcida reunida até parece a do Fla-Flu / Bangu, Bangu, Bangu!”) e o mais bonito, justamente do seu time do coração, o América, que foi inspirado em uma das canções do musical da Broadway “Ziegfield Follies of 1912”.

A do Bangu ainda não voltou para a boca do povo, mas a do América costuma ser executada em bailes de Carnaval, blocos de marchinha e blocos de samba-enredo. É um sucesso garantido e não deixa de ser uma boa mídia espontânea – como gosta a rapeize ligada no marketing – para o Mequinha, que anda cabisbaixo na Série B do carioca.

Só não pode mesmo é tocar o hino dos quatro grandes. De vez em quando, o cantor desses blocos puxa um hino e se vê na obrigação de cantar os outros – o que acaba criando a guerrinha. Daí para os corinhos do momento é um pulo. Se quiser cantar futebol, senhor puxador, você deve levar, no máximo, “Domingo, eu vou ao Maracanã” e esperar que as partes se manifestem no refrão. É bem mais democrático e não enche o saco.

Ouvir sambas-enredo nas arquibancadas cariocas também não é novidade. Naqueles jogos de Carioca pós-carnaval, é comum o samba da escola campeã ser cantado. Alguns acabam ficando, como o Abram Alas Tricolor, a esperta versão da torcida do Fluminense para “Gosto que me Enrosco”, samba da Portela que foi vice em 1995, e o refrão “Esse jogo vai virar / Eu quero ser o vencedor” de “A Viradouro vira o jogo”, campeã de 2007, que é cantada por mais de uma torcida.

O curioso é que uma música com forte ligação a um clube específico está cada dia mais incorporado aos blocos de carnaval que tocam samba-enredo. E isso é tão forte que praticamente todas a cantam, e no clímax da animação esquecem até mesmo esse negócio de clubismo – não no estádio, é claro. É a versão da rubro-negra para Festa Profana, da União da Ilha de 1989, aquela do “O rei mandou cair dentro da folia / e lá vou eu / O som que brilha / nessa noite vem da ilha…”.

Esqueça quase todos os versos trocados e cante o samba original porque é dos melhores que temos (Valeu, União da Ilha!). Mas, lá no fim, a Suderj Informa: sai “Ó, que beleza! / Máscara negra lá no baile de Veneza” e entra “Ó, que beleza! Mais um golaço do Obina de cabeça”. Não dá para segurar. Já vi muito botafoguense, tricolor e vascaíno por aí mandando o próprio time do coração para lá de Marrakech para pescar Obina na memória.