A Serie A contará com o retorno de clubes tradicionais na próxima temporada. O Brescia foi o primeiro a confirmar a subida na segundona italiana. Já neste final de semana, o Lecce experimentou uma felicidade parecida ao conquistar a segunda vaga no acesso direto. Pela primeira vez desde 2011/12, os giallorossi figurarão na elite. E a reconstrução inclui seis temporadas na terceira divisão, assim como a segunda promoção consecutiva, para recobrar um pouco mais de sua história. Será a 15ª participação do Lobo na elite, todas elas acumuladas a partir de 1985, concomitantes aos anos dourados do Calcio.

Por mais de duas décadas, o Lecce se manteve como um “time ioiô” no Campeonato Italiano. Nunca passou mais de três temporadas seguidas na primeira divisão. Em compensação, sempre voltou em até três anos, acumulando oito acessos de 1985 e 2010. Mesmo quando caiu seguidamente à Serie C, em 1996, retornou imediatamente com duas promoções à elite. O fundo do poço aconteceu em 2012, mas por motivos extracampo. Em um momento no qual a gestão do clube mudava de mãos, os salentini foram implicados em um caso de manipulação de resultados. Condenados, terminaram rebaixados diretamente à terceira divisão e receberam uma punição em sua pontuação.

O Lecce penou um bocado na Lega Pro. Mesmo trazendo alguns jogadores renomados, a equipe sempre batia na trave. Foram cinco campanhas consecutivas terminando nas primeiras colocações de seu grupo na terceirona, além de duas derrotas nas finais dos playoffs, sem conquistar a promoção. A redenção só começou em 2017/18, com o almejado título de sua chave na Serie C, que valeu o acesso. Apesar do alívio, as perspectivas dos giallorossi na segundona ainda seriam modestas, tentando se estabilizar.

No entanto, a crescente se manteve o Lecce completou o feito neste sábado. Apesar do início de campanha irregular, o time entrou na zona de acesso direto já ao final do primeiro turno da Serie B. Seguiu na luta durante o início do returno e emendou uma excelente sequência nesta reta final. Foram seis vitórias nos últimos oito compromissos, suficientes para assegurar a vice-liderança. Na rodada derradeira, com a vaga nas mãos, o Lobo fez a alegria de sua torcida ao derrotar o Spezia por 2 a 1, dentro do Estádio Via del Mare.

O nome principal nesta reconstrução do Lecce está no banco de reservas. Fabio Liverani teve uma carreira consistente como jogador, sobretudo com a Lazio, que o levou à seleção. Já como treinador, começou na base do Genoa e rodou por times menores até chegar ao Lobo em setembro de 2017. Foi o responsável pelos dois acessos. Em campo, a equipe investiu bastante em reforços para esta campanha, sobretudo emprestando jogadores de clubes da Serie A. Desta maneira, os salentini montaram um elenco bastante rodado, como nomes como Cesare Bovo e Panagiotis Tachtsidis. O meia Marco Mancosu esteve entre os destaques, bem como o artilheiro Andrea La Mantia.

O desafio do Lecce na Serie A será claro. Os dois acessos consecutivos indicam o abismo em relação aos concorrentes e o clube precisará ponderar sua política no mercado de transferências. Ainda assim, representa uma alegria aos torcedores e mais uma ligação com os anos de ouro do Calcio. Para resgatar um pouco da história do Lecce, relembramos 11 estrangeiros que construíram a trajetória do clube na Serie A. Há jogadores célebres do futebol italiano que defenderam a agremiação, como Antonio Conte e Marco Amelia, mas o recorte fica para os gringos que retratam a ascensão. Destaques que encabeçaram o elenco na primeira divisão e remontam um pouco do orgulho dos salentini. Confira:

Pasculli e Barbas, do Lecce

Pedro Pasculli

A primeira temporada do Lecce na Serie A aconteceu em 1985/86. Os giallorossi confiaram no talento argentino para se manter na elite. E o grande símbolo do clube se tornou Pedro Pasculli, atacante que vestiu a camisa giallorossa por sete temporadas. O artilheiro vinha em franca ascensão quando se mudou à Itália. Conquistou dois títulos nacionais com o Argentinos Juniors e integrou a equipe no início da campanha vitoriosa na Libertadores de 1985. Já acumulando convocações à seleção, seria um reforço de peso. Apesar dos seis gols em seu primeiro ano, não evitou o rebaixamento, mas integrou o elenco da Albiceleste que levou a Copa do Mundo em 1986. Pasculli militou duas temporadas na segundona, até contribuir com 12 gols ao acesso em 1988. Depois, seriam mais três anos consecutivos na elite, até o retorno à Serie B em 1992. Só deixou a equipe em 1993, aos 33 anos, encaminhando o fim de sua carreira. Autor de 53 tentos, é o maior artilheiro estrangeiro da agremiação, ao lado de Ernesto Chevantón, e também aparece entre os 10 que mais atuaram pelo time, com 214 partidas.

Juan Barbas

O outro argentino a desembarcar em Lecce durante a temporada 1985/86 foi Juan Barbas. Um dos prodígios na seleção que conquistou o Mundial Sub-20 em 1979, o meia foi ídolo do Racing e também brilhou no Zaragoza, por duas temporadas apontado como o melhor estrangeiro de La Liga. Presente na Copa de 1982, era outro negócio retumbante dos salentini em sua estreia na primeira divisão. Não teve uma estadia tão longa quanto a de Pasculli, mas foi igualmente importante em seus cinco anos no clube. Dono de um arremate potente, contribuiu com seus gols e também ajudou o time a retornar à Serie A, após o rebaixamento em 1986. Ficou por lá até 1990, quando os giallorossi fizeram outras opções no mercado de transferências e o veterano passou a rodar pelo futebol suíço.

Sergei Aleinikov

Meio-campista de muita inteligência tática, Aleinikov foi um dos grandes nomes do futebol soviético na década de 1980. Conquistou o título nacional com o Dinamo Minsk e esteve presente em duas Copas do Mundo, além de ser vice-campeão na Euro 1988. A badalação o tornou um dos primeiros a saírem do país rumo à Europa Ocidental, assinando com a Juventus em 1989. Depois de uma temporada em Turim, defenderia o Lecce nos dois anos seguintes. O bielorrusso se juntaria a Zbigniew Boniek, antigo ídolo da Juve que iniciava sua carreira como treinador. Atuando como líbero ou volante, foi um dos destaques do time na Serie A 1990/91, apesar do rebaixamento. Ainda continuou para a Serie B seguinte, mas, alvo de ataques dos torcedores, transferiu-se ao Gamba Osaka em 1992 sem conquistar o acesso.

Mazinho marca o compatriota João Paulo, do Bari

Mazinho

O Lecce serviu de porta de entrada a Mazinho no futebol europeu. Destaque do Vasco, o lateral acertou sua transferência ao Calcio em 1990, após a participação na Copa do Mundo. E teve o seu devido destaque, apesar do rebaixamento dos giallorossi à Serie B. O brasileiro foi o jogador que mais vezes atuou pelo clube naquela temporada, com 34 presenças, e anotou dois gols. Rumo a 1991/92, Mazinho terminou sendo vendido à Fiorentina. Ainda assim, foi durante a estadia do coringa em Lecce que nasceu Thiago Alcântara.

Gheorghe Popescu

Nome obrigatório quando se fala sobre os grandes times da Romênia na década de 1990, Gheorghe Popescu tinha uma carreira rodada quando desembarcou na Itália. Além das participações em três Copas do Mundo, o veterano acumulara passagens por PSV, Tottenham, Barcelona e Galatasaray – com destaque aos tempos de Turquia, campeão da Copa da Uefa em 2000. O defensor estava com 33 anos quando reforçou o Lecce e ficaria por apenas uma temporada. Usando a camisa 10, o antigo defensor atuou em 28 partidas e anotou três gols, mas não evitou o descenso. Voltaria a Bucareste logo na temporada seguinte.

Ernesto Chevantón

Chevantón chegou a atravessar um bom momento com o Monaco e a conquistar títulos com o Sevilla. Ainda assim, o Lecce é o grande clube de sua carreira. O uruguaio chegou aos salentini em 2001, trazido do Danubio. Não demorou a se firmar como uma referência no ataque, mas os 11 gols foram insuficientes para evitar o rebaixamento. Assim, ele virou protagonista no reerguimento do Lobo. Chevantón balançou as redes 16 vezes na Serie B, essencial ao acesso em 2002/03. Depois, assegurou a permanência na elite com 19 gols em 2003/04, estabelecendo o recorde de tentos do clube na Serie A. Chegou a garantir uma histórica vitória por 4 a 3 sobre a Juventus, em Turim. Diante do sucesso, seria vendido ao Monaco. Mas voltaria a Lecce para outras duas passagens: jogou a Serie A em 2010/11 e também a Serie C em 2012/13. É o quarto maior artilheiro do clube, com 53 gols.

Giacomazzi e Chevantón, lendas uruguaias do Lecce

Guillermo Giacomazzi

Mais uma aposta uruguaia que chegou ao Lecce em 2001. Giacomazzi, no entanto, consegue superar a importância de Chevantón no clube. Revelado pelo Bella Vista, o meio-campista defendeu o Peñarol, antes de ser pinçado pelos giallorossi. Virou uma figura central em anos importantes do Lobo. Caiu na Serie A em 2001/02, ajudou o clube a se reerguer na segundona e, depois disso, seria presença constante nas três campanhas consecutivas na elite, atrapalhado apenas por problemas físicos. Ainda ficou por meia temporada na Serie B 2006/07, antes de ser negociado com o Palermo. Após um ano e meio longe dos salentini, Giacomazzi retornou. Caiu novamente com o time, subiu novamente, emendou mais duas campanhas na Serie A. Méritos reconhecidos, também usou a braçadeira. E nem mesmo a crise que derrubou o Lecce à terceirona em 2012/13 afastou o veterano, disputando uma edição da Lega Pro. Deixou a agremiação depois de entrar em rota de colisão com o técnico Francesco Moriero, que o tirou do posto de capitão. Apesar disso, a idolatria do uruguaio permanece. Com 312 jogos, é o segundo que mais atuou pela equipe e seus 43 gols o deixam entre os dez maiores artilheiros.

Souleymane Diamoutene

Diferentemente da maioria dos citados nesta lista, Diamoutene não possui uma reputação internacional tão extensa com a sua seleção. O zagueiro defendeu Mali em 49 jogos e disputou três edições da Copa Africana de Nações, mas sem se transformar em nome célebre. O grande reconhecimento aconteceu no próprio Lecce. O defensor se profissionalizou na Itália, defendendo Udinese, Lucchese e Perugia, até assinar com os salentini em 2004. Dono de uma grande presença de área, permaneceu como titular absoluto dos giallorossi entre 2004 e 2009. Compôs o grupo em duas temporadas na Serie A, seria primordial na promoção da Serie B e, em seu retorno à elite, acabou negociado com a Roma. Sem se firmar na capital, ainda teria três passagens curtas pelo Lecce nos anos posteriores, acumulando 156 partidas com a agremiação.

Vucinic despontou cedo com a camisa do Lecce

Mirko Vucinic

A relação de Vucinic com a cidade de Lecce é íntima. Afinal, os giallorossi podem se vangloriar por terem descoberto o montenegrino em sua terra natal. Virou prata da casa no Lobo e também costuma ser incluído entre os maiores ídolos da agremiação. Vucinic surgiu com a camisa do Sutjeska Niksic, de sua cidade natal, estreando como profissional aos 16 anos. Aos 17, o Lecce contratou o prodígio e o integrou inicialmente às suas categorias de base, antes de aproveitar o talento do atacante entre os profissionais a partir de 2001. Apesar de ganhar as primeiras chances na Serie A, sua afirmação aconteceu mesmo na Serie B de 2002/03, contribuindo para o acesso. E seria primordial à sequência de temporadas dos salentini na elite. Em 2004/05, anotou 19 gols no Italiano, igualando o recorde de Chevantón. Depois, somaria mais nove em 2005/06, antes de se transferir à Roma.

Valeri Bojinov

Assim como Vucinic, Bojinov foi um achado dos olheiros do Lecce. O atacante chegou ao clube em 2000, após se destacar em um torneio em Malta com o nanico Pietà Hotspurs. Levado às categorias de base, o búlgaro realizou sua estreia em janeiro de 2002, um mês antes de completar 16 anos, tornando-se o estrangeiro mais jovem a disputar a Serie A. Apesar da pouca idade, auxiliou no acesso conquistado em 2002/03 e seria titular nas duas campanhas seguintes na elite. Seu ápice no clube aconteceu sob as ordens de Zdenek Zeman, acumulando 11 gols no primeiro turno do Italiano 2004/05. Tamanho impacto o levou à Fiorentina para a metade final daquela edição. Depois de muito rodar, o búlgaro ainda voltaria por seis meses ao Lecce, em meados de 2012.

Cuadrado, Muriel e as dancinhas colombianas no Lecce

Juan Guillermo Cuadrado

A grande responsável por descobrir Cuadrado no futebol colombiano foi a Udinese. Ainda assim, sem emplacar no Estádio Friuli, o Lecce permitiu que o ponta construísse sua fama no Calcio. Passou por lá uma temporada, emprestado em 2011/12. Tempo suficiente para cair como uma luva no time de Eusebio di Francesco e salvar seu nome, apesar do rebaixamento. Apresentando toda a sua velocidade pelos lados do campo e sua habilidade aos dribles, o jovem de 23 anos somou 33 partidas como titular e anotou três gols. Ficava claro que tinha bola para continuar na Bota e a Fiorentina o contratou. Outro compatriota a brilhar no Via del Mare em 2011/12 foi Luis Muriel, autor de sete gols naquela campanha.