Um lamentável acontecimento de teor racista ocorreu na última rodada do Campeonato Sérvio. O Rad Belgrado recebeu o Partizan em casa para disputar três pontos na tabela. Normal que por serem rivais da mesma cidade, a atmosfera predominante nas arquibancadas fosse de hostilidade na recepção aos rivais. Não foi normal, porém, o que fizeram com o brasileiro Everton Luiz, do Partizan, ao longo dos 90 minutos. O meia abandonou o gramado em lágrimas depois de ter que aguentar calado insultos raciais sendo proferidos por torcedores do Rad durante toda a partida. Antes de deixar o campo, no entanto, Everton Luiz mostrou o dedo do meio para a torcida anfitriã, reação que gerou cenas ainda mais deploráveis dentro e fora das quatro linhas.

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Everton, que, no Brasil, teve passagens por Criciúma, Bragantino, CRB, onde mais se destacou e foi bicampeão alagoano, e outros clubes, viveu uma tarde desanimadora neste domingo. E não foi por conta de resultado negativo. O Partizan venceu fora de casa por 1 a 0 e garantiu a vice-liderança do campeonato, conseguindo ficar a seis pontos do arquirrival e líder Estrela Vermelha. Mas quem é que consegue celebrar uma vitória quando é alvo de preconceito? Desde antes do primeiro apito do jogo, o meia teve que ver e ouvir torcedores do Rad imitando macacos com o intuito de ofendê-lo e engolir a presença de faixas de cunho racista direcionadas a ele. No fim da partida, então, ele acabou descarregando tudo o que sentiu na pele com as atitudes lamentáveis dos preconceituosos fazendo o gesto ofensivo com o dedo. E, por esse motivo, tomou cartão amarelo.

Em seguida a isso, um tumulto foi originado no gramado. Jogadores do Rad foram confrontar Everton por sua reação que, bem, não foi das mais corretas. Mas ficaram calados diante da intolerância que tomou conta das arquibancadas o jogo todo, como se estivessem sendo convenientes com aquilo. A polícia teve que entrar em campo para conter a confusão e evitar que esta se alastrasse e culminasse em, por exemplo, invasão de torcedores no gramado. E, diante dos episódios de racismo e certa conveniência por parte dos atletas do Rad Belgrado, Everton Luiz não pode controlar o choro. Foi para o vestiário chorando e sendo consolado por seus companheiros de equipe, que também lamentaram o acontecimento.

“Não consegui conter as lágrimas, ao enfrentar insultos racistas das arquibancadas durante os 90 minutos”, falou o meia em entrevista depois da partida. “Fiquei ainda mais abismado com a atitude dos jogadores adversários que, em vez de acalmar as coisas, apoiaram esse comportamento”, disse ainda o jogador. O técnico do Partizan, Marko Nikolic, entretanto, não pareceu estar completamente ao lado de Everton nessa história. Após o jogo, ele afirmou que as autoridades do futebol sérvio devem punir os torcedores do Rad, mas ressaltou que o meia também deve enfrentar uma ação disciplinar, por parte do clube. “Ele não deveria ter reagido. Mas se ele fez isso, foi porque algo provocou sua explosão, não foi?”.

É válido recordar que Nikolic já esteve envolvido em um episódio racista dentro do futebol antes. O técnico treinou o Olimpia de Ljubljana, da Eslovênia, até abril do ano passado. Foi demitido do clube porque ofendeu Blessing Eleke, atacante que fazia parte de seu elenco, o chamando de “negro idiota”. Isso porque o nigeriano acabou prolongando a comemoração de um gol que marcou contra o Zavrc. Era o tento de empate, e devido à empolgação e, consequentemente, distração dos jogadores, sobretudo Eleke, os adversários acabaram conseguindo virar o jogo. “Isso [insultos raciais] acontecem no futebol. Mas deve haver punição”, opinou ainda Nikolic depois do que aconteceu com Everton Luiz.

E como acontecem. No futebol sérvio, no da Espanha, do Brasil, da França, da Itália, da Inglaterra. Acontece praticamente em todo lugar. Mas nem por isso o racismo deve ser naturalizado. Nos últimos anos, a Sérvia tem sido cenário de vários incidentes relacionados a preconceito racial, incluindo cantos de torcida contra jogadores negros e faixas ofensivas. Torcedores de extrema-direita, ultranacionalistas, como no caso dos fãs do Rad, clube que tem um pequeno número de pessoas em sua torcida que se identificam com ideais conservadores. Pessoas que vivem envolvidas em episódios de intolerância e violência, principalmente contra torcedores do Novi Pazar, que representam a minoria muçulmana na Sérvia.