O Juventude encarou o Castelão abarrotado e seu ato heroico valeu o retorno à Série B

Com uma atuação espetacular do goleiro Elias, o empate por 1 a 1 rendeu o acesso dos alviverdes diante do Fortaleza

A história em qualquer jogo decisivo no futebol se divide entre vencedores e vencidos. A doçura do triunfo e o amargor da derrota. A linha tênue que pode se alterar por uma bola, por alguns centímetros, por alguns segundos. Neste domingo, o Castelão terminou a noite imerso na frustração. O estádio recebeu o maior público do ano no futebol brasileiro, com 63,9 mil presentes, e reviveu, pela quarta vez em cinco anos, o mesmíssimo pesadelo no jogo de volta das quartas de final da Série C. A um gol do acesso, o Fortaleza fracassou. Mas enquanto o vazio no peito vestia tricolor, poucas almas exultantes em verde e branco conseguiam comemorar naquela atmosfera pesada. O Juventude segurou o empate por 1 a 1 com as unhas, o suficiente para subir, após o 0 a 0 em Caxias do Sul. Depois de sete anos, que incluem três temporadas de estágio na Série D, o Papo retorna à segunda divisão nacional.

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Nesta longa jornada, 2016 parecia mesmo especial ao Ju. O primeiro semestre teve seu ápice na semifinal do Campeonato Gaúcho, quando o clube de Caxias do Sul eliminou o Grêmio. Não superou o Internacional na decisão, mas o primeiro vice-campeonato estadual desde 2008 serviu de bom presságio. A campanha na Série C esteve longe de ser impecável. Os alviverdes sofreram um bocado. Nas seis primeiras rodadas, só venceram o fraco time do Guaratinguetá. Mas houve tempo para reagir. A partir de então, o Papo só perdeu mais uma vez, na antepenúltima rodada, contra o Tombense. E as duas vitórias nos dois últimos compromissos, diante de Macaé e Mogi Mirim, acabaram sendo fundamentais para assegurar a última vaga do Grupo B nos mata-matas, desbancando justamente o Tombense e o Ypiranga de Erechim.

Neste momento, o Juventude ganhava repercussão nacional. De volta à Copa do Brasil após quatro anos, já tinha eliminado nas fases anteriores Tocantinópolis, Coritiba e Paysandu. Mas o seu grande feito ficou mesmo para as oitavas de final, contra o São Paulo. Os gaúchos surpreenderam com a vitória por 2 a 1 no Morumbi, relativamente tranquila. E não foi a derrota por 1 a 0 no Alfredo Jaconi que tirou a classificação ou a motivação dos alviverdes. Uma amostra para o confronto realmente importante para o futuro do clube, diante do Fortaleza.

O empate por 0 a 0 em Caxias do Sul não foi exatamente o melhor resultado, mas o Ju não poderia reclamar – até para quem viu os adversários terem um gol mal anulado. Precisaria tentar repetir o caminho de Oeste, Macaé e Brasil de Pelotas, encarando a multidão no Castelão. De qualquer maneira, a vantagem de marcar um gol fora de casa até se mostrava confortável aos visitantes. Algo que valeu demais para o sucesso do time neste domingo.

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O primeiro tempo no Ceará foi tomado pela tensão. O Fortaleza começou a noite com a iniciativa, botando o Juventude contra a parede. Entretanto, na melhor oportunidade de marcar, Anselmo parou em defesaça do goleiro Elias. Aos poucos, os visitantes começaram a equilibrar as ações. E foram para o intervalo bem melhores na partida, desperdiçando ao menos três chances claras de abrir o placar. Pois os gaúchos não perderam o ritmo e, enfim, balançaram as redes logo aos dois minutos da etapa complementar. Pará cruzou e Hugo fuzilou de cabeça, tirando do alcance de Ricardo Berna. Silenciou o Castelão e afogou os tricolores em seus próprios medos.

O Fortaleza demorou a reagir. O time parecia nervoso demais na criação, sem apresentar repertório, e viu Berna evitar o pior em arremate de Wallacer. Aos 21 minutos, contudo, começou a reação. E ela pode ser totalmente creditada a Pio, que resolveu pegar a bola e liderar todo o espírito de luta do Leão do Pici. O meio-campista soltou uma pancada em cobrança de falta e não deu nem tempo de reação a Elias. Fazia o Castelão explodir na comemoração e recobrar as esperanças do milagre.

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Mas se Pio jogou muito pelo time da casa, Elias foi ainda melhor pelo Juventude. O goleiro parecia estar com o corpo fechado. Apareceu para negar outra vez o heroísmo a Anselmo e, na revanche contra Pio, realizou grande intervenção na cobrança de falta que tinha endereço. A tensão aumentou aos 28 minutos, quando o árbitro expulsou Pará e Juliano, em cartão vermelho que saiu mais caro ao tricolor, com a boca sangrando após ser agredido. Não foi isso, de qualquer forma, que esmoreceu o Leão. Quando o goleiro não salvou, Leandro Lima cabeceou com muito perigo. Já nos acréscimos, restando aos torcedores apenas apelar ao último fio de fé, Elias enterrou qualquer perseverança com mais duas defesas importantes. Ao Fortaleza, naquele momento, a única certeza foi o choro.

Em meio à grandiosa classificação, o Juventude brilhou pela consistência. O empenho defensivo valeu muito, mesmo que Elias tenha precisado trabalhar tanto. Méritos do trabalho de Antônio Carlos Zago. De volta em agosto de 2015 ao time que defendeu como jogador, conseguiu estabelecer sua melhor sequência como técnico. Acaba como responsável óbvio pela excelente temporada vivida no Alfredo Jaconi. Na entrevista após a partida, o ex-zagueiro expôs seu sentimento misto. Falou sobre a tristeza inescapável do Castelão, sem negar sua alegria pelo feito do Papo. Nada mais justo, ao colocar na Série B um clube que viu seu futuro ir ladeira abaixo na última década. Que o acesso tenha dependido do drama de somente duas partidas, elas acabam refletindo tudo o que aconteceu nos meses recentes em Caxias do Sul.

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