O Junior de Barranquilla atravessou uma semana terrível, mas precisava olhar para frente. Não deve ser fácil desperdiçar a chance de uma conquista internacional, a primeira em sua história, da maneira como ocorreu com os Tiburones. Os colombianos tiveram inúmeras chances de derrotar o Atlético Paranaense dentro da Arena da Baixada. Perderam todas e foram extremamente incompetentes nos pênaltis. Mas, se restava um consolo, o domingo reservaria a chance de uma nova taça, desta vez no Torneio Finalización do Campeonato Colombiano. Os caribenhos encaminharam o título no jogo de ida contra o Independiente Medellín, ao golearem por 4 a 1 no Estádio Metropolitano. Missão simples para o reencontro no Atanásio Girardot, certo? Não tão simples assim. Porque o Junior sofreu todos os pesadelos possíveis, ao ver o DIM, em dois momentos distintos da partida, ficar a um gol de forçar as penalidades. Ao final, a vitória dos paisas por 3 a 1 não foi suficiente e desencadeou a comemoração aliviada dos visitantes. Pela oitava vez na história, a primeira desde 2011, o Junior se proclama campeão nacional.

O Junior vinha fazendo por merecer o título no Campeonato Colombiano nestes últimos sete anos. Foram duas conquistas na Copa Colômbia, em 2015 e em 2017, mas os Tiburones sempre terminavam a liga nacional no quase. O clube saiu derrotado nas finais em 2014, 2015 e 2016 – sempre superado pelos gigantes de Medellín. E que o investimento sobre o elenco tenha aumentado desde a última temporada, o time vinha sucumbindo nos mata-matas. Mesmo recheados de estrelas no Apertura 2018, os junioristas foram eliminados nas quartas de final pelo próprio Independiente, já carrasco na final de 2016.

O Junior escreveria uma história diferente neste Finalización. A eliminação precoce na fase de grupos da Libertadores fez o elenco perder protagonistas, como Yimmi Chará e Jonathan Álvez. Em compensação, o grupo mantinha outros predicados e assegurou a classificação aos mata-matas, terminando a fase inicial na sexta colocação. Nas quartas de final, La Equidad foi o primeiro adversário despachado pelos Tiburones, que depois superaram o Rionegro Águilas. E se a fase decisiva careceu de camisas pesadas, com vários gigantes morrendo cedo (Atlético Nacional, Millonarios, Deportivo Cali e América de Cali sequer avançaram às quartas), a decisão guardou o reencontro com o DIM.

O jogo de ida, no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez se encerrou com uma goleada atípica. O placar zerado prevaleceu até o intervalo, com os paisas sendo os melhores em campo. O Junior, todavia, deslanchou no segundo tempo. Explorando a força de seu ataque e também se aproveitando dos erros defensivos do Independiente, os Tiburones golearam por 4 a 1. Luis Díaz, James Sánchez, Marlon Pedrahita e Teo Gutiérrez anotaram os gols, para festa dos quase 48 mil presentes nas arquibancadas. A equipe de Julio Comesaña seguia mais leve à sequência da semana decisiva, inclusive ao segundo jogo contra o Atlético Paranaense na Baixada. E então, as perspectivas se transformaram em Barranquilla.

O jogo deste domingo, em Medellín, impôs uma cobrança excessiva sobre o Junior. Era vencer ou se eternizar como uma equipe fracassada. Comesaña confiou em seus comandados e repetiu a escalação do empate no Paraná. Seria difícil lidar com o psicológico, de qualquer forma. A pressão do DIM começou desde a entrada em campo, com um belíssimo recebimento no Girardot, de arquibancadas coloridas em azul e vermelho. E quando a bola rolou, após dominar o primeiro tempo, o time da casa abriu o placar aos 44 minutos. Golaço de Leonardo Castro, que mandou um míssil de fora da área, no ângulo de Sebastián Viera – salvador até então.

O Independiente Medellín precisava de mais. E as chances começaram a se tornar palpáveis aos dez minutos do segundo tempo, quando uma sobra dentro da área permitiu a Castro anotar o segundo. Com mais um gol, os paisas já poderiam forçar os pênaltis. Viera seguia acumulando milagres e salvaria o terceiro, até que o Junior finalmente acordasse. Yony González saiu do banco e permitiu aos Tiburones reduzirem os batimentos cardíacos. Descontou aos 26. Em bola vadia na entrada da área, o substituto arriscou de primeira e mandou no cantinho. A pelota beijou a trave e entrou, restando mais 20 minutos para os caribenhos segurarem a situação.

Porém, aos 35, o DIM voltou a balançar as redes. Quase apagando sua exibição brilhante, Viera bateu roupa diante de Germán Cano e o artilheiro anotou o terceiro no rebote. Com mais um gol, a taça ficaria em Medellín. E os anfitriões bem que tentaram, com direito a duas reclamações de pênalti ignoradas pela arbitragem. Mas, apesar de todo o sufoco, o apito final premiou o Junior. O time que realmente merecia uma conquista do Campeonato Colombiano nos últimos anos, por todo o seu empenho, pôde ficar com o troféu. Levará para casa e certamente provocará um carnaval em Barranquilla, cidade famosa por seus festejos.

Há vários protagonistas na conquista. Viera já figura entre aqueles que mais vestiram a camisa do Junior e se consagra como herói em Medellín. A defesa teve Rafael Pérez como referência pelo centro, além de Marlon Piedrahita e Gabriel Fuentes como válvulas de escape no apoio. Víctor Cantillo preenche muito bem o meio, em alta há anos, acompanhado por Luis Narváez e James Sánchez. Jarlan Barrera possui uma qualidade técnica acima do comum, por sua inteligência na armação. Luis Díaz agrega bastante em suas chegadas ao ataque, artilheiro juniorista nesta campanha, com dez gols. Já o veterano Teo Gutiérrez, enfim, fatura o primeiro título da liga pelo clube de seu coração. Não foi tão efetivo ante as redes, mas valeu bastante pelas assistências e por abrir espaço aos companheiros.

Por fim, a maior lenda está no banco de reservas. A história de Julio Comesaña no Junior começou em 1973, quando o meio-campista uruguaio chegou a Barranquilla. Fez parte do primeiro time juniorista a faturar o Campeonato Colombiano, em 1978. Já como técnico, esta é a sua oitava passagem pela casamata dos Tiburones. A mais expressiva aconteceu entre 1992 e 1994, estabelecendo a chamada “Juniormania”. Foi campeão nacional em 1993, em esquadrão estrelado por Valderrama que serviu de base à seleção, bem como chegou às semifinais da Libertadores em 1994, ficando próximo de eliminar o futuro campeão Vélez Sarsfield. Já nos tempos mais recentes, faturou a Copa Colombia e terminou como vice da Sul-Americana em 2017, deixando a equipe pouco depois disso. Mas voltou. E engrandece esta trajetória com um novo troféu.

O Junior tem seus problemas, como as finais de 2018 evidenciaram. Mas também um grande potencial, seja por sua postura ofensiva ou pela qualidade individual. Será difícil segurar todos os destaques rumo à Libertadores 2019 – o próprio Barrera sairá, sem um acordo na renovação de seu contrato. No entanto, não deixa de ser um time para querer fugir no sorteio da fase de grupos do torneio continental. Por aquilo que já apresentou nas duas últimas edições da Sul-Americana, uma caminhada ao menos decente rumo aos mata-matas da Libertadores seria condizente ao que se constrói na costa do Caribe. É a história que se escreve, que se deseja mais.

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