Ronald Koeman surgiu como o nome ideal para comandar o processo de renovação da seleção holandesa não apenas por suas ideias como treinador. A aura do veterano também se tornou um fator essencial em sua contratação. O ex-defensor remete a anos brilhantes da Oranje, sobretudo durante a conquista da Euro 1988. E a sua principal noite com a camisa laranja volta à tona nesta quinta-feira, durante as semifinais da Liga das Nações. Há mais de 25 anos, Holanda e Inglaterra se enfrentaram por uma vaga na Copa do Mundo. Fizeram um jogo de vida ou morte no Estádio de Kuip, em Roterdã. Empatados na tabela, os dois times praticamente definiriam o classificado aos Estados Unidos naquela penúltima rodada. Pelo bem e pelo mal, Koeman foi decisivo. Anotou o gol que abriu a vitória holandesa por 2 a 0, muito embora os ingleses até hoje reclamem que o craque deveria ter sido expulso. Em um novo contexto, surge a revanche.

É bem verdade que a Inglaterra não vinha em um bom momento. O trabalho de Graham Taylor era questionado e o time fizera um papel modesto na Euro 1992. Assim, os resultados nas Eliminatórias para a Copa de 1994 aumentavam a pressão sobre os ingleses. Em um grupo no qual a surpreendente Noruega não demorou a se firmar, os Three Lions lamentavam os tropeços. A Holanda, por sua vez, também titubeou em certos momentos da caminhada. Apesar dos craques presentes no elenco de Dick Advocaat, os deslizes contra os noruegueses continham a Oranje. Tudo confluiu para que os teóricos favoritos fizessem uma decisão naquele 13 de outubro de 1993.

O confronto era válido pela penúltima rodada. Com 14 pontos, a Noruega enfrentava a Polônia fora de casa e esperava confirmar a classificação à Copa, em um grupo no qual os dois primeiros colocados carimbariam o passaporte. Inglaterra e Holanda vinham com 11 pontos, necessitados do resultado positivo. No primeiro encontro, em Wembley, prevalecera o empate por 2 a 2. Os Three Lions chegaram a abrir dois gols de diferença diante de sua torcida. John Barnes marcou de falta, antes que David Platt ampliasse num rebote. Contudo, a reação holandesa começou logo no primeiro tempo, com um lindo gol por cobertura de Dennis Bergkamp. Já aos 41 do segundo tempo, a igualdade saiu graças a um pênalti sofrido por Marc Overmars, que Peter van Vossen converteu. Koeman não estava presente neste duelo, pano de fundo ao reencontro bombástico entre as seleções em Roterdã.

A Holanda mesclava um talento ascendente com craques já consagrados. Diante da ausência de Ruud Gullit e Marco van Basten, as referências do time eram Koeman e Frank Rijkaard. Além disso, despontavam jovens como Bergkamp, os irmãos De Boer e Overmars. Já a Inglaterra de Graham Taylor tinha várias opções, embora as mudanças constantes na escalação não permitissem uma continuidade. Além do mais, as peças escolhidas para aquela noite ainda desabrochavam para a seleção. David Seaman era o goleiro; a defesa tinha Tony Adams e Gary Pallister; Paul Ince surgia no meio, com o capitão David Platt se tornando a principal figura; e Alan Shearer vinha como o homem de referência no ataque, acompanhado por Paul Merson. Paul Gascoigne, Stuart Pearce e Les Ferdinand foram desfalques sentidos.

O empate parecia aceitável à Inglaterra naquele momento. Além de jogar fora de casa, os Three Lions tinham um compromisso mais digerível na rodada final. Pegavam San Marino, enquanto a Holanda visitaria a Polônia. De qualquer maneira, a vitória seria bem mais lucrativa, para não dependerem de outros resultados depois. Durante o primeiro tempo, a Oranje tinha a iniciativa e criava mais chances. Todavia, os ingleses ficaram muito próximos de abrir o placar. Tony Dorigo cobrou uma falta que desviou na barreira e triscou na trave de Ed de Goey, enquanto Tony Adams viu um chute ser cortado na pequena área, com a meta escancarada.

Pouco antes do intervalo, um erro da arbitragem prejudicou a Holanda. Ronald de Boer cruzou a Rijkaard e o veterano balançou as redes, antes de ver o bandeira assinalar seu impedimento. A posição era legalíssima. Contudo, a decisão mais lembrada daquela noite aconteceu já no segundo tempo. Aos 12 minutos, em um contra-ataque aberto, Platt saía de cara para o gol e foi derrubado no limite da grande área por Koeman. Determinar o local não era simples e o juiz acertou em não dar o pênalti, mas a expulsão do capitão holandês deveria ser incontestável. No fim das contas, o alemão Karl-Josef Assenmacher só mostrou o inesperado amarelo ao defensor, além de marcar a falta fora da área. Os Three Lions não aproveitaram a chance, em chute bloqueado. Logo depois, os rumos do embate mudaram completamente.

“Estava a 20 metros de distância quando vi Koeman cometendo a falta em Platt. Em segundos, passou pela minha cabeça: este é um lance para vermelho ou amarelo? Não tive a impressão que foi deliberado. Então mostrei o amarelo. Foi uma decisão intuitiva e não posso dizer com certeza que estava certo. Não dei o pênalti porque segui a sinalização do assistente. Ele estava certo que a falta aconteceu fora da área”, afirmou Assenmacher, posteriormente.

Já Koeman admitiria logo após o jogo que deveria ter sido expulso. Segundo o defensor, ele se virou já esperando o vermelho e ficou surpreso ao ver o amarelo. Disse “ter sorte”. E, ao longo da vida, o veterano continuou falando sobre o lance muitíssimas vezes – inclusive nesta semana, antes do reencontro pela Liga das Nações: “Ah, não, isso faz muito tempo. Já me perguntaram sobre isso muitas vezes. Ok, foi um grande erro do árbitro – e eu não era o árbitro. Ele tomou a decisão, me mostrou o amarelo, quando deveria ser o vermelho. Talvez se existisse o VAR…”. A história, ainda assim, prevalece.

Aos 16 minutos de jogo, o destino espelhou a situação do outro lado do campo. A Holanda teve uma falta marcada no limite da grande área, em que reclamaram pênalti, mas não ganharam nada além. A primeira cobrança de Ronald Koeman foi bloqueada, como acontecera pouco antes do outro lado, mas desta vez o árbitro declarou que Paul Ince se movimentou antes e mandou voltar. Na segunda chance, o craque das bolas paradas não perdoaria. Koeman resolveu bater no jeito, não mais na força. Mandou com categoria por cima da barreira, e o péssimo posicionamento de Seaman não permitiu que o goleiro chegasse a tempo. “O árbitro conseguiu minha demissão, agradeço a ele por isso”, afirmou o revoltado Graham Taylor à beira do campo.

Dois minutos depois do gol de Koeman, ficou claro que a sorte também não estava do lado da Inglaterra. Paul Merson cobrou uma falta de longe e carimbou o poste outra vez. Já aos 23, depois de uma sequência de milagres de Seaman, o duelo se resolveu. De Goey cobrou o tiro de meta e, após uma casquinha no meio do caminho, Bergkamp dominou em velocidade. A bola bateu no peito e depois no braço do craque, mas a arbitragem não marcou. Ele avançou até a entrada da área e, após abrir espaço diante da marcação, o atacante bateu rasteiro. Um chute no cantinho, que contou com novo erro de Seaman, ao tentar pegar com a mão trocada. Com a vantagem estabelecida, bastou à Oranje cozinhar o jogo. A classificação estava em suas mãos.

A Inglaterra até fez a sua parte na rodada final. Goleou San Marino por 7 a 1, com quatro gols de Ian Wright – que só entrou depois do segundo gol em Roterdã. A Holanda, porém, não bobeou ante a eliminada Polônia. Bergkamp fez dois tentos na vitória por 3 a 1 em Poznan, que valeu a vaga no Mundial. Com dois pontos a mais, a Oranje se classificou aos Estados Unidos, juntamente com a Noruega. A Inglaterra veria a competição de casa, em eliminação que também resultou na saída de Graham Taylor. Após a febre pela campanha até as semifinais em 1990, os Three Lions teriam que esperar um pouco mais para reviver a Copa do Mundo.

“Se você me disser a palavra ‘Holanda’, até hoje vejo Platt correndo rumo ao gol. Não posso evitar. Quando as coisas não correm bem como treinador da seleção, isso te acompanha pelo resto da vista”, comentaria Graham Taylor, 20 anos depois da eliminação. Ridicularizado pela imprensa e vilificado pelos torcedores, o comandante cogitou deixar o país por conta da perseguição que sofreu. “Sinceramente, eu senti que estávamos sendo trapaceados. O árbitro estava favorecendo o time da casa, realmente senti isso, já que a bola que bloqueamos foi exatamente igual. Perdi o controle porque vi a Inglaterra sendo enganada. Foi a pior sensação que tive à beira do campo. Nunca havia me irritado daquela forma antes”, complementou.

“Quando alguém transforma sua cabeça em um nabo [como o jornal The Sun fez em sua capa], isso passa uma impressão a pessoas de certo intelecto que podem te tratar como qualquer coisa. Aconteceram alguns incidentes em que pessoas bêbadas quiseram jogar cerveja em mim, quiseram cuspir em mim. Não me diga que é apenas uma piada. Você é o vilão número um do país. Há somente uma pessoa que levará para o túmulo a eliminação, e sou eu”, dizia o treinador, falecido em 2017. Um documentário chegou a ser feito na época. Inicialmente gravado para contar a trajetória da classificação, terminou com o pior final aos ingleses. Ao menos, serviu para transmitir a dedicação de Taylor à frente da equipe nacional, uma impressão que prevaleceu nos anos seguintes, apesar dos fracassos.

Décadas depois, aquele jogo permanece lembrado de uma maneira dolorosa na Inglaterra. A eliminação privou alguns bons jogadores do torneio. Fica sempre a memória da expulsão ignorada e do gol fatal. Ronald Koeman poderia ser vilão da Holanda, caso recebesse o vermelho direto, mas terminou como o responsável pela classificação. Um personagem indigesto aos Three Lions, que agora se coloca no caminho durante a semifinal da Liga das Nações.