Texto publicado originalmente em 13 de maio de 2015, mas atualizado e ampliado

A fragmentação da Iugoslávia começou a se evidenciar em 1980. A comoção de um estádio inteiro após o anúncio da morte de Josip Broz Tito deixava bem clara a importância do presidente. O fim do estado iugoslavo se desencadeou a partir de então. As tensões entre as etnias nos Bálcãs, latentes desde muito antes, ficavam expostas sem o líder que as controlava. O país atravessou uma década inteira vivendo o aumento de sentimentos nacionalistas, até que a guerra eclodisse dez anos depois. E um capítulo ocorrido dentro do Estádio Maksimir, antes de um jogo entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, costuma ser considerado o estopim da Guerra da Iugoslávia. A imagem do meia Zvonimir Boban chutando um policial não é apenas um retrato da violência nos estádios. É o símbolo da cisão que acontecia entre croatas e sérvios naquele momento.

Os eventos que explodiram no 13 de maio de 1990 possuem diversos panos de fundo. Obviamente, a violência habitual dos ultras no país era um fator preponderante. Mesmo no dia da morte de Tito, em 4 de maio de 1980, os ultras de Hajduk Split e Estrela Vermelha preparavam uma batalha entre si. Todavia, a ideia acabou abandonada diante da notícia sobre o ditador. Por mais que diferentes etnias dos Bálcãs tenham formado o estado iugoslavo de maneira estável a partir da Segunda Guerra Mundial, o ranço nacionalista entre eles permanecia guardado. E a rivalidade no futebol, sobretudo entre times sérvios e croatas, acabava por canalizar esses sentimentos – o que aumentou ao longo da década de 1980.

Assim, o que aconteceu no Estádio Maksimir naquele 13 de maio não era exatamente uma surpresa. Principais clubes da Sérvia e da Croácia, Estrela Vermelha e Dinamo Zagreb tinham uma rixa antiga pela hegemonia no Campeonato Iugoslavo. O barril de pólvora aumentava com o próprio histórico de brigas entre seus ultras, que se odiavam: a Delije, do clube sérvio, e os Bad Blue Boys, organizada dos croatas. E a faísca que culminaria na explosão viria das urnas, com a primeira eleição parlamentar da República Socialista da Croácia (ainda parte da Iugoslávia, mas já com o desmanche do sistema político do regime comunista), concluída uma semana antes.

A votação evidenciou o desejo de independência dos croatas, com a vitória do partido que alimentava os sentimentos nacionalistas. Nada que fosse aceito pelo poder central iugoslavo, nas mãos dos sérvios. Os resultados do pleito tomavam o noticiário justamente entre o fim de abril e o início de maio, às vésperas do clássico pelo Campeonato Iugoslavo. A derrota nas urnas repercutiu entre os ultras sérvios que viajariam a Zagreb para o duelo. Entre eles, estava Zeljko Raznatovic, o Arkan, líder da Delije e procurado pela Interpol. Já os Bad Blue Boys viviam uma associação com as outras grandes torcidas de sua república, a chamada “Irmandade Croata”, mais pautada pelo nacionalismo do que pelas rivalidades internas.

Esportivamente, aquele clássico não significava muita coisa. O Estrela Vermelha já tinha confirmado o título no Campeonato Iugoslavo e encerraria sua campanha com 19 pontos de vantagem sobre o Dinamo Zagreb, o vice-campeão. Os sérvios contavam com uma verdadeira seleção dentro de seu elenco – que incluía diferentes etnias, bem como lendas do porte de Dragan Stojkovic, Robert Prosinecki, Darko Pancev, Dejan Savicevic e Miodrag Belodedici. Ali, já estava praticamente formada a base que conquistaria a Champions na temporada seguinte. Por mais que o Dinamo possuísse os seus predicados, num elenco no qual Davor Suker despontava como artilheiro, a vitória no duelo não valia mais do que a honra. Mas, naquele momento histórico, a honra nacionalista representava bastante aos dois lados em Zagreb.

Cerca de três mil torcedores do Estrela Vermelha foram à capital croata. E a pancadaria se deu desde as ruas da cidade, no entorno do Estádio Maksimir. Já nas arquibancadas, a tensão se ampliou durante o aquecimento dos jogadores. A Delije começou a entoar músicas nacionalistas sérvias, respondidas com canções croatas pelos cerca de 20 mil torcedores do Dinamo presentes nas tribunas – algumas destas canções, ligadas ao estado fantoche nazista que existiu na região durante a Segunda Guerra Mundial. Pouco depois, os visitantes quebraram as cercas que dividiam os setores e começaram a bater nos torcedores rivais. Do outro lado, os Bad Blue Boys romperam as barreiras da curva onde ficavam e atravessavam o campo para dar o troco.

A polícia era composta em sua maioria por sérvios, ligada ao governo da Iugoslávia. Os relatos são de que as forças de segurança permaneceram de braços cruzados quando a Delije iniciou seu ataque aos torcedores croatas. Contudo, no momento em que os Bad Blue Boys partiram para cima, os policiais começaram a agir: em vez de conterem a briga, reprimiram os ultras do Dinamo. O cenário de guerra estava montado no Maksimir. Ambos os lados atiravam pedras, cadeiras e o que mais vissem pela frente. Os Bad Blues Boys eram alvos de bombas de gás lacrimogêneo no gramado. Foi quando Boban protagonizou a cena que marcaria sua vida.

Aos 21 anos, Boban já era considerado um dos melhores jogadores dos Bálcãs. O camisa 10 havia se destacado bastante na conquista do Mundial Sub-20 de 1987 com a seleção, quando anotou um gol na final contra a Alemanha Ocidental e ainda converteu o pênalti que selou o título. Ídolo do Dinamo Zagreb, também fazia aparições pela equipe principal da Iugoslávia, às vésperas de disputar a Copa do Mundo em 1990. E não era a reputação que fez o meia se conter no gramado do Maksimir.

Os jogadores do Estrela Vermelha presentes em campo correram para se proteger nos vestiários. Os atletas do Dinamo Zagreb, por outro lado, permaneceram no gramado. Indignado com a agressão aos torcedores de seu time, Boban partiu para cima dos policiais. Começou a discutir com eles, questionando a postura de só atacarem a torcida local. O meia recebeu duas pancadas com cassetetes e ainda foi xingado como “mais um filho da puta igual a eles”. Ao ver um policial bater em um torcedor caído, o croata perdeu a cabeça de vez e acertou a joelhada que quebrou o nariz do oficial – ironicamente, um bósnio muçulmano. Após a atitude, o jovem craque começou a ser aplaudido e ter seu nome gritado por quem ainda estava no estádio. A situação se apaziguou cerca de uma hora depois do início da briga, quando a segurança se reforçou. Só então o elenco do Estrela Vermelha deixou o Maksimir, em um veículo blindado.

“Aqui estou eu, com a face em público para arriscar minha vida, minha carreira e tudo que a fama pode dar. Tudo por conta de um ideal. De uma causa, a causa croata”, declarou Boban na época, após a voadora. A partir de então, o camisa 10 se transformou em herói nacional para os croatas e símbolo da luta contra as repressões do poder central dos sérvios. A reação do meia custou seu lugar na Copa de 1990, suspenso da seleção da Iugoslávia por seis meses. Apesar disso, voltou às convocações em outubro de 1990 e disputaria mais quatro partidas com os iugoslavos – segundo suas próprias palavras, “a política não devia influenciar nas relações pessoais e ele continuou amigo dos sérvios”. Já em 1991, quando a situação no país se tornava ainda mais tensa, o croata se transferiu ao Milan, passando uma temporada emprestado ao Bari.

O saldo oficial contou 117 policiais feridos, além de 39 torcedores do Estrela Vermelha e 37 do Dinamo, enquanto cerca de 100 ultras acabaram presos. Incrivelmente, nenhuma morte foi registrada. Ainda assim, os números possivelmente são mais amplos, até mesmo pelas proporções que a briga teve no Maksimir – algumas fontes falam em mais de 300 feridos. Os sérvios acusam o próprio partido político croata de deixar pedras e garrafas no estádio aos Bad Blue Boys, além de corroer o alambrado com ácido. Já entre os croatas, há acusações de que o serviço secreto de Belgrado facilitou a briga para enfraquecer o movimento independentista. No fim das contas, o conflito nacionalista foi transmitido pela televisão e recrudesceria os discursos de ambos os lados a partir de então.

A pancadaria ressaltava o caráter que as torcidas organizadas ganhariam meses depois. O líder da Delije montou o Arkan’s Tigers, grupo paramilitar que combateu pelos sérvios e foi responsável por diversos crimes de guerra. Os Bad Blue Boys também integraram o exército croata durante a guerra de independência com a Iugoslávia, a ponto do escudo do clube ser usado como insígnia pelas forças armadas. Na década de 1990, o Dinamo seria rebatizado como ‘Croatia Zagreb’, de fortes ligações com o governo nacionalista e autoritário.

A temporada seguinte do Campeonato Iugoslavo, em 1990/91, seria bastante tumultuada. As brigas entre torcedores se tornaram mais comuns. Num jogo entre Hajduk Split e Partizan Belgrado, em setembro de 1990, torcedores croatas invadiram o campo na tentativa de linchar os jogadores sérvios. Os alvinegros escaparam rumo aos vestiários, enquanto os ultras locais entoavam cânticos nacionalistas e ateavam fogo à bandeira iugoslava, antes de hastearem a croata. Já em 18 de maio de 1991, ocorreria o reencontro entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha no Maksimir.

Outra vez, o Estrela Vermelha viajou para Zagreb com o título garantido. O clima hostil era óbvio nas arquibancadas, mas as tensões não resultaram em novos incidentes como na temporada anterior. Dentro de campo, os sérvios abriram vantagem de dois gols, antes que os croatas virassem o placar e garantissem uma épica vitória por 3 a 2. Entretanto, o resultado havia sido facilitado. Segundo o técnico Ljupko Petrovic, do Estrela Vermelha, havia uma enorme pressão para que o Dinamo ganhasse aquele compromisso. Líder político radical da Croácia e futuro presidente autoritário do país independente, Franjo Tudman estava nas tribunas. A arbitragem teria beneficiado os anfitriões e os próprios sérvios amoleceram a virada para evitar consequências. Pouco mais de uma semana depois, o Estrela Vermelha conquistou a Champions de 1990/91, ao bater o Olympique de Marseille em Bari.

Aquela foi a última edição do Campeonato Iugoslavo que contou com os clubes croatas e eslovenos. Em 19 de maio de 1991, um dia depois do clássico, a Croácia realizou um referendo sobre a independência e a maioria da população votou pela cisão. Já em 25 de junho, o país declarou sua independência unilateral da Iugoslávia, em ato que culminou na guerra que se estendeu até 1995. O sangue continuou a escorrer nos Bálcãs também na Eslovênia, que buscou sua independência no mesmo momento, enquanto os conflitos se tornariam ainda mais violentos com a Guerra da Bósnia (1992-95) e a Guerra do Kosovo (1998-99).

A seleção iugoslava sofreria sanções e perderia sua vaga na Euro 1992. Naquele mesmo ano, a Croácia formou seu time nacional, com Boban entre as referências. Em 1998, quando o país disputou sua primeira Copa do Mundo, o “rapaz da voadora” usou a camisa 10 e a braçadeira de capitão. O meia seria um dos destaques na campanha até as semifinais. O veterano também estaria em campo no primeiro duelo contra a Iugoslávia, em 1999, pelas Eliminatórias da Euro 2000. Com dois empates, a equipe formada por sérvios e montenegrinos acabou se classificando à fase final do torneio continental. Boban seguiria na ativa até 2002, quando se aposentou, após uma bem-sucedida carreira com o Milan. Já em 2004, formaria-se em História na Universidade de Zagreb. Durante os últimos anos, o ex-jogador trabalhou como executivo na Fifa.

“Foi uma injustiça. A polícia não tratou nossos torcedores da mesma maneira. […] Eu era como outros, mas levava o número 10 e por isso se glorificou. Foi um primeiro momento em que o povo croata reagiu para exigir que já não se podia mais, que não se podia viver com um regime. Nenhuma pessoa inteligente pode aceitar. Foi uma reação jovem, rebelde, mas não fomos heróis. A guerra foi tremenda e foi aí onde realmente se arriscou. Mas pelo menos foi uma mensagem de unidade”, declarou Boban, à revista Líbero, anos depois. “Se voltasse no tempo, faria tudo de novo. Estamos falando da liberdade de um povo, é mais que questão pessoal. Tudo isso significava muito mais que minha carreira. Foi um ato jovem, mas do qual sinto orgulho. Esses momentos dificilmente podem ser compreendidos ou julgados se você não os vive”.

Para muita gente, aquele 13 de maio de 1990 marca o verdadeiro início da Guerra da Iugoslávia. O ambiente dentro do Estádio Maksimir expôs os inimigos. E a atitude de policiais e de ultras deu mais motivos aos anseios nacionalistas. Era uma imagem bastante simbólica dos interesses sérvios pela manutenção do poder e do movimento croata pela independência. O futebol catalisava todo o contexto social que se erguia na Croácia, com os clamores de “uma guerra pela pátria-mãe”. O monumento erguido pelos próprios Bad Blue Boys nos arredores do estádio, exaltando os “mártires” que lutaram nas arquibancadas antes de morrerem na guerra, deixa bem evidente a visão sobre aquele dia aos croatas.

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Para complementar a leitura, outra dica é o Podcast ‘Iugoslávia: O chute que iniciou uma guerra’, produzido pela Folha de S. Paulo há alguns meses.