O futebol olímpico não costuma ser valorizado como deveria em suas primeiras edições após a Segunda Guerra Mundial. Se o amadorismo atravancava muitos países que já haviam adotado o profissionalismo décadas antes, ainda assim a competição poderia apresentar esquadrões de outras nações. Foi o que aconteceu em 1948, com a Suécia, ou quatro anos depois, com a Hungria. As Olimpíadas não deixavam de ser uma mostra daquilo que poderia se tornar tendência nos anos seguintes. E, em tempos nos quais os clubes dos países comunistas eram oficialmente amadores, seu grandes craques se destacavam no campeonato olímpico.

Os Jogos de Helsinque, em 1952, consagraram os Mágicos Magiares. Além de amistosos históricos e uma revolução na Copa do Mundo de 1954, o ouro acaba sendo o grande título da geração de Ferenc Puskás. No entanto, havia também uma concorrência pesada pelas medalhas. E o melhor exemplo disso fica exposto pelas oitavas de final, em encontro precoce de Iugoslávia e União Soviética, duas forças da época. Medalha de prata em 1948, os iugoslavos tentavam dar um passo além, com uma geração talentosa. Já os soviéticos viam o embrião de sua seleção eclodir, na estreia da equipe vermelha em uma competição internacional, após anos inativa.

Em tempos de renascimento aos grandes clubes locais, alguns com origem anterior à Segunda Guerra Mundial, a Iugoslávia tinha a sua base formada por croatas. Dos 11 titulares, sete eram croatas, além de quatro com outras origens étnicas – entre estes, o sérvio Vujadin Boskov, ponta direita talentoso; o sérvio Rajko Mitic, atacante que marcou tanta época no Estrela Vermelha que hoje dá nome ao estádio do clube; e o bósnio Branko Stankovic, conhecido como ‘Embaixador’, defensor de muita imponência. De qualquer maneira, a maioria dos protagonistas daquele time era croata.

A começar pelo goleiro Vladimir Beara, “o bailarino com mãos de aço”, considerado pelo próprio Lev Yashin como melhor do mundo. Mais à frente, Zlatko Cajkovski se impunha pelo físico, mas também pela inteligência e pela técnica acima da média para um defensor. Na contenção, Ivica Horvat, capitão da seleção e grande emblema do Dínamo Zagreb. Pela esquerda, Branko Zebec era um canhoto versátil, que podia jogar como lateral ou ponta, dono de um preparo físico impressionante e também com capacidade para contribuir ao ataque. Stjepan Bobek servia de armador ao time, dono de uma visão de jogo invejável e de muita habilidade, a ponto de Ferenc Puskás dizer que sua técnica com a bola era “inigualável” e que tentava copiá-lo. Por fim, outro nome digno de nota era o de Bernard Vukas, ponta com faro de gol e dribles estonteantes, eleito em 2000 o melhor jogador croata do século.

A União Soviética, por sua vez, baseava-se no futebol de Moscou. Dos 15 jogadores que entraram em campo ao longo do torneio, apenas quatro não eram dos clubes moscovitas – dois deles, georgianos, os únicos do grupo que não nasceram na Rússia. A convocação levou em conta o momento do futebol local, já que a seleção acabara de ser formada. As partidas nas Olimpíadas de Helsinque foram as primeiras da União Soviética desde a década de 1930, servindo como passos iniciais à equipe nacional. Alguns atletas, de qualquer maneira, aproveitaram a oportunidade para se firmar rumo às competições seguintes.

A defesa contava com Anatoli Bashashkin, jogador que combinava habilidade e força física, importante na conquista do ouro olímpico quatro anos depois. Um dos grandes ídolos do Spartak Moscou e herói em outras participações soviéticas, Anatoli Ilyin despontava como um jovem talento. O meio tinha a influência de Igor Netto, jogador de muito dinamismo e versatilidade, que ajudava na contenção, mas tinha sua mentalidade ofensiva e, principalmente, sua liderança. Não à toa, eternizou-se como capitão da URSS que conquistou a Euro em 1960. Já estrelando a equipe, uma lenda de múltiplas facetas: Vsevolod Bobrov, dono da braçadeira na ocasião. O atacante era venerado no CSKA Moscou e foi artilheiro do Campeonato Soviético por duas vezes. Mas sua capacidade atlética permitia que, acima de um grande futebolista, fosse um dos melhores da história do hóquei sobre o gelo. Não à toa, foi considerado o terceiro maior esportista russo no Século XX, atrás de Lev Yashin e do lutador Alexander Karelin. De tão lendário, hoje dá o nome a uma das divisões da KHL, a liga local de hóquei no gelo.

Soviéticos e iugoslavos tiveram inícios diferentes no torneio olímpico de futebol em 1952. Nos 16-avos de final, a Iugoslávia não teve problemas para avançar, ao ser beneficiada pelo sorteio. Pegou a Índia e goleou por 10 a 1, com destaque aos quatro gols de Branko Zebec. Já a União Soviética suou um pouco mais, dependendo da prorrogação para superar a Bulgária por 2 a 1. Então, viria o duelo pelas oitavas de final. Um confronto que ganhou conotações muito além das quatro linhas.

Desde o final da década anterior, soviéticos e iugoslavos haviam rompido relações. O orgulho nacional de Josip Broz Tito pesou e ele não aceitou fazer de seu país um mero satélite da URSS, peitando Joseph Stalin. Outras questões, como a posse iugoslava de territórios italianos em litígio e a Guerra Civil Grega, colocaram os dois estadistas de lados opostos. Em 1948, uma troca de cartas, escancarando o conflito ideológico e aludindo aos feitos militares na Segunda Guerra Mundial, acabou por marcar a cisão. Não à toa, antes da partida na Finlândia, tanto a seleção da Iugoslávia quanto a seleção da União Soviética receberam telegramas assinados por Tito e Stalin.

Havia mesmo o rumor de que os jogadores não poderiam se cumprimentar na entrada em campo. Alexander Shelepin, líder da juventude comunista e futuro chefe da KGB, foi quem visitou o vestiário da União Soviética para instruir os jogadores. Em sua biografia, o goleiro Leonid Ivanov escreveu: “Ninguém falava sobre táticas ou futebol, apenas sobre política. Era como se estivéssemos prestes a batalhar, não a jogar futebol. Ouvi de meus companheiros que éramos gladiadores, que o jogo se tornava questão de vida ou morte”. Um sentimento compartilhado entre os iugoslavos, como relembrou o goleiro Vladimir Beara: “Sabíamos que todo o país nos aguardava, havia uma tensão. Eram várias cartas que chegavam do país. Nós nos encorajamos, sabíamos que isso não era necessário”. Antes da entrada em campo, Zlatko Cajkovski afirmou: “Para as pessoas no país, ou nos tornamos heróis, ou nos tornamos covardes”. Dois times de qualidade prestes a jogar por seus futuros, sem saber o que aconteceria diante da derrota.

O tenso jogo aconteceu no Estádio Ratina, em Tampere, diante de 17 mil torcedores. Nas arquibancadas, líderes comunistas finlandeses apareciam com a camisa vermelha da União Soviética. Durante o primeiro tempo, a Iugoslávia parecia pronta a um passeio. Mitic, Ognjanov e Zebec anotaram três gols aos balcânicos, que significava enorme alívio. Do outro lado, na saída aos vestiários, o clima de temor tomou os soviéticos. O goleiro Ivanov chegou a chorar, em meio aos gritos da comissão técnica para pressionar os jogadores, temerosas das represálias durante o retorno para casa. Seria o capitão Bobrov quem tomou as rédeas e levantaria o moral de seus companheiros para a segunda etapa. Não que tenha adiantado muito, de imediato. Logo na volta do intervalo, Bobek fez o quarto. E quando Bobrov descontou, Zebec anotaria o quinto.

O relógio passava e os 5 a 1 se estenderam até os 30 minutos do segundo tempo, quando uma reação soviética parecia impossível. Só parecia. “Um medo terrível nos tomou. Eu sequer sabia como, mas começamos a jogar loucamente. Sentimos que os iugoslavos estavam sucumbindo. Jogamos acima de nossas forças, de nossas capacidades e de nosso conhecimento”, relatou Igor Netto. Trofimov anotou o segundo neste momento, aos 30. Bobrov, impossível de ser marcado, fez o terceiro e o quarto. O relógio apontava 42 e a pressão da URSS era incessante. Até que Petrov se tornasse o herói, decretando o empate por 5 a 5, restando um minuto para o fim.

“Houve um eclipse. Caímos totalmente. Não sei como aconteceu, estávamos relaxados, abatidos, mortos. Eu acho que aconteceu de tudo um pouco, mas não podíamos reagir. Talvez fosse mais fácil para a gente se a goleada não fosse tão grande, não nos desligaríamos tanto. O que dizer diante do que aconteceu?”, refletiu Bobek, tempos depois, sobre a postura da Iugoslávia.

Ainda haveria uma prorrogação a se disputar. Os dois times estavam completamente exaustos, o que quebrou o ritmo do jogaço. Ainda assim, os soviéticos ficaram mais próximos da virada. Nos últimos instantes do tempo extra, um chute passou pelo goleiro Beara e tomou o caminho das redes iugoslavas, mas o árbitro apitou o fim da partida antes do desfecho da jogada. “Quando vi a bola indo em direção ao gol, não podia falar uma palavra. Perdi a voz”, declarou Radivoje Markovic, radialista de Belgrado que cobria o duelo.

“Tampere entrou para o hall da fama do futebol. No primeiro tempo, a Iugoslávia jogou uma partida perfeita, tudo correu como planejado. Um comentarista da rádio de Estocolmo descreveu a Iugoslávia como uma demonstração virtuosa de habilidade no futebol, algo grandioso, memorável. Mas no segundo tempo, faltou sorte”, analisou o jornal iugoslavo Narodni, na época, minimizando o que fizeram os soviéticos.

O reencontro de ambas as equipes aconteceu dois dias depois, na mesma cidade de Tampere. Bobrov voltou a causar o pavor nos iugoslavos, ao abrir o placar. No entanto, com meia hora de jogo, Mitic e Bobek já tinham virado. Durante o segundo tempo, coube a Cajkovski decretar a vitória por 3 a 1, garantindo os iugoslavos nas quartas de final. “Nunca senti um alívio tão grande em minha vida. Estávamos todos aliviados, por nós mesmos, mas também pelas pessoas que esperavam nosso triunfo”, apontou Bobek. Na sequência da competição, os iugoslavos ainda fariam um 5 a 3 contra a Dinamarca e derrotariam a Alemanha por 3 a 1. Não resistiram à Hungria na final, com a vitória por 2 a 0, gols de Puskás e Czibor.

O preço maior da derrota em Tampere seria pago pelo CSKA Moscou. O clube do exército era a base da seleção e ficou marcado pelo revés. Como punição, o estado soviético dissolveu o departamento de futebol clube e a direção foi convocada para prestar esclarecimentos ao Comitê de Esportes da URSS. Os resultados da equipe no Campeonato Soviético de 1952 foram anulados e os jogadores terminariam se transferindo, redistribuídos aos outros times dos país. A retomada das atividades aconteceu de maneira paulatina, a partir de 1953. “Éramos reféns de uma situação, em um período tenso”, avaliou Bobrov, tempos depois. O craque faria apenas mais algumas partidas pelo Spartak Moscou depois disso, sem prosperar nos gramados. Dedicou-se totalmente ao hóquei, campeão olímpico nos Jogos de Inverno de 1956. Enfim, reconhecido como o herói nacional que era.

As duas seleções, de qualquer maneira, dariam seus frutos. Três jogadores da União Soviética participaram da conquista do ouro em Melbourne, durante as Olimpíadas de 1956, enquanto Igor Netto simbolizou uma geração vitoriosa ao país. Já a Iugoslávia se manteve com um time forte, vice dos soviéticos em 1956 e também na Euro 1960, além de chegar aos mata-matas da Copa do Mundo em 1954, 1958 e 1962. Daquele timaço que superou a URSS, alguns jogadores importantes completariam o final de suas carreiras na Europa Ocidental. Depois da aposentadoria, se tornariam técnicos que marcaram época nas grandes ligas, como Boskov, Zebec e Cajkovski. Um dos maiores legados do esquadrão que venceu também as ameaças.


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