Nenhum sobrenome tem tanto a cara do Brasil quanto “Silva”. Mas o Silva dessa história não tem nada de brasileiro. Nasceu em Milão, filho da família dona da Italsilva, uma das maiores indústrias químicas da Itália. Mas os rumos profissionais levaram Riccardo Silva a chegar à América Latina. E, agora, ele tem um plano para mudar a cara do futebol de todo o continente, do Alasca à Terra do Fogo. O que poderia reformular a Copa Libertadores a ponto de ela se tornar algo que ninguém a reconheceria.

Essa história atravessa o mundo. O primeiro capítulo foi na Itália, onde Silva entrou na onda da primeira explosão de negócios da internet. Em 1998, criou a MP Web, empresa que provia conteúdo em vídeo de futebol. Vendeu a empresa, trabalhou como agente de celebridades italianas e assumiu o Milan Channel. O conhecimento desse mercado fez que, ao lado de Andrea Radrizzani, fundasse a MP & Silva. A empresa, com sede em Cingapura, trabalharia com a negociação de direitos de transmissão de eventos esportivos.

Durante anos, a MP & Silva ficou à margem do noticiário brasileiro. A empresa dos italianos tem um portfólio gigantesco, mas trabalhava mais no mercado asiático e europeu. Mas, aos poucos, Riccardo Silva foi atravessando o Oceano Atlântico para chegar às Américas. A ponte era natural, pois a maior parte dos torneios que vendia à Ásia eram latino-americanos (Copa América, Eliminatórias da Copa, Libertadores, Sul-Americana, amistosos do Brasil e da Argentina, Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil, entre outros).

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Ainda assim, o mercado de transmissão de direitos do futebol latino-americano era dominado pela brasileira Traffic e a argentina Torneos y Competencias. Até que o FBI quebrasse essa estrutura, investigando líderes das duas empresas, além de prender diversos cartolas da Concacaf e da Conmebol.

Pode ser coincidência, mas a MP & Silva começou a ganhar espaço. Em parceria com o ex-defensor Paolo Maldini, Riccardo Silva será dono do Miami novo time da NASL, segunda principal liga profissional dos Estados Unidos. Agora, a nova investida é mais ousada: aproveitar o embalo da Copa América Centenário, que unificará Concacaf e Conmebol, para criar a Americas Champions League.

A primeira notícia sobre a ideia de criar um torneio pan-americano de clubes é de julho, mas começa a parecer cada vez mais séria. Em entrevista ao site Sports Business Daily, Silva apresenta números sobre o que representaria o projeto. “As Américas têm uma população combinada 30% maior que a Europa. Um torneio dessa escala pode valer mais de US$ 500 milhões em direitos de TV e de marketing, enquanto que os torneios da Concacaf e da Conmebol, somados, valem hoje apenas US$ 100 milhões.

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O sistema de disputa seria simples, com 64 clubes divididos em uma fase de grupos, com chaves regionais nas etapas iniciais, jogos em meio de semana e início em fevereiro. Segundo Silva, cada time poderia receber um mínimo de US$ 5 milhões, com prêmios que cresceriam gradualmente de acordo com o avanço da equipe, chegando a US$ 30 milhões para o vencedor. No total, US$ 440 milhões seriam distribuídos para os clubes.

Mais que os números, são os nomes envolvidos que chamam a atenção. O empresário disse ter feito consulta com vários clubes brasileiros, mencionando Corinthians e Flamengo como exemplos, e teria recebido sinal verde. O próximo passo seria conversar com equipes de EUA e México, e contaria com Paul Tagliabue (ex-chefão da NL) como consultor.

Se o projeto der certo, a MP & Silva estaria dando o passo definitivo para ocupar o espaço que o FBI deixou vago de principal empresa de marketing esportivo das Américas. E o italiano que começou com uma empresa para vídeos na internet se tornaria o herdeiro de J. Hawilla.

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