Desilusão. Talvez não exista melhor palavra para definir o que foi a reta final desta Série B para o Internacional. Os colorados se colocaram entre os virtuais promovidos há rodadas. Passaram semanas aguardando o jogo do acesso. E ele não vinha de jeito nenhum. Desde a derrota para o Ceará no Beira-Rio, a equipe acumulou uma série de empates, suficiente para fazer desmoronar o moral de qualquer time. Capaz de derrubar técnico, quando o acesso estava ali, já no alcance dos dedos. E o fim da jornada não poderia ser mais emblemático: o empate por 0 a 0 com o Oeste fora de casa, num estádio vazio, com direito a gol perdido incrível nos últimos instantes. Melancolia que só corrobora a falta de qualquer empolgação da torcida no momento que deveria marcar o ressurgimento do clube.

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Não, eu não vou cair na besteira de falar que a Série B “faz bem” a qualquer grande, por praticamente forçar uma reformulação pensando no reerguimento. A mudança pode ser feita a qualquer momento, desde que exista uma diretoria apta para isso. Não é preciso cair e provocar aquilo que é considerado uma “vergonha” para a maioria absoluta dos times brasileiros. Sobretudo ao Inter, que acabou privado de um orgulho e dando um motivo de chacota aos rivais, justamente em meses tão resplandecentes na outra metade do Rio Grande do Sul. Mas, ok, a Segundona não deixa de ser o momento para repensar muita coisa. E o que fica no Beira-Rio?

A Série B não deve ser tratada como barbada. É um torneio difícil, com jogos duros e viagens desgastantes. De qualquer maneira, pelo nível de investimento, esperava-se muito mais do Internacional. Esperava-se justamente que os colorados escapassem desta peleia vista a cada partida nas divisões de acesso e exibissem algo diferente dentro de campo. Um futebol mais bem trabalhado, que pudesse talhar o elenco na volta à elite. Mas nem isso. O Inter precisou de brio para se recuperar de uma campanha que não começou boa. Precisou brigar consigo mesmo para engrenar no campeonato. Pelo nível de investimento altíssimo, em uma competição tão equilibrada, era provável que o acesso saísse – quase que por osmose, diante da disparidade em relação aos concorrentes. Uma obrigação que, no fim das contas, termina bastante indigesta.

O Internacional zanzou entre treinadores em meses que precisava de um norte. E a escolha de Guto Ferreira, apontado para levantar o time à unha, serviu para colocar os colorados no caminho do acesso, mas não necessariamente ofereceu a sequência desejada. Saiu antes da hora, dando a impressão de que o clima não estava dos melhores, até mesmo pelas declarações em suas últimas coletivas. O elenco é caro e amplo, com quase 40 jogadores utilizados ao longo da campanha. Alguns com capacidade de se desenvolver, mas não que o clube tenha aproveitado o momento para lançar uma nova fornada de talentos. Muitos dos componentes do grupo sequer são novatos, e alguns não causaram o impacto que se esperava. A impressão é a de que muita coisa ainda deverá se passar até que o time reestreie na Série A em 2018.

De um início preocupante na Série B, o Inter pegou embalo e emendou uma boa série de vitórias a partir de julho. Conseguiu se acertar na defesa e passou a se impor com a frequência que se pedia. Muitas vitórias ainda foram apertadas, mas havia uma mudança de postura, especialmente pelas alterações feitas na equipe titular – com os acréscimos bem-vindos de Leandro Damião e Camilo. Havia uma guinada, capaz de dissipar os piores pensamentos que rondavam a mente dos torcedores mais descrentes. Mas nada tão animador assim.

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Afinal, o castelo de cartas se desmontou parcialmente em outubro. Deixou este anticlímax tremendo durante a conquista do acesso, que sequer deve render título. Há o que comemorar? Se houver, a festa será tímida. Não deixa de ser um enorme alívio. Mas a cabeça dos colorados já carrega a preocupação sobre como será a sequência dos meses, diante de uma travessia no deserto que se arrastou ao longo de 2017. Sobre um momento de superioridade clara diante da concorrência que não se aproveitou para tentar construir algo mais duradouro. Sobre outro ano que promete ser duro, para que o time consiga ser competitivo logo de cara na Série A.

O ponto é esse: se não existe “legado” da Série B, que fiquem as lições sobre os erros. O problema é esperar que algo mude de maneira radical, quando os exemplos recentes não são lá os mais promissores. O primeiro passo está na escolha de um novo treinador. E qual o perfil buscado pelo Internacional? Há algo novo a se explorar ou melhor ficar no mais do mesmo, naquilo que deu certo em outros verões? Os jogadores que agradaram em 2017 irão se encaixar na nova filosofia? É este tipo de direção que sequer se sente depois de uma Segundona tão árida. Sem partidas que enchessem os olhos, sem um futebol que respeitasse a história ou a tradição do Inter, sem um novo ídolo ao qual os colorados pudessem se agarrar – como um messias rumo à terra prometida.

Andrés D’Alessandro, sempre ele, continua como o profeta que oferece um alento aos corações de seus fiéis seguidores. É o toque de qualidade dentro de campo, contribuindo com gols, assistências, dribles e passes de qualidade. Mas, acima de tudo, é o cara que não se esconde diante das responsabilidades. Que concentra em si o ímpeto e a vontade que se espera da equipe. O líder, que voltou para reerguer os colorados rumo à Série A. Cumpriu a missão e ganhou ainda mais consideração com boa parte dos torcedores. Mas todos sabem que o tempo se esvai ao velho craque. Permanecerá por alguns meses, e para quem passará seu cajado?

Por fim, a impressão é que faltou ao Inter colocar os pés no chão e sentir a Série B como um todo. Tratar a competição não do alto de sua superioridade inegável, mas como meses necessários para se desenvolver um trabalho. Coletivamente, o que seguirá sendo aplicado no Beira-Rio? Não há uma noção do tipo. O que resta é basicamente uma avaliação individual, entre quem se saiu bem e quem se saiu mal. Quem continuará servindo para que o clube reencontre o seu caminho na próxima temporada. E a exigência será grande, até pela pressão imposta do outro lado da rivalidade.

A única certeza? A torcida, que continuou indo em bom número ao Beira-Rio, apesar de todas as dificuldades. Que, mesmo quando maltratada pela falta de futebol, é quem serve de guardiã à identidade do clube. E que perseverará, independentemente do que aconteça, até a chegada de dias melhores. É quem faz crer, mas também faz cobrar. Que sustenta a verdadeira grandeza, ainda que isso não se reflita necessariamente em campo. São esses caras que superaram todo o sofrimento, que lidarão com o desgosto de não conquistar a Série B e que manterão as esperanças, quando os motivos para isso são escassos.