O Slavia Praga retornou à Liga dos Campeões com uma atuação muito acima das expectativas. Os tchecos arrancaram o empate por 1 a 1 na visita à Internazionale, mas o time até merecia sorte melhor no San Siro. Os alvirrubros saíram em vantagem no placar, criaram ocasiões para fazer mais e foram prejudicados pela arbitragem, embora também tenham sido ajudados pelas boas defesas de seu goleiro. E o resultado ajuda a recontar a história de um dos clubes mais importantes de seu país, que experimenta novamente a noção de grandeza na Champions.

A história do Slavia Praga é particular. O clube, afinal, se colocou como uma potência continental antes mesmo do advento da Champions. Criada durante o Império Austro-Húngaro, a agremiação não demorou a se tornar uma das mais importantes da Europa Central, graças ao intercâmbio tático realizado com os países britânicos, através da figura vanguardista do técnico escocês Jake Madden. Já durante os primórdios do Campeonato Tchecoslovaco, o Slavia competia palmo a palmo com o Sparta Praga pela hegemonia no país. De 1925 a 1947, os alvirrubros conquistaram 13 títulos nacionais, contra nove dos grandes rivais. Além disso, em 1938 levaram a Copa Mitropa, principal competição de clubes da Europa naquela época. Tempos em que jogadores lendários como Josef Bican, Frantisek Planicka e Antonín Puc vestiam a camisa da equipe. Em 1934, a seleção tchecoslovaca vice-campeã do mundo tinha 12 jogadores cedidos pelo clube.

A derrocada do Slavia no Campeonato Tchecoslovaco aconteceu a partir da segunda metade dos anos 1940. Ao final da Segunda Guerra Mundial, o estádio dos alvirrubros foi incendiado por soldados nazistas, transformando em cinzas também arquivos e troféus. O clube até foi campeão pouco depois, mas a situação se tornaria ainda mais difícil a partir de 1948, quando o regime comunista foi instaurado no país. Assim como ocorreu em diversos países da Cortina de Ferro, o Slavia foi desmantelado por ter “origens burguesas” e terminou refundado. Sem ter sua história preservada ou sem contar com um patrocínio estatal forte, o rebatizado Dynamo Praga se afundou. Perdeu seu estádio, viu sete jogadores debandarem ao Dukla Praga (o odiado time do exército) e amargou a segunda divisão. A reconstrução só viria nos anos 1960.

A participação dos torcedores do Slavia Praga foi importante para recuperar o clube. Não apenas organizaram eventos beneficentes para evitar os riscos de falência, como também conseguiram que o nome original fosse resgatado em 1964. A partir do apoio de uma associação de torcedores, os alvirrubros retornaram à primeira divisão e nunca mais caíram. Ainda não tinham forças para competir com as outras potências nacionais, sem passar da terceira colocação no Campeonato Tchecoslovaco até os anos 1980. Ainda assim, o reerguimento era evidente. E ele terminou impulsionado em 1973, quando a companhia estatal de construção civil passou a apadrinhar a agremiação.

O Slavia Praga não chegou a disputar a Champions nos tempos de Tchecoslováquia, mas participou das outras competições europeias. De 1968 a 1993, foram sete aparições continentais, seis delas na Copa da Uefa e uma na Recopa Europeia, mas com campanhas de pouca relevância. A grande glória foi mesmo conquistar a Copa da Tchecoslováquia em 1974. Foi só depois da Revolução de Veludo, que resultou no fim do regime comunista e pouco depois no desmembramento do país, que os alvirrubros retomaram a importância da primeira metade do século. Aproveitando o tamanho de sua torcida, o Slavia realmente renasceu.

Foi na última edição do Campeonato Tchecoslovaco que, depois de 45 anos, o Slavia Praga voltou a ser ao menos vice-campeão. Possuía o apoio de um empresário local e, diante da mudança de estrutura nos demais times com apoio de empresas públicas, desfrutou de uma estabilidade maior. Com apostas em jovens jogadores, os alvirrubros voltaram a almejar o título nacional. Depois de três vices consecutivos para o Sparta, a taça veio em 1995/96. Era um elenco de muita qualidade que, além de brilhar no Campeonato Tcheco, ainda rendeu frutos na Euro 1996. O Slavia era uma das bases da República Tcheca que chegou à final continental. Cinco jogadores despontavam no clube, entre eles Karel Poborsky e Vladimir Smicer.

Também naquela temporada de 1995/96, o Slavia Praga chegou às semifinais da Copa da Uefa. Eliminou Sturm Graz, Freiburg e Lugano graças às vitórias que conquistou fora de casa. Nas oitavas de final, superou o Lens. Já nas quartas, a vítima foi a Roma, com direito a um golaço de Poborsky cobrando falta. A queda aconteceu apenas diante do Bordeaux de Zinedine Zidane, com duas vitórias dos franceses nas semifinais. Já na temporada seguinte, os alvirrubros puderam finalmente estrear na Champions League. Só não foi um bom começo. Encarando o Grasshopper na primeira fase, os tchecos sentiram as saídas de seus destaques – incluindo quatro dos presentes na Eurocopa. Estrelados por Kubilay Türkyilmaz, os suíços venceram os dois jogos, incluindo uma goleada por 5 a 0 na ida.

A partir da virada do século, o Slavia Praga passou a ser administrado por uma companhia britânica, mas isso não resultou em uma hegemonia nacional. Os alvirrubros precisaram se contentar com as competições secundárias da Uefa, incluindo algumas boas aparições. Regido pelo meia Pavel Horváth, o time alcançou as quartas de final da Recopa em 1997/98 e também chegou às quartas de final da Copa da Uefa em 1999/00. Já os vice-campeonatos nacionais permitiram a reaparição em quatro edições da Champions entre 2000 e 2005, sem que os tchecos superassem as preliminares.

O novo ápice do Slavia aconteceu a partir de 2007/08. Depois de 12 anos, o clube reconquistou o Campeonato Tcheco. Conseguiu até emendar o bi, o que não acontecia desde a década de 1940. E o time competitivo também registrou o seu sucesso na Champions, ao finalmente alcançar a fase de grupos. O veterano Vladimir Smicer estava de volta à sua casa. Além disso, o Slavia estava recheado de promessas, incluindo jogadores que chegaram à seleção, como Marek Suchy, Dusan Svento, Daniel Pudil e Tomás Necid. No comando, Karel Jarolím assumiria a República Tcheca anos depois.

Como vice-campeão tcheco, o Slavia Praga causou impacto na Champions 2007/08. O grande feito aconteceu contra o Ajax, durante a última fase preliminar. Na época, os Godenzonen contavam com Luis Suárez, Jaap Stam, Klaas-Jan Huntelaar, Thomas Vermaelen e Maarten Stekelenburg. Os tchecos venceram a partida de ida por 1 a 0, dentro da Amsterdam Arena, e ganharam também em Praga, por 2 a 1, graças à ótima atuação do goleiro Martin Vaniak. A imposição valeu uma vaga na etapa principal da LC, na qual o Slavia encarou Arsenal, Sevilla e Steaua Bucareste em sua chave.

A única vitória do Slavia Praga naquela campanha aconteceu na estreia, contra o Steaua, com o placar de 2 a 1. Os tchecos empataram o reencontro na Romênia, enquanto perderam os dois jogos contra o Sevilla. O resultado mais surpreendente, por sua vez, aconteceu com o empate por 0 a 0 contra o Arsenal em Praga. Surpreendente sobretudo porque, duas semanas antes, os Gunners haviam enfiado 7 a 0 no Estádio Emirates, com dois gols de Cesc Fàbregas e outros dois de Theo Walcott. Os alvirrubros ao menos terminaram na terceira colocação e foram repescados à Copa da Uefa. Caíram para o Tottenham, mas em derrotas apertadas.

Como campeão tcheco, o Slavia Praga não resistiu à Fiorentina logo no primeiro compromisso pelas eliminatórias da Champions 2008/09. Desde então, o clube voltou a se acostumar com desempenhos mais modestos, após uma nova mudança de donos e uma série de problemas financeiros. Até 2010, o time registraria outras duas campanhas na fase de grupos da Liga Europa. Depois disso, a incerteza incluiu débitos milionários, vendas de jogadores, atrasos de salários, boicote dos torcedores e a inevitável derrocada na tabela. O fundo do poço se aproximou em 2015, com sérios riscos de falência, até que a chegada de uma companhia chinesa de energia aliviasse as finanças. O clube se recuperou e, em 2016/17, retornou às competições continentais. Na montanha-russa tão recorrente em sua história, os alvirrubros voltaram ao topo durante as últimas três temporadas.

A conquista do Campeonato Tcheco em 2016/17 significou o fim de um novo jejum que durava nove anos. O Slavia chegou à última fase preliminar da Champions 2017/18 e participou da fase de grupos da Liga Europa na sequência, sem avançar aos mata-matas. Por fim, a temporada de 2018/19 marcou um dos períodos mais prodigiosos dos alvirrubros nas últimas décadas. Desta vez a seca no Campeonato Tcheco não durou tanto, com o segundo título em três anos. Já na Liga Europa, o clube se impôs como a grande surpresa. Depois da queda para o Dynamo Kiev nas preliminares da Champions, a equipe se classificou na competição secundária em difícil grupo contra Zenit, Copenhague e Bordeaux. Goleou o Genk nos 16-avos de final, conquistou um milagre diante do Sevilla nas oitavas e sonhou em derrubar até o Chelsea nas quartas, dificultando demais aos Blues na derrota por 4 a 3 em Stamford Bridge.

Durante a temporada passada, o Slavia Praga ainda mudou de mãos mais uma vez. Em fevereiro de 2018, o antigo dono foi preso por crime econômico na China e, depois de passar brevemente pelo CITIC Group, os alvirrubros chegaram às mãos do Sinobo Group em novembro. A nova companhia chinesa possui negócios principalmente imobiliários e também é dona do Beijing Guoan. A troca recente não atrapalhou os resultados, ao menos. Resiste a expectativa de que os tchecos possam emendar um período mais estável. Uma boa campanha na Champions representaria um impulso.

É verdade que a situação nas preliminares ajudou o Slavia Praga nesta Champions. O time precisou apenas vencer os dois jogos contra o Cluj para se colocar na fase de grupos. E que o sorteio tenha provocado risos nervosos de seus dirigentes, os alvirrubros indicam que podem roubar pontos e ter um desempenho digno. Há uma equipe com uma rodagem razoável e que possui um estilo de jogo bastante consistente. O nigeriano Peter Olayinka foi o herói contra a Inter, mas outros atletas merecem destaque, com menções principais ao bom volante Tomas Soucek e ao já tarimbado meia Nicolae Stanciu.

O Slavia Praga não se livra do risco de tomar goleadas nesta Champions League. O clube encara três adversários com orçamentos bem mais altos, jogadores muito mais badalados e que tendem a ser ajudados pela arbitragem. Ainda assim, existe uma consistência que pode tornar os bons resultados frequentes. Quem sabe, para que os alvirrubros batam cartão na fase de grupos ao longo dos próximos anos e se livrem das ingerências entre seus diferentes donos. O projeto atual já deu sinais de sua força – bem mais condizente à tradição que a estrela vermelha no peito representa, desde os seus primórdios.