Até janeiro de 2017, Hans Hateboer vestia a camisa do Groningen. Jovem e com muita potência física, dominava a lateral direita do clube alviverde, mas sua repercussão não ia muito além. A Atalanta pagou €1 milhão para tirá-lo da Eredivisie e levá-lo à Serie A. Um negócio abaixo do radar que, três anos depois, parece uma pechincha. Aos 26 anos, o neerlandês é primordial ao funcionamento da equipe de Gian Piero Gasperini. Faz um trabalho excepcional nas alas, acompanhado por Robin Gosens. E, justo na primeira partida da história dos Orobici nos mata-matas da Champions, Hateboer roubou a cena. Anotou dois gols e esteve entre os destaques na goleada por 4 a 1 sobre o Valencia, que mostra o tamanho deste time da Dea ao resto da Europa.

A dinâmica do futebol muda com o tempo. E o Liverpool indica uma tendência de como os laterais podem se tornar o centro de gravidade de um time, providenciando as principais jogadas. De maneira paralela, mas com diferenças marcantes, a Atalanta também depende do que acontece nas alas. O encaixe da equipe se aproveita das características desses jogadores, sobretudo para que o ataque seja tão avassalador.

Hateboer e Gosens não são os atletas típicos da posição, que assessoram o atacante mais à frente e providenciam os cruzamentos. Para Gasperini, seus alas funcionam como elementos para abrir as defesas adversárias e também se somar na área para as conclusões. Hateboer e Gosens são dois motores, com capacidade física e uma leitura tática apurada. Sabem construir o jogo, mas sobretudo exploram a velocidade e “atacam o corredor” sem a bola. A partir de muitas das subidas de ambos (por vezes juntos), outras peças da engrenagem aproveitam os espaços.

Gosens até faz uma temporada mais consistente na esquerda. O alemão nascido na fronteira com os Países Baixos iniciou sua carreira na própria Eredivisie. Chegou à Itália seis meses depois de Hateboer, em julho de 2017, e até custou menos: a Atalanta pagou €900 mil ao Heracles Almelo. Adaptado rapidamente ao time, atingiu ao seu ápice em 2019/20. O ala soma oito gols e cinco assistências nas diferentes competições da temporada. Vai tão bem que começou a ser ventilado nas convocações da seleção alemã.

Pela direita, Hateboer disputa sua terceira temporada como titular. Ganhou a posição após a venda de Andrea Conti ao Milan e fez a torcida se esquecer rapidamente do antigo xodó. Em 2018/19, o neerlandês já tinha se colocado entre os grandes responsáveis pela classificação da Atalanta à Champions League, com cinco gols e cinco assistências na Serie A. E que ainda não tivesse marcado gols nesta temporada, os tentos vieram no momento certo: na Champions, para evidenciá-lo em um dos momentos mais importantes da história da Dea.

O primeiro gol é um retrato do trabalho que Hateboer realiza no time. Quando Papu Gómez preparou a jogada pela esquerda e o efetuou cruzamento, o ala direito já aparecia dentro da área como um atacante extra. Esticou-se e desviou a bola para dentro das redes. Seguiu preenchendo toda a lateral com muito vigor. Isso até ser premiado com mais um tento, o quarto da equipe, no segundo tempo. Pasalic lançou e Hateboer disparou. Invadiu a área em ótimas condições e, mesmo sem finalizar da melhor forma, venceu o goleiro Jaume Domènech.

Se os volantes que atuam “de área a área” são muito valorizados, Hateboer e Gosens representam um outro tipo de jogador que transita de uma ponta a outra do campo. Ajudam a fechar os lados no sistema defensivo, mas também possuem carta branca para avançar e pisar na área. Graças à função da dupla, os homens de frente podem centralizar e não se preocupar tanto em abrir à ponta. Assim, todos sobrecarregam a linha defensiva adversária e explicam o altíssimo número de gols da Atalanta. Além do mais, a própria intensidade dos alas contribui à pressão exercida pelo time na marcação, garantindo roubadas no campo ofensivo e facilitando os contragolpes em velocidade.

Hateboer e Gosens seguem como coadjuvantes de outros companheiros mais habilidosos. Eles trabalham para que Papu Gómez, Josip Ilicic e os homens de frente sejam tão efetivos. No entanto, uma noite como esta de Champions serve para evidenciar o que também é essencial além dos principais protagonistas. Os alas são igualmente vitais. À sua maneira, Gasperini realiza uma leitura do que é a evolução no futebol. E, a muitos clubes de baixo orçamento, a Atalanta representa um exemplo como máxima fronteira.