Na semana passada, constava aqui que a Holanda teria mais em jogo do que parecia, em suas duas partidas pelas eliminatórias da Euro 2016. Afinal de contas, a péssima impressão deixada na estreia contra a República Tcheca precisava ser apagada. Não foi. Sem rodeios: se a Oranje tinha algo em jogo, perdeu. Não completamente: afinal, ganhou do Cazaquistão, a fase de qualificação ainda está no começo etc. Mas a equipe perdeu mais confiança ainda: incorreu em outro erro no estilo de jogo, atuou mal nas duas partidas e recebeu críticas ainda mais ácidas de torcida e imprensa.

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Críticas merecidas. Se não foi medrosa como na estreia, a seleção exibiu atuações estéreis contra Cazaquistão e Islândia. Os dois oponentes jogaram como queriam. Não que fossem ofensivos ao extremo, longe disso. Mas impuseram seus estilos durante as partidas. Os cazaques conseguiram um gol precoce em Amsterdã, numa cabeçada do zagueiro Rinat Abdulin – melhor da equipe no jogo -, e depois impuseram um esquema defensivo, muito bem armado. Até sete jogadores ficavam atrás da linha da bola, em frente da área. Não ousavam ir ao ataque, mas impediam ofensivas holandesas.

A Islândia fez ainda melhor, motivada que estava pela boa fase. Não só repetiu a dose dos cazaques no quesito defensivo (a Holanda teve apenas uma chance de gol digna do nome), mas foi bem mais eficiente e rápida no ataque. Não foram raras as vezes em que o time chegou perto do gol de Cillessen, com poucos toques, em contragolpes velozes. Aí, o mérito vai para os jogadores. Birkir Bjarnason era o desafogo pela direita, no meio-campo; Sigthórsson não trazia tanto perigo em jogadas da própria lavra, mas atraía a marcação e abria espaço para quem vinha de trás. Era o caso de… Gylfi Sigurdsson, o nome do jogo, com ótima atuação na ponta de lança, premiada com os dois gols.

E a Holanda tem a reclamar somente de si, nas duas más atuações da última semana. Em ambas, tentou vencer esquemas defensivos extremamente sólidos usando o pior lado do “tiki-taka”: apenas passes de um lado para outro, sem que ninguém tentasse acelerar a jogada rumo ao ataque. Contra o Cazaquistão, Robben ainda fazia das suas pela direita, na sua tradicional arrancada que leva quem vier pela frente. Mas não tinha sucesso. Em Reykjavik, contra os islandeses, foi ainda pior: além dos toques de lado, ainda havia bolas cruzadas esporadicamente para a área, sem trazer problema algum para a dupla de zaga, muito menos para o goleiro Halldórsson.

Talvez não seja coincidência que essa esterilidade, essa apatia ofensiva da Holanda tenha sido vista em dois jogos nos quais Guus Hiddink ainda apostou no 4-3-3 velho de guerra. O elenco perdeu a rapidez nos contra-ataques, talvez a arma ofensiva principal que tinha com o 5-3-2 da Copa do Mundo. E ainda via uma defesa mais vulnerável aos adversários. Contra a Islândia, por exemplo, não foram raras as vezes em que Martins Indi e De Vrij tinham de correr atrás dos atacantes. Ou mesmo encará-los no mano-a-mano. Foi assim que De Vrij “teve” de cometer o pênalti convertido por Sigurdsson, para abrir o placar na última segunda.

Então os zagueiros são apenas vítimas? Não e sim. Não porque também abusam da desatenção, em alguns lances: o gol contra o Cazaquistão saiu porque Martins Indi permitiu que Abdulin passasse por trás e entrasse livre no meio da área, para cabecear. Mas sim, são vítimas, porque as outras áreas da equipe também não colaboram. Nas laterais, Blind foi discreto, e Van der Wiel novamente mostrou seu fraco: a marcação. Bjarnason fez a festa nos vazios deixados pelo lateral do PSG.

De quebra, no meio-campo, somente Nigel de Jong se esforçava mais na marcação. Afellay até mereceu destaque contra o Cazaquistão, tentou chutes de fora da área, se mostrou mais ativo… e até conseguiu fazer o gol da difícil virada. Sneijder foi o das últimas partidas: lento, apalermado, sem conseguir dinamizar a equipe. No ataque, era exatamente acelerar o ritmo que Robben tentava – e não conseguia. Não só por sua culpa, mas também pela falta de colaboração de Lens e Van Persie. O único perigo maior de ataque holandês foi trazido nos 34 minutos em que Huntelaar esteve em campo – o que incluiu seu gol de empate e a expulsão de Dzholchiev, dois momentos decisivos na vitória holandesa.

E não deixa de ser sintomático que a crise holandesa comece a atormentar a torcida até nos comentários sobre coisas pequenas. Como o leve desentendimento entre Van Persie e Huntelaar, sexta passada: enquanto a Holanda ainda perdia por 1 a 0, o atacante do Manchester United recebeu a bola na pequena área, pela esquerda, e chutou cruzado para fora. Klaas-Jan, livre no meio da pequena área, reclamou com um ácido “kijk uit!” (em holandês, “preste atenção”). Van Persie nada fez além de um sinal semelhante ao “fala muito” popularizado por Tite aqui no Brasil. Após o jogo, o titular confirmou que não vira motivo para a raiva de Huntelaar: “A reação dele foi exagerada”. Huntelaar justificou-se: “Era um momento importante, eu estava livre e queria a bola. Mas sempre fico bravo quando não a recebo”. Coisa pouca, discussão de jogo. Mas a imprensa repercutiu além da conta.

Como está repercutindo algo mais grave: a crescente pressão sobre Guus Hiddink. Às vezes, até opinando na própria notícia. Na manchete de seu caderno de esportes, o “Algemeen Dagblad” era curto e grosso: “Hiddink, nosso conselho: saia!”. Comentando sobre o jogo para a emissora de tevê NOS, Ronald de Boer carregou ainda mais: “Com todo o respeito, ele tem 67 anos, e acho que já passou o tempo dele”. Enfim, é fato que o treinador da Oranje parece até enfastiado, com apenas quatro jogos no cargo. A apatia na entrevista pós-jogo, depois da derrota para a Islândia, foi expressa em uma frase: “Não estou bravo, apenas profundamente triste”.

Por isso se espera pelos resultados da conversa que Hiddink terá com Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação holandesa. Como a fábrica de boatos está sempre funcionando, correu a informação de que até o substituto de Hiddink estava previsto: Ronald Koeman, bem no Southampton (e já favorito à sucessão de Van Gaal). Mas o ex-capitão da seleção foi veemente na recusa: “Neste momento, isso não é problema meu. Agora sou técnico do Southampton, não sou o técnico da seleção nem serei o próximo. Se eles ainda me quiserem, terão de esperar até que eu termine as coisas aqui. Não há chance de sair”.

Hiddink ainda merece respeito, é técnico experientíssimo e não precisa mais provar nada. Mas precisa dizer se quer ficar com a seleção. De sua resposta dependerão as outras que a Holanda precisa dar à sua torcida. Afinal, Robben disse: “Não podemos mais cometer falhas”. É isso.