Com a classificação inédita para a Eurocopa obtida na última sexta-feira, a seleção da Finlândia enfim escreve seu nome entre os participantes do principal torneio de seleções do continente. Iguala assim um feito já visto no futebol do país, mas no âmbito dos clubes: na temporada 1998/99, o HJK Helsinque tornou-se o único time finlandês a alcançar a fase de grupos da Liga dos Campeões. E fez campanha bastante digna, como relembramos aqui.

Fundado em 1907, quando o país ainda era parte do Império Russo (do qual se separaria dez anos depois), o HJK é a maior potência do futebol finlandês, sendo o maior vencedor em todas as três principais competições nacionais masculinas (liga, copa e copa da liga) e também no campeonato feminino. Seus 29 títulos finlandeses superam em mais de três vezes os nove levantados pelos segundos mais vitoriosos, o Haka Valkeakosken e o HPS.

Ao longo das décadas, o HJK (sigla em finlandês para Helsingin Jalkapalloklubi) também se tornou o clube poliesportivo mais popular entre a parcela da população da capital que falava finlandês, ao passo que outras agremiações – como o HIFK, rival da primeira metade do século XX – representavam os falantes de sueco. O HJK chegou a ter dois de seus membros assassinados durante a Guerra Civil Finlandesa, em 1918.

Mesmo hegemônico no cenário nacional, no qual predominava o regime amador, o clube tinha dificuldade para se destacar nas copas europeias, com resultados inferiores aos obtidos por outros clubes do país, como o próprio Haka, o Kuusysi Lahti e o RoPS. Até 1997, havia participado nove vezes da Copa dos Campeões, quatro da Recopa e outras quatro da Copa da Uefa, sendo que em apenas três ocasiões havia superado a primeira fase. 

Numa delas, na temporada 1982/83 do principal torneio europeu, o Klubi obteve a maior vitória de sua história continental: 1 a 0 no Liverpool de Graeme Souness e Kenny Dalglish em jogo no Estádio Olímpico de Helsinque pela ida das oitavas de final (na volta, em Anfield, os Reds golearam por 5 a 0). Mais tarde, também venceria outros campeões europeus: o Porto (2 a 0 pela Copa dos Campeões de 1988/89) e o Estrela Vermelha (1 a 0 pela Recopa de 1997/98).

O cenário da época

No fim de 1997, pouco depois daquela vitória sobre a equipe de Belgrado (ocorrida em agosto daquele ano), o HJK voltaria a conquistar a Veikkausliiga, o Campeonato Finlandês, encerrando um jejum de cinco anos. Como o calendário do futebol local se estende de abril a outubro, aquele título carimbaria a classificação do clube somente para edição 1998/99 da Liga dos Campeões. Nesse interim, naturalmente, o elenco sofreu algumas baixas.

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Entre os nomes que deixaram o clube estavam o goleiro Mikko Kavén (vendido ao Motherwell), o defensor Marko Helin (cedido ao PK-35) e os brasileiros Rodrigo Vaz – atacante revelado pelo Figueirense, e que chegara ao país para defender o Jazz Pori em 1993 – e Rafael, outro atacante vindo do futebol catarinense e negociado com o mesmo Jazz Pori. Por outro lado, o time dirigido por Antti Muurinen recebeu reforços importantes.

Entre eles, estava Jari Ilola, volante combativo pescado no RoPS, de Rovaniemi. Também chegou um meia-atacante iugoslavo de origem albanesa, bom toque de bola e certo faro de gol chamado Shefki Kuqi. E aportaram ainda três outros brasileiros, dois deles que também haviam atuado no Jazz Pori, campeão de 1993 e 1996: os atacantes Luiz Antônio e Piracaia, ambos revelados pelo Bragantino. O outro era Gustavo Manduca, ex-Grêmio.

Além de mais bem remunerados, os estrangeiros eram também os únicos atletas a se dedicarem apenas à bola no semi-profissional futebol finlandês. Os jogadores locais dividiam seu tempo de treinos e jogos com outras atividades. Mas a combinação era harmoniosa, a ponto de Kuqi se naturalizar finlandês e estrear na seleção do país ainda naquele ano de 1998, pouco depois do início da saga do HJK no principal torneio de clubes do continente.

O time-base

Com a equipe armada num 4-4-2, ocasionalmente variando para 4-5-1 ou 4-3-3, o time-base variou ao longo da campanha, mas alguns nomes se solidificaram na escalação. Era o caso da dupla de zaga, formada por Ville Nylund (que atuava mais na sobra) e Jarmo Saastamoinen; do dinâmico Aki Riihilahti, segundo homem do meio-campo; dos armadores pelos lados Shefki Kuqi e Mika Lehkosuo; e dos atacantes Piracaia e Mika Kottila.

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Também quase onipresente foi o versátil Jari Ilola, volante batalhador, exímio na destruição, mas que em muitas vezes foi deslocado para a lateral-esquerda. Firmou-se em sua posição de fato quando da saída do capitão Jarkko Wiss, vendido ao Molde norueguês durante a campanha. Pelas laterais, Aarno Turpeinen atuou pelos dois lados. Hannu Tihinen fez o lado direito na fase de grupos e o meia Markku Kanerva também chegou a ser utilizado na esquerda.

No gol, a equipe também sofreu mudanças ao longo do torneio: com a saída de Mikko Kavén para o Motherwell, seu reserva Tommi Koivistoinen assumiu a titularidade de saída e permaneceu pela fase preliminar. Mas uma falha crucial na estreia da fase de grupos tirou-o da equipe para dar lugar a Jani Viander, que havia sido repatriado após passagem pelo Kortrijk belga. Os dois se revezariam sob as traves no restante da campanha.

O começo da trajetória

O rival da primeira fase preliminar foi o FC Yerevan, campeão armênio, que mesmo contando com dois franceses e um argentino em seu elenco não ofereceu resistência. Na ida, no dia 22 de julho em Helsinque, o HJK venceu por 2 a 0, gols de Jarkko Wiss e Shefki Kuqi. Na volta, uma semana depois, foi ainda mais fácil: Mikka Lehkosuo abriu o placar no primeiro minuto, Jari Jäväjä ampliou na etapa inicial e de novo Lehkosuo fechou a contagem em 3 a 0.

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Na segunda fase preliminar, no entanto, o adversário tinha bem mais peso. Vice-campeão francês atrás do surpreendente Lens (campeão inédito), o Metz reunia um punhado de bons jogadores, incluindo Lionel Letizi, goleiro reserva da seleção da França que acabara de levantar a Copa do Mundo em casa. Havia ainda o experiente zagueiro luxemburguês Jeff Strasser, o armador belga Danny Boffin e um jovem atacante chamado Louis Saha.

Uma vitória em Helsinque pelo placar mínimo, com gol contra de Strasser na metade do segundo tempo, deixou o HJK em vantagem para tentar a zebra no jogo de volta. E ela veio. Após segurar o 0 a 0 na primeira etapa, o time saiu na frente com o atacante Vesa Vasara. Precisando de três gols, o Metz fez apenas um, de pênalti, com Bruno Meyrieu, num lance que acabou em confusão entre os dois times. Mas a vaga ficou mesmo com os finlandeses.

Naquela temporada, a fase de grupos era composta por 24 equipes divididas em seis chaves. Os campeões de cada uma delas mais os dois melhores segundos colocados avançavam às quartas de final. Para o HJK, no entanto, ultrapassar mais uma fase era apenas um sonho. “Nosso objetivo é continuar a tornar difícil a vida dos nossos renomados adversários”, reconhecia o técnico Antti Muurinen logo após a segunda partida contra o Metz.

A fase de grupos

E seria mesmo como um autêntico azarão que o Klubi enfrentaria PSV, Benfica e Kaiserslautern pelo Grupo F daquela etapa. Dirigido pelo inglês Bobby Robson, o time de Eindhoven contava com uma legião multinacional de talentos que incluía os russos Yuri Nikiforov e Dmitri Khokhlov, o português Abel Xavier, os belgas Gilles de Bilde e Luc Nilis e até um finlandês, o ponteiro Joonas Kolkka, além dos nativos Stan Valckx, Arnold Bruggink e Ruud Van Nistelrooy.

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Já o Benfica, dirigido pelo escocês Graeme Souness (três vezes campeão do torneio como jogador do Liverpool), atravessava crise administrativa, mas contava com a experiência do belga Michel Preud’Homme sob as traves, além de Paulo Madeira e do brasileiro Ronaldo Guiaro na defesa, do tcheco Karel Poborsky e do inglês Michael Thomas no meio e da dupla lusa João Pinto e Nuno Gomes, além de outro inglês, Brian Deane, no setor ofensivo.

Por fim, o Kaiserslautern chegava à disputa após um enorme feito: a conquista da Bundesliga com a equipe vinda direto da segunda divisão. Comandada pelo experiente Otto Rehhagel, tinha como seus principais trunfos a criatividade do armador suíço Ciriaco Sforza (que às vezes atuava como líbero), além do meia Michael Ballack, do ponta brasileiro Ratinho, dos atacantes Olaf Marschall e Uwe Rösler (ambos de origem alemã-oriental) e o búlgaro Marian Hristov.

A estreia nesta fase seria diante do PSV no Estádio Philips, em Eindhoven, no dia 16 de setembro. E os finlandeses começariam surpreendendo: aos 31 minutos do primeiro tempo, Piracaia puxou contra-ataque pela esquerda e cruzou na segunda trave, onde Kottila apareceu para emendar um peixinho e vencer o goleiro Ronald Waterreus. O Klubi foi para o intervalo carregando o que até ali representava um resultado histórico.

O PSV reagiu na etapa final. Aos 14 minutos, num escanteio, o zagueiro Andre Ooijer apareceu para cabecear o gol de empate, mesmo enroscado na marcação. Quando os finlandeses estavam muito perto de garantir um excelente 1 a 1 na casa do forte adversário, veio o erro fatal. O goleiro Koivistoinen saiu para defender um lançamento feito a esmo para a área do HJK, mas bateu roupa bisonhamente e viu a bola sobrar para Bruggink decretar a virada aos 44.

Após um revés de partir o coração como aquele, a tendência era a de que a equipe finlandesa desmoronasse de vez e virasse um saco de pancadas da chave. Mas não foi o que se viu. No jogo seguinte, com Jani Viander sob as traves no lugar de Koivistoinen, o time recebeu o Kaiserslautern no Estádio Olímpico de Helsinque e arrancou um 0 a 0. E poderia ter vencido se o goleiro Reinke não tivesse feito milagre parando sobre a linha um chute de Lehkosuo no fim.

Resultados históricos

O primeiro ponto numa fase de grupos foi muito festejado. Mas um feito maior ainda viria na terceira rodada, de novo no Estádio Olímpico, em 21 de outubro. Após ser derrotado na estreia para o Kaiserslautern (1 a 0) na Alemanha, o Benfica vinha de grande vitória sobre o PSV por 2 a 1 em Lisboa, com gols de Nuno Gomes e João Pinto. Uma vitória em Helsinque deixaria os encarnados em boa situação para tentar a classificação.

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Mas veio a grande surpresa: logo aos 19 minutos, Paulo Madeira cometeu pênalti e Lehkosuo se encarregou de cobrar, mandando no canto oposto de Preud’Homme e abrindo a contagem para o delírio dos 25 mil torcedores presentes. Na etapa final, aos 23 minutos, foi a vez de recorrer à bola aérea: Piracaia cobrou escanteio e Kottila – preocupação constante para a defesa benfiquista – mergulhou para fazer o segundo, selando a vitória.

O grande resultado fez com que o HJK virasse o turno na vice-liderança da chave com quatro pontos ganhos, contra sete do Kaiserslautern e apenas três de Benfica e PSV. E ainda permitia aos finlandeses sonharem com uma improvável classificação, mesmo como um dos melhores segundos colocados. Para isso, porém, seriam precisos novos milagres. E outro andou bem perto de acontecer na partida de volta contra o Benfica, no Estádio da Luz.

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O Klubi voltou a sair na frente logo aos três minutos, quando um cruzamento da direita levou a uma jogada confusa na área, e a bola acabou resvalando no lateral inglês Scott Minto, enganando Preud’Homme. Depois de suportar intensa pressão dos encarnados por mais de uma hora, os finlandeses demoraram até os 33 minutos da etapa final para sofrer o gol de empate, com o oportunista Nuno Gomes aproveitando uma rebatida da defesa.

Embalado, o Benfica chegou à virada dois minutos depois, num chutaço do meia Calado quase da intermediária e que foi ascendendo até morrer no ângulo de Koivistoinen, que voltava ao gol do HJK naquele dia. Mas os visitantes não se entregariam: aos 40, Luiz Antônio recebeu passe na ponta esquerda e foi cortando para dentro. Quando chegou perto da meia-lua, bateu firme, bem no canto de Preud’Homme, para frustrar a reação encarnada.

O empate mantinha os finlandeses na segunda posição do grupo, mas agora ainda mais distantes do líder – e quase classificado – Kaiserslautern, que derrotou o PSV de virada (3 a 1) na Alemanha e chegou aos dez pontos. Assim, embora os resultados obtidos até ali tivessem sido excelentes para as pretensões do clube, a vaga nas quartas de final ficava cada vez menos provável. E os dois últimos jogos tratariam de enterrar as chances.

O fim do sonho

O HJK ainda não havia sofrido gols em seus quatro jogos anteriores em Helsinque naquela edição da Liga dos Campeões quando recebeu o PSV, no que seria sua partida derradeira no Estádio Olímpico. Confiando em mais um resultado épico, a torcida bateu o recorde de público de uma equipe finlandesa em casa na história da competição, levando 34 mil espectadores ao jogo. Mas no meio do caminho para a glória havia um certo Ruud Van Nistelrooy.

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O atacante de 22 anos, que já começara a se destacar no âmbito doméstico, teve ali sua primeira atuação memorável na principal competição europeia, marcando os três gols da vitória do PSV por 3 a 1. Abriu o placar aos 29 minutos de jogo e ampliou aos 22 da etapa final. O HJK reagiu e diminuiu três minutos depois com Lehkosuo cobrando pênalti. Mas aos 36, também convertendo uma penalidade, o holandês deu números finais ao jogo.

A derrota não apenas decretou o fim das chances matemáticas de classificação do HJK como também derrubou o time para a lanterna do grupo, ultrapassado pelo próprio PSV e pelo Benfica, que derrotou o Kaiserslautern em Lisboa por 2 a 1. O último desafio seria diante dos alemães no Estádio Fritz-Walter, no dia 9 de dezembro. Jogando soltos, já sem pretensões, os finlandeses mais uma vez chegaram a surpreender.

Aos 29 minutos, Turpeinen desceu pela lateral direita e encontrou Ilola avançando sem marcação pela intermediária. O volante recebeu, ajeitou no peito e bateu rasteiro da entrada da área para abrir a contagem. Mas pouco antes do intervalo, o Kaiserslautern empatou com Uwe Rösler, cabeceando cruzamento de Marian Hristov. Foi o suficiente para os donos da casa recuperarem o embalo e dispararem a goleada na etapa final.

Os gols anotados pelos Lauterer evidenciaram um ponto fraco do HJK: a vulnerabilidade nos cruzamentos para a área. Logo aos quatro minutos do segundo tempo, Sforza recebeu escanteio curto e alçou para a cabeçada de Marschall. Aos 16, Hristov escorou outro escanteio para Rösler completar também de cabeça na pequena área e marcar o terceiro. Os finlandeses descontaram aos 23, com Luiz Antônio completando jogada de Kopteff pela esquerda.

A reação parou por aí. Aos 35, Rösler cabeceou no ângulo um escanteio cobrado por Andreas Buck e marcou o quarto dos alemães. E a seis minutos do fim, Sforza deu um balão para a frente, Nylund não conseguiu cortar e Jürgen Rische arrancou para fechar a goleada em 5 a 2. Mas sem desespero: embora encerrada com derrota um tanto pesada, a campanha havia sido motivo de orgulho não só para os torcedores do Klubi como para o futebol finlandês.

Depois da grande campanha

Difícil, porém, seria manter aquele elenco após uma vitrine do tamanho da Liga dos Campeões. E não muito longe dali, o futebol norueguês se consolidava como mercado atraente para os atletas finlandeses, tanto do ponto de vista financeiro quanto de visibilidade para outras ligas, como a inglesa. E o êxodo foi inevitável: depois de Jarkko Wiss, vendido ao Molde, o meia Aki Riihilahti seguiu para o Valerenga e o atacante Mikka Kottila para o Brann.

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Em transição, o HJK só voltaria a levantar a liga finlandesa com o bicampeonato em 2002/03. Mais tarde chegaria a um hexa entre 2009 e 2014, reiterando sua hegemonia no cenário nacional. Já em termos continentais, o Klubi nunca conseguiu repetir seu feito de chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões, contentando-se apenas com vitórias esporádicas em Helsinque sobre clubes importantes da Europa, como o Celtic, o Schalke 04 e o Torino.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.