O Hertha Berlim mostra as garras de um projeto ambicioso, mas que também precisa ser visto com ressalvas

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Não seria exagero dizer que a Bundesliga realizou a melhor janela de inverno entre as grandes ligas europeias. Os clubes da primeira divisão investiram €195 milhões em contratações, apenas €22 milhões a menos que a Premier League, e trouxeram jogadores que poderiam ter sido até mais caros. Talentos como Erling Braut Haaland e Dani Olmo já causam seu impacto, enquanto há ainda muita gente boa para deslanchar – como Exequiel Palacios ou Álvaro Odriozola. E foi na capital alemã que o campeão de gastos da Europa se erigiu: o Hertha Berlim.

O Hertha chamou atenção pelas apostas e também pelo volume das contratações, que totalizaram €76 milhões. Os berlinenses trouxeram quatro novos jogadores, ainda que o volante Lucas Tousart permaneça no Lyon, emprestado ao clube de origem até o final da temporada. Em compensação, Santiago Ascacíbar veio de imediato para tomar conta do meio-campo. Já o setor ofensivo ganha muito mais qualificação com Krzysztof Piatek e Matheus Cunha. Pela sanha da diretoria em comprar atletas neste momento do ano, em que os preços são geralmente mais altos, até pode parecer que os alviazuis estão desesperados contra o rebaixamento. Na verdade, eles querem mesmo é mostrar serviço com o novo comando que se estabelece na capital.

O saldo do Hertha nesta janela de inverno, afinal, não surpreende tanto. Os berlinenses já esboçavam uma postura mais incisiva no mercado de transferências há algum tempo, graças à chegada de um novo investidor. No último mês de junho, o clube anunciou a maior transação já realizada na história da Bundesliga. Empresário alemão baseado em Londres, Lars Windhorst desembolsou €125 milhões para adquirir 37,5% de participação na agremiação. E nem demorou muito para que ele ampliasse a sua fatia. Em novembro, o magnata gastou mais €99 milhões para ficar com outros 12,4%, chegando ao limite de 49,9% permitido pela legislação do futebol alemão.

Windhorst age conforme a regra do 50+1, que não permite aos clubes do país (salvo raras exceções) serem controlados por um acionista majoritário – para, assim, não ficarem à mercê de possíveis desmandos e arbitrariedades, por mais que isso limite a capacidade de investimentos. O empresário ainda precisa responder dentro de uma estrutura que mantém 50,1% do poder decisório distribuído entre os associados da agremiação. De qualquer maneira, o regulamento não inibe que o Hertha aproveite a bonança para atacar o mercado. Esta janela de inverno foi o primeiro passo de um plano que visa recolocar os berlinenses na Champions League.

Aos 43 anos, Windhorst é aquilo que os alemães adoram chamar de “Wunderkind”: o tal garoto prodígio. Montou o seu primeiro negócio na adolescência e, no início dos anos 1990, começou a fazer milhões com a venda de equipamentos na área de informática. Windhorst nem tinha chegado aos 30 anos quando estava prestes a lançar sua empresa na Bolsa de Valores de Frankfurt. Porém, afetado por uma grave crise, o alemão decretou falência em 2003. Um ano depois, apoiado por outros empresários, abriu um grupo de investimentos e conseguiu se recuperar. Antes do final da década passada, seu novo negócio já movimentava bilhões e atuava em diversas áreas, apesar de outros revezes e quebras de subsidiárias. Chamada atualmente de Tennor Holding, a companhia agora estende seus braços sobre o futebol.

Vale frisar, Windhorst não goza de uma reputação tão ilibada assim. Apesar da incrível capacidade de se refazer no mercado, o alemão já enfrentou processos por fraude e peculato – sobre os quais ou fez acordos com a justiça ou teve as acusações arquivadas. Mais recentemente, segundo o Financial Times, bens pertencentes ao “extravagante financista alemão” foram apreendidos por uma corte londrina, após contratos serem descumpridos. A publicação aponta, também, como o magnata “buscava reabilitar a reputação de sua carreira volátil”. Entre os parceiros que viraram as costas ao investidor, a consultoria Deloitte (reconhecida no futebol pelo trabalho voltado à análise financeira dos clubes) ironicamente renunciou sua posição como auditora da companhia de Windhorst em 2016.

“Windhorst divide opiniões entre aqueles que o conhecem bem. Alguns o detestam, dizendo que foram queimados em transações comerciais. Outros exaltam sua capacidade de forjar relacionamentos, sua energia ilimitada e o otimismo inabalável. Ele também tem uma capacidade incomum de reconquistar aqueles que alienou anteriormente”, descreve o FT.

Windhorst causa controvérsia pela própria maneira como conduz seus negócios, com sua ética também questionada pelo Handelsblatt, um dos principais jornais especializados em economia da Alemanha. O empresário não costuma medir limites em suas jogadas de risco, algumas delas classificadas até como “comportamento imoral” e “ganância”. Além disso, uma de suas atitudes preferidas é impressionar seus possíveis aliados com luxos. Não à toa, durante a intertemporada na Flórida, os jogadores do Hertha passaram um dia no iate do alemão.

Sem qualquer ligação afetiva com o clube ou mesmo grande adoração pelo futebol, Windhorst vê o Hertha como mais uma aventura. A forma como pagou um valor acima do esperado pelos 12,4% restantes de sua participação indica a agressividade na empreitada. Segundo o investidor, em entrevista à revista Der Spiegel, o futebol cresce oito vezes mais que o resto da economia. Os berlinenses, além do mais, têm “várias frutas balançando em seus galhos mais baixos” – sua metáfora para explicar como a expansão do time pode satisfazê-lo em breve.

“Não impusemos quaisquer restrições ao meu investimento. Se necessário, também consideraremos fundos adicionais para atingir nossos objetivos. Não queremos disputar a Champions apenas uma vez, mas regularmente. Ninguém deve dizer que o Hertha não pode aparecer entre os melhores times da Alemanha. Não é uma ideia maluca, mas há uma lógica econômica por trás, que se pagará em longo prazo. Apesar do esforço adicional, poderemos no fim criar um valor na casa dos bilhões”, declarou Windhorst, em pretensiosa entrevista ao Bild.

Até pela estrutura do 50+1, é um pouco mais difícil que o Hertha seja usado apenas em benefício próprio de Windhorst e de suas empresas. Nem todos os torcedores confiam no investidor, mas há certa proteção ao clube, até pelas decisões ainda permanecerem nas mãos dos associados. Por enquanto, a relação começou com o empresário colocando suas cartas na mesa e indicando como os alviazuis podem progredir com contratações. Vislumbrou a possibilidade de alavancar o potencial financeiro da agremiação – com suas devidas proporções e contextos, algo parecido ao que acontece na França, onde o Paris Saint-Germain explora bem mais sua imagem como principal time da capital.

Historicamente, o Hertha teve suas finanças atravancadas pela divisão de Berlim. Durante a Guerra Fria, o isolamento territorial atrapalhou o desenvolvimento da agremiação. A situação melhorou a partir dos anos 1990, com a ascensão dos alviazuis na virada do século, mas nada que tenha arraigado a equipe como uma potência nacional. Já a partir de 2014, os americanos da KKR conseguiram certa estabilidade, até revenderem sua participação ao clube em 2018. Considerando o mercado em que os berlinenses estão inseridos, Windhorst acredita em novas projeções. O Hertha pode atingir um público “consumidor” maior, bem como atrair acordos comerciais mais polpudos. Mas é o futebol jogado dentro de campo que precisa abrir essas portas, antes de mais nada.

Para conduzir seu projeto esportivo, Windhorst escolheu um nome forte: Jürgen Klinsmann. Em novembro de 2019, quando o empresário ganhou o direito de nomear mais um membro ao conselho do Hertha, apontou o antigo treinador da seleção alemã para ser o seu braço direito. Windhorst se valia não apenas do conhecimento e da imagem de Klinsi no futebol, mas também de sua própria relação afetiva com o Hertha, clube do qual o seu pai é torcedor. O veterano atuaria como uma espécie de consultor dos berlinenses. Durante a chegada do novo parceiro, o empresário afirmou que “sublinhava-se a seriedade e a sustentabilidade da relação da Tennor com o clube”. Nem demorou muito para que a influência aumentasse.

O maior sinal da mudança aconteceu semanas depois, no final de novembro, quando o Hertha trocou o seu técnico. Ao longo dos últimos anos, o clube preferiu soluções caseiras ao seu comando. Desde 2015, a casamata se resumiu a antigos jogadores alviazuis que também trabalharam em diferentes categorias na base. Foi assim que Pál Dardai assumiu o papel e, por isso mesmo, Ante Covic se tornou o substituto na atual temporada. O mau início na Bundesliga foi a deixa para que o novo treinador perdesse seu cargo meses depois. Enquanto isso, Klinsmann se transformou em outro tipo de “solução caseira”. Com Klinsi à frente da equipe, a influência de Windhorst se tornou consequentemente mais profunda, mesmo que sem interferências diretas do investidor.

O contrato de Klinsmann como treinador do Hertha vai até o final da temporada e, mesmo se for ampliado, não deve demorar para que o veterano reassuma suas funções diretivas. Apesar disso, em sua nova posição, ficou mais fácil de atuar com contundência no mercado – sob o apoio de Michael Preetz, o diretor esportivo do Hertha. As contratações de Piatek, Matheus Cunha, Tousart e Ascacíbar salientam a restruturação da equipe, mirando um novo patamar de futebolistas na janela. Durante o início da temporada, o Hertha tinha sido bem mais contido. Desembolsou oito dígitos apenas para trazer Dodi Lukebakio, ao custo de €20 milhões. A partir de agora, os horizontes se ampliam com os €76 milhões totais.

Não quer dizer, contudo, que a presença de Klinsmann deixa de representar um choque de gestão. Paralelamente, o novo treinador também começou a fazer uma limpa no plantel. Seis jogadores terminaram a janela de inverno emprestados a outros times – incluindo Ondrej Duda, um dos destaques da temporada passada. Além do mais, Klinsi não possui dos gênios mais dóceis e bateu de frente com protagonistas. Considerado uma das grandes promessas do Hertha, Arne Maier está sem o mesmo espaço desde que retornou de lesão no joelho e não descarta sair. Já o grande embate veio com Salomon Kalou, em sua sexta temporada no Estádio Olímpico.

Desde que chegou a Berlim, em 2014, Kalou manteve sua importância à equipe. Colocou-se como uma das principais fontes de gols e atravessou aquele que pode ser considerado até mesmo o melhor momento da carreira. O problema é que, sem tanto espaço desde Covic, o marfinense deixou de ser relacionado por Klinsmann. Neste mês de janeiro, o veterano solicitou sua transferência e não escondeu a insatisfação nas entrevistas, ao dizer que “nem mesmo no Chelsea havia se sentido tão desrespeitado”. Sem conseguir tirar o visto de trabalho britânico, após uma proposta do Aston Villa feita por John Terry, terá que esperar um pouco mais para sair.

A própria transformação do Hertha requer calma. Os alviazuis fazem uma temporada morna na Bundesliga, em que sequer figuram como o melhor time de Berlim. Klinsmann deu um gás em sua chegada e garantiu certa gordura em relação à zona de rebaixamento, mas imaginar uma arrancada rumo à zona de classificação para as copas europeias requer uma regularidade que não se nota. Apesar do equilíbrio na tabela, ainda parece difícil que o Hertha tire dez pontos de desvantagem para disputar a próxima Liga Europa, quanto mais os 15 de distância à Champions. Ao menos, a pressão pelos resultados deverá surgir apenas na temporada que vem, para que os investimentos se compensem e possam aumentar. Novos jogadores renomados tendem a desembarcar no verão, além do supracitado Tousart.

Resta saber como o projeto comercial e o projeto esportivo se desenvolverão em médio prazo. O Hertha ganha em capacidade de investimento, mas nem sempre isso é garantia de sucesso no futebol. “Dinheiro não marca gols”, já diria o lendário Otto Rehhagel, que fez parte de sua carreira com os próprios alviazuis. O clube possui planos mais amplos, que previam a construção de um novo estádio antes mesmo da chegada de Windhorst e que seguem independentes do investidor, com inauguração planejada para 2025. A nova casa deve aumentar os rendimentos dos berlinenses, assim como se transformar em uma atração diferente na capital, para fugir do gélido clima no Estádio Olímpico. Todavia, isso pode andar bem mais rápido se as coisas em campo derem certo.

Até pelo equilíbrio comum na Bundesliga e pela postura mais controlada dos clubes alemães, aumentar os gastos com o elenco pode provocar uma ascensão mais rápida – como o próprio RB Leipzig comprova. As novas peças trazidas neste inverno dão mais opções ao Hertha, sobretudo com a encomenda de gols feita a Piatek e Matheus Cunha. Entretanto, o time precisa evoluir não apenas no ataque e a quantidade de tentos sofridos em casa também dá conta das dificuldades. Já a campanha na Copa da Alemanha, que poderia representar um bônus no semestre, terminou nesta terça. Após os berlinenses abrirem dois gols de vantagem em Gelsenkirchen, o Schalke 04 buscou a virada na prorrogação.

A chave, por enquanto, está nas mãos de Klinsmann. É ele quem possui livre acesso ao investidor e poder direto sobre o time. A escolha do velho craque é extremamente compreensível, ao unir experiência e uma imagem reconhecida mundialmente. Seu desafio será reencontrar o fio da meada na própria carreira e provar que o profissional talentoso surgido à frente da seleção poderá realizar um bom trabalho em diferentes âmbitos no clube da capital – como não aconteceu em sua passagem pelo Bayern de Munique, sobretudo. Acima dos milhões gastos na janela de transferências, é no veterano que se depositam as primeiras fichas neste novo momento do Hertha.

Independentemente disso, não se pode perder de vista o que acontecerá com o Hertha também além das quatro linhas. A associação com Windhorst não possui entraves até agora, mas ainda é cedo para avaliar seus efeitos. A tendência é que o empresário busque aumentar o valor do clube o quanto antes, com sucesso nas competições. Conforme a revista alemã Manager-Magazin, ele também pretende inserir os berlinenses no mercado de ações dentro de alguns anos. Caso a iniciativa se confirme, seria o segundo clube da Bundesliga a aparecer na Bolsa de Valores de Frankfurt, após o Borussia Dortmund. Em contrapartida, a experiência dos aurinegros já gerou crises pesadas no passado e não costuma significar um porto seguro.

O fortalecimento financeiro, obviamente, pode gerar benesses ao Hertha. Windhorst possui sua experiência no mercado e a sinalização de suas intenções pouco surpreende. No entanto, o próprio histórico do empresário torna naturais os questionamentos. Por enquanto, os interesses da torcida e do investidor caminham juntos, em busca do crescimento. O problema é quando as visões se distanciarem, entre o resultado esportivo e os lucros – ou algum tipo de conflito mais grave. Exemplos de clubes que se afundaram com a má gestão, como Munique 1860 e Hamburgo, também existem na Alemanha do 50+1. E o próprio Windhorst já declarou publicamente seu desagrado com a regra, embora evite imbróglios neste começo.

Em outros cenários, as publicações especializadas na Alemanha consideram que é possível que Windhorst nem permaneça por tanto tempo no Hertha. Diante da provável entrada no mercado de ações, ele poderia vender a maior parte de sua participação para recuperar os investimentos. Para tanto, o futebol precisa corresponder às lógicas de sua matemática financeira. E o mais importante à torcida é saber que, apesar de seu potencial como clube, o Hertha não deixa de ser um negócio na mente do investidor. Há chances de se impulsionar, assim como de ficar suscetível às vontades de quem não está ligado à paixão. Torcedores de outros cantos da Alemanha conhecem bem o preço que pagam por isso.