Em tempos nos quais o apoio à seleção brasileira vira questão de debate, e mais do que isso, uma dessas infindáveis cruzadas de internet entre aqueles que preferem a dicotomia dos extremos, vale olhar além do que acontece no nosso umbigo. “A Copa contagiou os torcedores no Brasil?”. “A imprensa está pegando pesado nas críticas à Seleção?”. “Cabelo, choro ou textão nas redes sociais influencia na concentração dos jogadores?”. Sei lá, nem quero falar sobre isso agora. E essas questões se tornam menores quando a gente se lembra que o Mundial tem um significado maior que qualquer superestrela ou mesmo do que o hexa. A grandeza do torneio não está naquilo que é, mas no que gera, e a seleção brasileira gera muita coisa. Basta ver o que rolou no Haiti.

Embora já tenha participado da Copa do Mundo em 1974, em uma de tantas fases sombrias entre calamidades naturais e humanas que se repetem em ciclos massacrantes, o Haiti não tem muitas perspectivas de se classificar novamente tão cedo à competição. E, por isso, acaba escolhendo a Seleção para desaguar a sua febre mundialista. São dois países irmanados em situações extremas, entre ajudas humanitárias e questões sociais, mas que no universo do futebol se aproximam por lembranças bem mais felizes. Que tenha servido como uma questionável articulação política da CBF em tempos de crise interna, o Jogo da Paz que levou os craques da Seleção a Porto Príncipe é daqueles momentos históricos do futebol, não pelo jogo em si, mas pela alegria de um povo. Alegria que ficou, em torcida fervorosa pela Canarinho em diferentes cidades haitianas.

Os vídeos abaixo circularam bastante na internet durante as últimas horas e talvez você já tenha visto, mas não custa registrar e apresentar a quem ainda não teve a oportunidade de assistir. Mostram a felicidade dos haitianos diante da vitória agônica da seleção brasileira contra a Costa Rica, com os gols de Philippe Coutinho e Neymar já depois dos acréscimos do segundo tempo. Eles vão além de achar ou não que o Brasil jogou bem e, veja só, também consegue escapar de qualquer discussão frívola sobre a Seleção. Mostram apenas o que a camisa amarela gerar no Haiti, através da Copa do Mundo, a um povo que adotou o Brasil, esse país com diversas proximidades sociais e até mesmo culturais, para chamar de seu.

E o que acontece nas cidades haitianas, pode ter certeza, se reproduz também em algum canto da África, em parte do Sudeste Asiático ou em outras nações que não veem seu próprio time no Mundial, mas nem por isso deixam de torcer. É isso que a seleção brasileira representa, independentemente de seus desmandos internos ou de sua esterilização – ao menos olhando em vários cantos daqui. De lá, há uma magia que permanece. Há algo que por vezes nos escapa, e que traz o real significado da camisa amarela.

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