Em algum lugar desse mundo deve haver um ditado popular que diz que, “quando tudo parece ir muito bem, tem sempre alguém para fazer uma besteira”. A frase se aplica também ao mundo, em diversos contextos, e se encaixa como uma luva no futebol, onde qualquer errinho pode botar o planejamento de todo o trabalho por água abaixo, ou pelo menos causar confusões completamente sem razão de existir. Foi o que fez, por exemplo, Philipp Lahm, ao lançar na Alemanha seu livro “A sutil diferença”, ou “Der feine Unterschied”, título original da obra.

No livro, Lahm critica quatro de seus ex-treinadores: Jürgen Klinsmann e Rudi Völler, com quem trabalhou na seleção alemã (o primeiro também o comandou no Bayern Munique), e Felix Magath e Louis van Gaal, com os quais trabalhou no time bávaro recentemente. Além disso, nega mais uma vez ser homossexual, abordando um assunto que já havia dado dores de cabeça a ele mesmo, que declarou certa vez que jogadores gays deveriam assumir publicamente a própria orientação sexual.

Quando fala sobre Klinsmann, Lahm afirma. “Ao fim de oito semanas no Bayern, já havíamos percebido que não ia dar resultados. O resto da temporada foi uma gestão de prejuízos. Com ele, só fazíamos treino físico, quase não discutíamos tática. Os jogadores tinham de falar entre eles sobre a forma de abordar o jogo”. Tudo bem, já se duvidava sobre as capacidades do ex-atacante como treinador, e realmente os bávaros não empolgaram ninguém em 2008/09, ano em que os dois se encontraram na Baviera. Ficaram com o vice-campeonato alemão após serem humilhados pelo Wolfsburg por 5 a 1 no famoso jogo do golaço de Grafite, e foram eliminados da Liga dos Campeões pelo Barcelona nas quartas de final, sendo goleados por 4 a 0 no jogo de volta.

Sobre Rudi Völler, Lahm afirma que o estilo de treinar dele era “divertido, mas totalmente sem método, o que fazia com que os jogadores não treinassem nada em especial”. O capitão da seleção alemã afirmou também que os trabalhos duravam apenas uma hora, e depois todos iam jogar videogame. Völler respondeu duramente: “Considero isso uma impertinência sem igual. Trata-se de um jogador que não tem caráter”.

Sobre Felix Magath, o capitão diz que o técnico trabalha com pressão e sua filosofia dá certo apenas por um curto período de tempo. Depois, ele perdia o comando sobre os jogadores. Se analisarmos que, após o título da Bundesliga em 2005/06, a equipe ficou com a sexta colocação na temporada seguinte, há novamente um fundo de verdade nessa afirmação, embora Magath tenha respondido que “Lahm está tentando ganhar dinheiro com o livro e por isso precisa contar coisas interessantes”.

Quando se referiu a Louis van Gaal, Lahm foi mais enfático. Disse que o técnico dava muito valor à disciplina e também muito valor a si mesmo, e que o técnico holandês nunca reconheceu falhas em sua filosofia e nunca tentou corrigi-las. “A época dos técnicos que apenas falam com seus jogadores para passar ordens já se foi. É claro que um treinador moderno deve comandar sua equipe, mas não deve se comprometer, contra a vontade dos jogadores, com um estilo de jogo que não é adequado para a equipe.” Ok, não é o primeiro jogador que se refere ao holandês assim.

Ao analisarmos as afirmações, percebemos que todas elas parecem coerentes, tudo muito interessante. Mas, com exceção talvez das críticas feitas a Rudi Völler, nada do que foi escrito é novidade para quem acompanha o futebol alemão com atenção. Escrever um livro para dizer que Louis van Gaal e Felix Magath são autoritários e que Klinsmann não é um grande treinador soa, portanto, perda de tempo.

Mais do que isso, o livro é uma prova cabal de ingratidão. Afinal de contas, foi Magath que abriu as portas para Lahm no Stuttgart, quando o lateral era apenas uma promessa da base do Bayern Munique, nos idos de 2003. Com Klinsmann, ele disputou sua primeira Copa do Mundo e trocou a lateral esquerda pela direita, ganhando outro status na carreira. E com Van Gaal, bem ou mal, chegou à decisão da Liga dos Campeões e ganhou a braçadeira de capitão após a saída de Mark Van Bommel para o Milan.

Ao tomar conhecimento do livro, o técnico Joachin Löw não gostou muito, assim como o diretor da federação alemã, Oliver Bierhoff, que afirmou que Lahm foi longe demais. Além do bom senso, Löw certamente teme ser criticado em uma edição revisada dessa “biografia” no futuro. Afinal de conta, apenas os seus antecessores foram citados. Mais do que isso, Löw agora precisa trabalhar como bombeiro para evitar que as verdades desnecessárias ditas pelo lateral não afetem o bom momento pelo qual passa a seleção alemã, mesmo que isso signifique tirar dele a braçadeira de capitão.

Bayern na liderança

Com dois pênaltis muito duvidosos, o Bayern Munique derrotou o Kaiserslautern por 3 a 0 no último sábado, pela Bundesliga, e assumiu a liderança da competição no saldo de gols, seguido por Schalke 04 e Werder Bremen. Os três gols da partida foram marcados pelo troglodita Mario Gómez, que novamente mostrou do que é capaz, no bom sentido, depois de algumas partidas perdendo gols incríveis. Neste sábado, Gómez terá mais uma chance de brilhar, desta vez com a seleção alemã, que enfrenta a Áustria em casa e, se vencer, garante matematicamente a classificação para a Eurocopa 2012.

Quem não teve uma jornada muito boa foi Mario Götze, expulso no empate sem gols entre Bayer Leverkusen e Borussia Dortmund após chutar o volante Hanno Baltisch em dividida. O cartão também rendeu ao Wunderkind uma suspensão de duas partidas, o que poderá prejudicar os pretos-amarelos nas próximas rodadas, sobretudo se Shinji Kagawa atuar como nas últimas partidas, disperso e apático.