Um clima diferente tomou a Arena do Grêmio nesta quarta-feira. Era noite de Libertadores, mas ainda mais do que isso. O Tricolor sabia da necessidade que o pressionava e resolveu transformar o duelo decisivo contra o Rosario Central em um jogo de mata-mata. A vontade imprimida pelo time de Renato Portaluppi era imensa, com seu tom de urgência, sua ambição de decidir logo. E o que se viu, enfim, foi um Grêmio bem mais aceso em relação às primeiras rodadas da competição continental. Incendiado por Éverton, além de ter Jean Pyerre e Leonardo Gomes assumindo o protagonismo, a equipe não demorou a abrir seu caminho. E também contou com sua dose de sorte, ao celebrar por tabela a vitória do Libertad no Chile. De uma situação que parecia à beira do abismo, os gremistas saem revigorados, com seu triunfo por 3 a 1 no bolso e a certeza de que há muito por brigar na sequência do torneio.

A escalação de Renato já trazia novidades que pareciam bem-vindas. Desta vez, o treinador confiou nos garotos para chacoalhar os brios do Grêmio. Se há três décadas ele mesmo foi um prodígio que mudou a história tricolor na Libertadores, era hora de dar passagem a Jean Pyerre e Matheus Henrique no meio-campo. De qualquer maneira, o maior peso estaria sobre os ombros de outro jovem, este mais tarimbado: Éverton. E o melhor jogador gremista dos últimos meses não se escondeu da responsabilidade. Durante o primeiro tempo, o ponta apresentou seu melhor futebol. Incisivo, estava disposto a resolver.

Os minutos iniciais do Grêmio foram em alta voltagem. O time jogava em velocidade e buscando a mínima brecha para arriscar a gol. Éverton era quem mais tentava e começou a travar uma batalha particular com o goleiro Jeremías Ledesma. Antes dos 10, o atacante forçou duas grandes defesas do arqueiro, sobretudo a segunda, em uma cabeçada que tinha endereço. De tanto querer, o Cebolinha era até fominha demais. Aos 19, ele fez fila pela esquerda com uma linda sequência de dribles e bateu tirando tinta da trave, em lance que poderia ter um destino melhor se resolvesse passar a Diego Tardelli, livre dentro da área. Ainda assim, ninguém poderia acusar a apatia dos tricolores. Em um embate mais físico, os níveis de concentração e de energia eram altíssimos.

Até parecia que Ledesma seria um carrasco do Grêmio na noite. Aos 28, ele voltou a barrar Éverton. No entanto, o repertório do ponta é grande e ele faria diferente aos 30, para que seu time encontrasse as redes. Após uma finta seca no marcador, ficou com o caminho aberto e deu o cruzamento açucarado para Jean Pyerre desviar. O garoto se emocionou com o gol. A estrela de Renato outra vez brilhou. Segurança a uma equipe objetiva, que entregou a bola ao seu craque e soube persistir. Do outro lado, o Rosario Central mal ameaçava, incomodando vez ou outra com Jarlan Barrera. Germán Herrera, quando poderia fazer valer a “lei do ex”, furou. E as coisas davam tão certo que, após o gol da Universidad Católica abrindo o placar em Santiago, o Libertad virou antes do intervalo. A notícia dos tentos paraguaios, oferecendo mais sobrevida aos tricolores, foi bastante comemorada na Arena.

O Grêmio voltou ainda mais resoluto em matar a partida no início do segundo tempo e martelava o Rosario Central. As chances vinham aos montes. Jean Pyerre e Leonardo ficaram no quase, antes que André preferisse passar em um lance para chutar e irritasse Renato. Apesar disso, a tranquilidade foi assegurada logo aos oito minutos, com o segundo gol. Mais uma jogada de Jean Pyerre, que avançou até a linha de fundo e rolou para Leonardo balançar as redes, mandando por entre as pernas do goleiro. O lateral, aliás, também ganhava contornos de herói. Após sofrer uma lesão feia no joelho durante a primeira etapa, parecia propenso a sair, mas seguiu em campo e deu sua contribuição.

Com a vitória no horizonte, o Grêmio diminuiu o ritmo e Renato logo passaria a fazer suas primeiras alterações, com Alisson e Thaciano nos lugares de Diego Tardelli e Maicon, que sentiram cãibras. Paulo Victor teria trabalho aos 26, num lance no qual o árbitro atrapalhou Leonardo e Herrera cabeceou para grande defesa do goleiro. Chance pontual contra os anfitriões, que cozinhavam a partida e administravam as situações. Já aos 36, Leonardo apareceria de novo para ser o artilheiro da noite. Outro a sair do banco, no lugar de Jean Pyerre, Rômulo puxou a tabela e passou para o lateral chutar cruzado de fora da área assinalando o terceiro. Por fim, nem mesmo o gol de Leonel Aguirre, descontando aos canallas num cochilo dos gaúchos, estragaria a comemoração na Arena. O saldo poderia ser melhor, é verdade, mas a situação já é bastante animadora em relação ao início da rodada. O Libertad também auxiliou, garantindo a vitória por 3 a 2 sobre a Universidad Católica em Santiago. A esperança ganha força.

De virtual eliminado, o Grêmio depende apenas de si para avançar na Libertadores. O que não significa uma missão simples. Na próxima rodada pega o classificado Libertad em Assunção. Depois, a decisão acontece na Arena, com o reencontro diante da Universidad Católica. Atualmente os tricolores somam quatro pontos, dois a menos que os cruzados. E mais notável que a melhora na tabela é a mudança de postura. É esse o time que a torcida espera ver. Ainda que o público nesta quarta tenha sido aquém à ocasião, os gremistas sabem que o espírito se renovou. As arquibancadas estão prontas para acolher outro “mata-mata fora de época” contra os chilenos e esperar o máximo de uma equipe que não irá se entregar à fatalidade.