O futebol se faz de circunstâncias. Sobretudo, de aproveitar as oportunidades que aparecem pela frente. O Grêmio já não podia reclamar da sorte no chaveamento das quartas de final da Copa Libertadores. Em uma edição que se caracteriza pelo sucesso dos clubes tradicionais, os atuais campeões continentais pegaram justamente a exceção. Não que o Atlético Tucumán careça de qualidades, mas era justamente o único dos concorrentes que engatinham no torneio. Havia cuidados necessários aos tricolores para encararem uma equipe bem montada e em um caldeirão, o fervilhante Estádio Monumental José Fierro. Pois na noite desta terça-feira, as circunstâncias jogaram a favor dos gremistas. O time de Renato Portaluppi superou as dificuldades iniciais, soube explorar as brechas e aproveitou os momentos oferecidos pelo jogo, liderado por Alisson. Ao final, a impressão é de que a diferença poderia até ser maior, mas não há como reclamar da ótima vitória de 2 a 0, que já garante uma vantagem confortável para o reencontro em Porto Alegre, no próximo dia 2. Circunstância ideal para participar de mais uma semifinal.

O sucesso do Atlético Tucumán nos últimos anos não acontece ao acaso. É um clube modesto, sem grandes possibilidades financeiras, em uma região menos desenvolvida que outros centros do futebol na Argentina. Contudo, o trabalho realizado pelo Decano é excelente. Mesmo perdendo jogadores importantes, o clube mantém o seu nível competitivo, graças ao encaixe de seu estilo. Teve certo destaque na última Libertadores e, na atual campanha, deixou vários clubes tradicionais pelo caminho. Além disso, vive um bom início no Campeonato Argentino. E encarando o maior jogo de sua história, precisaria tomar atitude logo de cara, diante da pulsação forte no Estádio Monumental. Não é uma equipe inventiva, mas o jogo simples dita sua força, especialmente pelas investidas aproveitando o pivô do centroavante Leandro Díaz e os avanços dos pontas. Foi a aposta.

Renato tentou se preparar às circunstâncias. Ciente do esquema de jogo do Tucumán, preferiu deixar o meio-campo com Maicon, Ramiro e Cícero – este um pouco mais adiantado. Enquanto isso, contava também com a colaboração de um trio mais leve no ataque, para tentar contragolpear com velocidade. Alisson e Everton caíam pelos lados, enquanto Luan atuava como homem de referência – uma mudança já sugerida anteriormente, entre as atuações apagadas do camisa 7 e as ausências no setor. Entretanto, os gremistas precisaram buscar o autocontrole durante os primeiros minutos. Logo de cara, o Tucumán propôs um jogo difícil aos visitantes.

A entrada dos times em campo botava pressão, entre as bandeiras tremulando nas arquibancadas e a cantoria ritmada por 35 mil vozes. O Atlético Tucumán tentou acuar o Grêmio, jogando de maneira direta e mordendo bastante a saída de bola dos adversários. Os brasileiros tinham dificuldades para passar do meio-campo, sem que a saída de bola funcionasse. Enquanto isso, os albicelestes iam espremendo os adversários e encontrando espaços, em meio a erros pontuais da defesa, mesmo de Geromel ou Kannemann. As bolas alçadas eram um perigo, apesar da imprecisão dos anfitriões na conclusão. Além disso, Marcelo Grohe precisou realizar grande defesa em cobrança de falta de Gervásio Núñez, aos 15 minutos.

A situação do Grêmio só começou a melhorar por volta dos 20 minutos no relógio. Foi quando o time teve calma para trabalhar os passes de pé em pé e se aproximar da área do Tucumán. Faltava acertar a conclusão, com Luan novamente fora do compasso, mas a própria postura mais ofensiva já evitava o sufoco. Everton era quem aparecia mais, embora uma finalização fraca e um escorregão tenham o impedido de decidir. E quando o Decano voltou a atacar, com um chute de Rodrigo Aliendro que passou perto da trave, o Tricolor responderia com o gol aos 35 minutos. Bola longa da defesa. Posicionado na entrada da área, Cícero deu um inteligente passe de cabeça. A pelota passou por todo mundo e Alisson aproveitou para se infiltrar, batendo de chapa. Garantia a vantagem inicial dos visitantes.

O Atlético Tucumán tentou responder antes do intervalo, mas sentiu o baque. E o pior não veio nem com a falta de efetividade dos albicelestes, mas sim com sua falta de controle. Gervásio Núñez já tinha entrado nos primeiros minutos, após a lesão de Ricardo Noir. Pois nos acréscimos do primeiro tempo, o camisa 10 deu um pisão em Alisson. O árbitro Wilmar Roldán mostrou apenas o amarelo de início, só que o alerta do VAR permitiu que ele mudasse de ideia e aplicasse o vermelho direto. Depois de muita confusão, o argentino saiu do campo aos berros e os anfitriões teriam que repensar sua estratégia. As possibilidades acabavam bem mais limitadas ao treinador Ricardo Zielinski.

Se o Atlético Tucumán sofria com as circunstâncias, o Grêmio aproveitou para ganhar confiança. Alguns jogadores que começaram mal a partida logo se recuperaram e passaram a acertar todas as jogadas. No miolo de zaga, Geromel e Kannemann faziam mais uma atuação imponente. E pensando melhor o jogo, o Tricolor ampliou a diferença logo aos dez minutos. O lateral Leonardo, aposta da noite na ausência de Léo Moura, deu ótimo lançamento para Alisson. O autor do primeiro gol, escolhido de última hora por Renato, avançou com liberdade à linha de fundo. De lá, cruzou para Everton fechar no meio da área e completar para as redes. Sossego mais garantido aos gremistas.

O ponto é que o Grêmio também se acomodou em certos momentos da partida e deixou o Atlético Tucumán se aproximar. Não que Marcelo Grohe fosse tão exigido, mas o recuo do time acabava sendo mais perigoso. O goleiro trabalharia em uma cobrança de falta direta de Pulga Rodríguez e teria uma saída estabanada que não trouxe prejuízos maiores, na qual a marcação não fechou direito. Ainda assim, os tricolores também criaram suas oportunidades para fazer o terceiro, especialmente depois que Thaciano e Pepê renovaram as energias para os contragolpes. Aos 42, Pepê fez uma jogadaça que quase rendeu outro tento de Everton, batendo para fora. Lamentos, mas não que fizesse falta. Os méritos eram todos gremistas para o resultado positivo.

Alisson termina a noite em San Miguel de Tucumán como o grande nome do Grêmio. O ponta cresce na temporada e fez uma partida decisiva contra o Decano. Pode não ter sido participativo ao longo dos 90 minutos, mas criou boas jogadas, aproveitou os espaços para participar de ambos os gols e, querendo ou não, teve sua influência no lance da expulsão que condicionou o duelo. Volta com moral a Porto Alegre, onde os gremistas precisam de atenção, mas não devem ter problemas para cumprir sua missão. A história dos tucumanos é bonita, mas a superioridade está do outro lado. Mesmo que o Tricolor oscile mais do que na campanha passada, a semifinal reitera o alto nível praticado pelo time de Renato.


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