O relato de uma partida de futebol costuma seguir uma narrativa linear. A sucessão dos fatos, obviamente, determina a impressão que se constrói ao final dos 90 minutos. No entanto, há ocasiões que conseguem quebrar um pouco esta lógica. São duelos que, de tão fantásticos em seus acontecimentos, dão um nó no tempo e podem romper esse fio de uma maneira não-linear. Basicamente, a impressão é de que existem vários jogos em um só. Algo que, neste domingo, torcedores em todo o país tiveram o prazer de acompanhar. Este Grêmio 4×5 Fluminense entra para a história do Brasileirão. Partidaça para ser lembrada entre as mais insanas já vistas no campeonato. Partidaça, sobretudo, atemporal.

A compreensão sobre a maneira como o Fluminense conquistou a inimaginável virada na Arena do Grêmio depende desta narrativa linear. O épico só se torna tão épico pela forma como os fatos se sucederam em Porto Alegre. É essa a impressão final nos 90 minutos. Contudo, tentar resumir esta partida a uma impressão final é perder os pequenos detalhes de sua história. É como se o último texto de um livro de contos suprimisse os demais. Neste jogo eterno de um domingo à noite, dá para desconstruir o quebra-cabeças de diferentes jeitos para valorizar o jogo um pouco mais em si, com tantas nuances.

E a impressão final do jogo é totalmente distinta, por exemplo, do que aconteceu durante os primeiros 21 minutos. A história final só se torna tão boa pela diferença que o Grêmio construiu no marcador logo de cara. Porém, a façanha do Fluminense acaba minimizando a exuberância que os gaúchos tiveram neste curto intervalo. E não se produz um placar de 3 a 0 à toa, principalmente atuando de maneira tão fluida como fizeram os gremistas. Talvez tenham sido os melhores 21 minutos desde que Renato Portaluppi retornou à clube. Afinal, os anfitriões apresentaram o máximo de sua qualidade técnica e de seu toque de bola envolvente.

O Grêmio jogava por música. Neutralizava a saída de bola do Fluminense e encadeava passes por telepatia, com cada jogador tocando a bola e já buscando o ponto futuro para atacar. Foi assim que saíram os três gols. O primeiro, a partir de um passe cirúrgico de Jean Pyerre, para que Bruno Cortês avançasse pela esquerda e cruzasse a André no meio da área. O segundo, com a visão de Léo Moura, que acionou Alisson e este passou para Éverton resolver de cabeça. Por fim, a pérola máxima. Um gol refinado, gerado pelo talento de Jean Pyerre. Tocou e recebeu, tocou e recebeu. Alisson devolveu com nojo. André, com incisividade. E a finalização por entre as pernas do goleiro Rodolfo foi o requinte de crueldade.

Neste momento, o Fluminense representava o lado destroçado da história. Muitos já bradavam pela demissão de Fernando Diniz. A estratégia do treinador não funcionou, a saída de Everaldo era sentida, os três volantes não representavam proteção. Diniz não escondia seu abatimento na beira do campo, pensativo. Mas se este é um jogo com vários jogos dentro de si, o Flu viraria o tabuleiro. O Grêmio preferiu recuar e as dores de Matheus Henrique pareceram diminuir o ritmo no meio-campo. Foi quando os cariocas acertaram os seus ponteiros.

Outra história, quebrada em duas partes, começou a ser escrita. O protagonista, chamado Yony González. O colombiano tem feito valer a sua contratação, com gols importantes pelo clube neste início de passagem. Foi ele quem deu a primeira sobrevida ao Tricolor Carioca. Caio Henrique fez o cruzamento e Luciano furou o chute, mas Yony se esticou para emendar às redes. Naquele momento, apenas descontava ao Flu. Na verdade, alterava os rumos da partida, aos 38 minutos.

E a partida só seria completamente alterada por Júlio César. O ex-goleiro do Fluminense, transferido ao Grêmio neste ano, representa mais uma parte desta história. Dois minutos depois do gol de Yony, o veterano cometeu um erro imenso diante de Luciano. Bobeou no domínio e entregou o presente nos pés do atacante. Permitiu que os cariocas encostassem no placar, prometendo outro equilíbrio de forças rumo ao segundo tempo. Jean Pyerre até tentou assinalar o quarto antes do intervalo, sem alcançar a bola na pequena área. À beira do campo, Renato cuspia marimbondos. Tinha motivos, porque o trabalho nos vestiários seria intenso. Enquanto o gremista precisaria cobrar a atitude dos jogadores, Fernando Diniz poderia injetar adrenalina nos seus.

Júlio César até pareceu disposto a escrever outra história, a da redenção. Vaiado pela torcida ao final do primeiro tempo, o goleiro começou a acumular milagres no segundo. Pegou o chute de Bruno Silva. Operou uma defesaça diante de Matheus Ferraz. Quando o zagueiro cabeceou outra bola difícil, o veterano saltou para salvar pela terceira vez. Diante de um Grêmio ainda sentindo o baque por seu erro, era ele quem segurava as pontas. Todavia, diante da pressão do Fluminense, uma hora acabou cedendo. Júlio até pegou a quarta bola, em cabeçada de Luciano. Na sobra, Matheus Ferraz não seria rechaçado. Balançou as redes e decretou o empate aos nove.

Mais do que um Fluminense ofensivo, como manda a cartilha de Fernando Diniz, era um Fluminense agressivo – o que nem sempre acontece. Os cariocas tinham presença de área e aproveitavam o jogo aéreo, mesmo encarando uma das melhores defesas do Brasil, desta vez desencontrada em Porto Alegre. A entrada de Daniel, um meia, no lugar do volante Aírton ajudou bastante nessa pressão. Renato, agora com a faca no pescoço, precisava mudar. Colocou Luan e Marinho, buscando uma nova atitude. Ao menos, um novo fôlego aos contra-ataques.

Matheus Ferraz, por si, era um personagem à parte na história. O cara que desafiou Júlio César tantas vezes e se tornou uma arma ofensiva à reação. No entanto, também compartilharia a cena com o árbitro Raphael Claus. Aos 25 minutos, um empurra-empurra na área entre Matheus Ferraz e Kannemann terminou em pênalti. Uma marcação rigorosa do juiz, discutível, que resultou na virada do Fluminense. Pedro, que saíra do banco pouco antes, assumiu a responsabilidade. Júlio César não teria o heroísmo para si, caindo ao canto errado. Se de um lado epopeia se erigia na Arena, do outro os gremistas experimentavam o gosto de uma hecatombe.

Restava tempo para reagir. Tempo suficiente para escrever uma nova história. O Grêmio tinha sentido o resultado e nem de longe esboçava a organização do começo do jogo. Em compensação, tinha um punhado de jogadores ariscos na linha de frente e que poderiam brilhar em uma jogada individual. Éverton, Luan, Marinho… Todos iam tentando. Os gaúchos também se expunham e o Flu só não marcou o quinto antes porque Júlio César operou sua quinta defesaça, diante de Pedro. Instantes depois, veio o desafogo gremista. Aos 38, Luan cobrou escanteio e Kannemann desviou de cabeça. Outra redenção particular, após a penalidade contestável do outro lado.

O empate seria o melhor a um jogaço desses? Talvez, para valorizar cada lado da história. Porém, a partida só foi tão boa porque ambos os times queriam tanto a vitória. Porque se alternaram na postura ofensiva e na sede pelos gols. O final pendia ao Grêmio. Rodolfo também pegaria um pedaço da narrativa para si. O goleiro, herói na Copa do Brasil, se agigantou para evitar uma nova virada. Fez duas defesaças, em chutes de Luan e Marinho. Contou com a sorte, quando André se esticou e não pegou em cheio na bola. E viu Raphael Claus negar um pênalti aos gremistas, após conferir no vídeo. O tempo regulamentar se aproximava do fim e o placar parecia petrificado.

Mas lembra que Yony González teria sua história dividida em duas partes? Pois então. Aos 46 do segundo tempo, enfim, o colombiano providenciou o grand finale à noite de gala. A zaga não afastou completamente o cruzamento. A bola sobrou limpa ao ponta. Ele matou no peito e soltou o balaço. Ainda contou com o desvio de Léo Moura, antes de estufar as redes. Júlio César não pegaria desta vez. O começo exuberante do Grêmio e o abafa do final terminaram encobertos. Prevaleceu a garra do Fluminense e a imposição para acreditar até o último dos instantes. Entretanto, em uma partida de futebol não-linear, as histórias não se atropelam. Elas se entrelaçam, cada uma em si, para serem ressaltadas conforme os caprichos da memória ou à preferência do torcedor. Para, com diferentes visões, reconstruírem um jogo antológico – vários em um só, este de 90 minutos.

Outro caso notável de partida não-linear no Brasileirão é aquele Santos 4×5 Flamengo – ou o Fluminense 5×4 Grêmio do mesmo ano. Há vários recortes para o mesmo épico. E, ao futuro, pouco importará as consequências do jogo deste domingo no Brasileirão ou os reflexos disso numa semana importante. É um embate que vale por si. Que vale por seus personagens, que vale por seus momentos, que vale por seus desenlaces. Vale, especialmente, pela mentalidade ofensiva incutida em ambos os times – capaz das reviravoltas e das transmutações em 90 minutos. Grêmio e Fluminense quiseram, e por isso fizeram tanto, apesar dos baques. Mas, ao final, é o Flu quem poderá recontar o lado vitorioso da história.