O River Plate construiu o ciclo mais vitorioso do futebol sul-americano na década. Desde 2014, a lista de títulos dos millonarios inclui duas Copas Libertadores (na briga pela terceira), uma Copa Sul-Americana, um Campeonato Argentino e duas Copas Argentinas (também na mira da terceira). Marcelo Gallardo é o protagonista desse sucesso, ausente apenas no título nacional sob as ordens de Ramón Díaz. No entanto, é importante ter em vista que as glórias do clube não são fruto apenas de uma continuidade. Na verdade, o maior mérito de Gallardo é justamente o de reinventar o River sucessivas vezes desde então. Segurar jogadores na América do Sul não costuma ser fácil. O treinador prova como é possível sustentar a competitividade, mesmo encarando as necessárias mudanças.

Gallardo possui méritos inegáveis nesta reconstrução contínua do River Plate. Um deles é não se apegar a determinados nomes para formar a espinha dorsal de sua equipe. Há, claro, jogadores que seguiram durante a maior parte do ciclo – Leonardo Ponzio é o único remanescente da final da Sul-Americana de 2014. Mas não existe ninguém indispensável, e o privilégio ao momento dos atletas contribui à força dos millonarios. Acima do dinheiro para trazer bons jogadores, Gallardo também possui um bom olhar para achados. Não são poucos os protagonistas de seu time que subiram de patamar em Núñez. E, claro, há um cuidado especial com as categorias de base. Prata da casa formado no Monumental, Gallardo dedica uma atenção especial às fornadas que seguem surgindo por lá.

O time atual do River Plate é o melhor exemplo desta mescla. O elenco possui jogadores que vieram mais tarimbados (Enzo Pérez, Armani), nomes que não eram tão valorizados (Matías Suárez, Casco) achados no mercado (De la Cruz, Nacho Fernández), promessas recuperadas (Quintero, Santos Borré) e pratas da casa (Palacios, Martínez Quarta). Não dá para dizer que existe uma filosofia que oriente o mercado. Da mesma forma que, apesar da base principal, os millonarios possuem uma equipe principal mais difusa. A troca de peças é mais constante, sem grandes pesares. Gallardo demonstra como seu trabalho é amplo e a confiança está no conjunto.

Gallardo possui premissas básicas para a manutenção dessa força. Uma delas é priorizar apenas jogadores com as melhores condições físicas e técnicas. Histórico não é suficiente neste River Plate, nem mesmo o peso decisivo em jogos anteriores da mesma competição. A intensidade exibida nos treinos é importante na disputa por um lugar no time titular. A concorrência molda o que acontece nos jogos. Uma ideia de alto nível linear que se viu em outros esquadrões históricos, como o Liverpool de Bob Paisley.

Estar nas melhores condições é fundamental para o River Plate imprimir o estilo de jogo exigido por Gallardo. É uma equipe que se pauta pela intensidade sem a bola, com pressão alta, e pela agressividade com ela, quebrando linhas com os passes – embora nos últimos tempos os millonarios demonstrem uma capacidade maior para administrar a posse de bola diante de defesas mais fechadas. Ainda assim, não deixa de ser um time extremamente capaz de maltratar os adversários em avanços mais rápidos. Para tanto, o meio-campo é chave ao atual momento do River. Embora o ataque possua jogadores mais badalados e um leque maior de opções, é no meio que os argentinos fundamentam seu jogo.

Enzo Pérez é o único medalhão do setor, na cabeça de área. Exequiel Palacios e Nicolás de la Cruz são dois garotos de muito dinamismo, com boa chegada mais à frente. Nacho Fernández, por sua vez, gasta a bola com sua canhota e dita o ritmo das partidas. É um jogador que cresceu bastante nos últimos meses, especialmente por sua participação ofensiva. De qualquer maneira, sempre valeu bastante no elenco de Gallardo, por sua qualidade técnica.

O River Plate não costuma se prender a formações táticas. Gallardo tem o hábito de moldar a disposição dos atletas conforme as alternativas em melhor forma. Os millonarios contaram com diversas transformações nestes cinco anos e não surpreende quando o treinador mexe na própria formação em caso de lesão. É algo que pode acontecer com o retorno gradual de Juan Fernando Quintero, outro nome brilhante do plantel, que arrebentou na final da Libertadores de 2018. O colombiano vivia a melhor fase da carreira quando se machucou no primeiro semestre. É uma peça com características específicas e que serve de reforço ao duelo em Lima.

Gallardo mantém uma característica decisiva de seus tempos como jogador em sua carreira como técnico: a capacidade em ler o jogo rapidamente e antever os rumos da partida. Segundo relato do Clarín, seus próprios assistentes se surpreendem pela maneira como ele se antecipa aos dados trazidos pelos analistas. E essa inteligência, obviamente, influencia de forma direta a maleabilidade apresentada pelo River Plate dentro de campo. Explica muito bem o sucesso do técnico em jogos decisivos e competições grandes, nas quais a tomada de decisões precisa ser mais incisiva e imediata.

Não quer dizer, contudo, que Gallardo é um mero obcecado pelo jogo. Ele valoriza a parte humana de sua equipe, sobretudo. É um equilíbrio que se atinge também por seu tato no trato com os jogadores. Diferentes ex-comandados enfatizam como a franqueza é uma virtude de Muñeco – a sensibilidade de olhar no olho, se preocupando com aspectos psicológicos e emocionais. O treinador, além do mais, avalia também a personalidade como algo primordial em suas contratações. Faz questão de ter uma conversa tete a tete com seus atletas antes de fechar negócio. Assim também fortalece um grupo com espírito vencedor e com propensão a sempre chegar longe nos mata-matas.

Essa troca Gallardo mantém também com as categorias de base. O treinador faz questão de integrar o processo e participar da gestão dos garotos, especialmente os mais próximos de subirem ao profissional. A quem fez o mesmo caminho para chegar ao time profissional e conquistar uma Copa Libertadores com os millonarios, nada mais natural que valorizar tal atenção exclusiva às promessas. Mesmo nas conquistas, Muñeco faz questão que os mais jovens integrem a festa, sobretudo aqueles que já estão à beira do campo auxiliando como gandulas.

É um ambiente propício a manter a ideia de jogo e a força do time, o que cria a confiança dos jogadores mesmo com as seguidas renovações. Mais do que isso, sustenta uma mentalidade favorável mesmo entre aqueles que chegam depois ao grupo. Três finais de Libertadores em cinco anos não é pouco, especialmente na sequência de um descenso à segunda divisão nacional. Gallardo é a parte final de uma reconstrução exitosa que superou o próprio passado do River nas competições internacionais.

Tal força mental não é transmitida apenas por conversa ou por escolhas, claro. O River Plate emprega seus recursos no cuidado psicológico do elenco. E o mais interessante é que os métodos empregados não se restringem apenas ao trabalho emocional. Eles também ajudam nas próprias ações dos atletas dentro de campo. Os millonarios aplicam métodos de neuroplasticidade, que auxiliam a aumentar o nível de atenção, a visão periférica e o tempo de reação. Jogadores mais bem preparados também estão mais aptos a dar uma resposta instantânea dentro de campo.

Todo o contexto, ainda assim, depende de premissas básicas. E elas estão expressas nos vestiários utilizados pelo River Plate dentro do Monumental: “con trabajo y humildad ganamos todos” é o mote pintado nas paredes do local. Gallardo não só personifica tal lema, como também precisa incorporá-lo. E a reunião desses predicados dentro do convívio diário em Núñez tem grande parte no que se nota dentro de campo. Independentemente do resultado contra o Flamengo, este River está na história.