Antes que a bola rolasse para a decisão da Champions League, a análise sobre a final muitas vezes era individualizada. Robert Lewandowski e Neymar eram duas grandes figuras a se enfrentar em Lisboa, mas nenhum deles seria tão preponderante durante os 90 minutos. O papel de herói coube a Kingsley Coman, que fez a leitura perfeita do lance e desferiu uma cabeçada indefensável a Keylor Navas. O lance decisivo no triunfo por 1 a 0, entretanto, passa por muitas virtudes deste Bayern de Munique. Detalhes que se combinaram e fizeram toda a diferença. Toda a beleza.

Foram nove passes até que o arremate acontecesse pelo lado esquerdo da área. O lance apresenta a segurança dos bávaros na construção de jogo a partir da defesa, a visão de Thiago Alcântara para acelerar o avanço, o papel de Kimmich também na armação como lateral e a inteligência de Thomas Müller para condicionar os espaços ao seu redor. Coman teve o papel de definir, ao aparecer livre no segundo pau. Uma engrenagem que girou perfeitamente até a conclusão do ponta.

O início da jogada se dá entre triangulações feitas no campo defensivo. A bola passa pelos pés de Alaba, Neuer, Goretzka e Davies para tentar aliviar a pressão inicial do PSG na marcação. Neste ponto, vale destacar a participação de Neuer. O goleiro foi muito ativo ao longo da noite, não apenas por suas defesas. Tantas vezes foi acionado para evitar o abafa parisiense e iniciar a distribuição. Goretzka, por exemplo, daria apenas seis passes a mais que o arqueiro ao longo da final. E, por mais que tenha precisado rifar alguns lances, o craque de luvas foi bem demais neste papel com a bola nos pés.

O avanço clareia nos pés de Thiago Alcântara. O espanhol sai de campo como uma das grandes figuras do Bayern nesta decisão, para muitos o melhor jogador da partida. Como já tinha feito nos encontros anteriores, construiu o jogo com uma precisão imensa e aliviou o aperto que o PSG dava. A classe do camisa 6 em Lisboa ficará marcada na memória, senhor do meio-campo ao longo da noite. E não há nenhum lance que represente melhor este papel que a bola espetada a Kimmich. O lançamento rasteiro rompe duas linhas de marcação e permite aos bávaros pegarem a defesa desmontada.

Kimmich recebe. E, nesta reta final da Champions, o alemão voltou a se provar como um dos melhores laterais do mundo – mesmo deslocado para o lado direito apenas provisoriamente, com a lesão de Benjamin Pavard. A armação dos bávaros muitas vezes começa pelo jovem, com seus passes caprichados e a capacidade para mandar a bola no ponto exato do campo que vier em sua imaginação. Neste início de jogada, o camisa 32 acionou rapidamente Serge Gnabry na lateral e pôde se deslocar um pouco mais ao centro – como um meio-campista, não como um assessor de ponta.

A final não foi a melhor atuação de Gnabry nesta Champions, mas o ponta deu fluidez ao avanço, logo olhando para a área e passando de primeira. Neste momento, quem aparece é Thomas Müller. Em velocidade, o meia ataca o espaço e puxa consigo a defesa do PSG – 0 Raumdeuter em mais uma lição. Três jogadores o cercavam e isso desmontou todo o posicionamento da última linha parisiense. Na dividida, o alemão consegue escorar o pivô. Deu um toquezinho de direita, quando seu corpo já passava pela bola. Assim garantiu tempo o suficiente para Kimmich dominar e engatilhar a assistência.

Dos seis defensores do PSG na área, cinco ocupam o lado esquerdo de Navas. Lewandowski ficou à espreita na marca do pênalti, enquanto Coman também se aproximou para esperar o cruzamento no segundo pau. Thilo Kehrer ficou perdido no meio de ambos e escolheu acompanhar Lewa – o óbvio, quando o melhor centroavante do mundo está ao seu lado. Fez exatamente o que Kimmich queria, e então vem outro detalhe magistral na jogada. Dá gosto de ver um lateral que cruza tão bem e aproveita a fresta para decidir. Foi a bola que todo atacante pede, caindo no ponto certo e com uma curva para dentro. Coman, então, seguiu o manual da cabeçada indefensável.

O francês finalizou com tamanha liberdade por todo o processo que permitiu o surgimento daquela brecha na área do PSG. A testada saiu cruzada e em direção ao chão, com a qualidade necessária para vencer um goleiraço com Keylor Navas – e que vinha pegando muito até então. Se fosse necessário, ainda havia Goretzka entrando livre na área e atento para escorar qualquer rebote. Exceção feita a Süle, todos os homens do Bayern tiveram um mínimo de influência na construção do lance.

A perfeição deste Bayern vem da qualidade individual de tantos jogadores, tão bem engendrada coletivamente por Hansi Flick. Que o título tenha um herói e que a campanha tenha um protagonista, a conquista se faz possível pela forma encantadora como este Bayern vem atuando em equipe. Há precisão, há inteligência, há velocidade, há senso coletivo. Foi o melhor time indiscutivelmente nesta Champions e mereceu como raros o troféu. Com um gol que, analisado em detalhes, enfatiza mais a sinfonia desta orquestra.