Quando o coronavírus parecia um mal distante à maior parte do mundo e cada um mantinha seu acelerado ritmo costumeiro, Haaland estourava nas manchetes esportivas. O centroavante era o assunto em fevereiro, anotando gols com a facilidade de quem aperta as mãos ou dá um abraço. A realidade se transformaria pouco depois e aquele vendaval provocado pelo norueguês em campo, após tantas notícias pesadas e tanta preocupação, já parecia relegado a um passado distante. No entanto, bastou a Bundesliga voltar para Haaland balançar as redes novamente. Ainda que o pesadelo não tenha se encerrado, o artilheiro recobrava um pouco de senso de normalidade ao planeta.

As incertezas permanecem, mas o Campeonato Alemão retornou neste sábado. E, apesar dos riscos discutidos na própria Alemanha, Borussia Dortmund e Schalke 04 ofereceram um pouco de distração no esvaziado Signal Iduna Park. Foi um clássico diferente, claro, condizente a um mundo que não voltará a ser o mesmo tão cedo. Ainda assim, a goleada por 4 a 0 dos aurinegros retoma um pouco da rotina. Haaland anotou seu décimo gol na Bundesliga, embora os destaques tenham sido outros. Brandt orquestrou o BVB na armação, enquanto Hakimi e Guerreiro arrebentaram com os Azuis Reais nas alas.

“É estranho, especialmente por ser um dérbi sem torcida. Seu coração sangra. Se nossos torcedores não estão aqui, se a Südtribune não está aqui, precisamos de um nível mais alto de automotivação para ter sucesso. Mas acredito que todos estão felizes por jogarem futebol novamente e fazerem seu trabalho”, avaliou Michael Zorc, diretor esportivo do Dortmund. De fato, o clima no Signal Iduna Park estava distante de indicar um clássico. As equipes se dividiram em vários ônibus no trajeto ao estádio. O reconhecimento do campo aconteceu com máscaras. A entrada dos times se deu pouco antes do apito inicial, sem qualquer cerimônia ou cumprimento. E o vazio nas arquibancadas, sem dúvidas, provocava o maior impacto.

O Dortmund voltou da paralisação com desfalques. Marco Reus, Emre Can e Axel Witsel se recuperam de lesões. Lucien Favre também optou por deixar Jadon Sancho no banco e iria começar com Giovanni Reyna na ponta, mas o americano sentiu um problema físico durante o aquecimento, substituído por Thorgan Hazard. O Schalke 04, pelo contrário, aproveitou a pausa para recuperar alguns atletas. Salif Sané estava de volta ao miolo de zaga após seis meses de ausência, assim como Suat Serdar retornava ao meio. Já no gol, a opção foi mais uma vez por Markus Schubert, com Alexander Nübel barrado desde antes da parada.

O clássico começou como se aguardava, com a iniciativa do Borussia Dortmund. O Schalke marcava alto e tentava bloquear as subidas dos rivais, mas os aurinegros conseguiam imprimir certa velocidade e tinham seu escape principalmente pela direita, com Achraf Hakimi. A primeira chance veio dos pés de Erling Braut Haaland. O centroavante invadiu a área acelerando, mas Schubert abafou a bola. Quando os Azuis Reais tentaram responder, não bateram bem uma falta frontal e ainda permitiram o contragolpe, que Hazard isolou.

Era um clássico com pegada, mas não exatamente com a intensidade que se espera. Apesar da iniciativa do Dortmund, a zaga do Schalke afastava a bola de sua área. As equipes passaram a encontrar mais espaços por volta dos 25 minutos. Haaland seguia representando o principal perigo e, numa sequência de bolas na área, acertou o lado de fora das redes. Os Azuis Reais tiveram um chegada logo depois, mas Roman Bürki evitou que Daniel Caligiuri aproveitasse o cochilo da zaga. Até que, com méritos, os aurinegros inaugurassem o marcador.

O primeiro gol do jogo (e da volta da Bundesliga) saiu aos 29 minutos. Numa troca de passes a partir da defesa, Julian Brandt recebeu de Lukas Piszczek e deu um toquezinho de calcanhar. Com a jogada inteligente, o alemão habilitou Hazard, livre na ponta direita. O belga cruzou de primeira e, sem que a zaga conseguisse cortar, Haaland só escorou para dentro. O artilheiro norueguês parecia recolocar a Terra um pouco mais nos eixos, mas a distância na comemoração relembrava a realidade.

O gol revigorou o Dortmund, que ganhou confiança e passou a se impor ainda mais no campo de ataque. Os alas seguiam apoiando bastante e Hakimi quase permitiu que Raphaël Guerreiro ampliasse, com a finalização para fora. Brandt encontrava as brechas na armação e quase serviu Hakimi, travado na hora de arrematar. Mahmoud Dahoud ainda teve sua tentativa afastada por Salif Sané, até que o segundo gol acontecesse aos 45. O goleiro Schubert saiu jogando errado e entregou a bola de graça no meio para os rivais. O contragolpe foi fulminante: Dahoud passou a Brandt, que deu uma enfiada precisa. Livre na esquerda, Guerreiro não perdoou, com um chute cruzado que acertou o canto da meta.

O Schalke voltou ao segundo tempo com duas alterações. David Wagner se valeu do aumento no número de substituições e colocou em campo Rabbi Matondo e Guido Burgstaller, com as saídas de Benito Raman e Jean-Clair Todibo. Todavia, os Azuis Reais mal tiveram tempo de mostrar os efeitos de sua mudança tática. Com os visitantes esboçando uma postura mais agressiva, o Dortmund praticamente matou o jogo em mais um contra-ataque. O terceiro gol veio aos três minutos: Caligiuri perdeu a bola na entrada da área adversária, dando campo para os aurinegros arrancarem. Haaland lançou no meio, para Brandt na esquerda. O meia deu mais uma assistência, encontrando Hazard. O belga soltou o pé e Schubert também colaborou.

Com a vantagem estabelecida, o Dortmund se sentiu mais confortável em recuar para a defesa e permitir que o Schalke tivesse mais a bola. Os visitantes eram insistentes, mas não criavam oportunidades tão claras. Quando precisava trabalhar, Bürki mantinha a situação sob controle e fez sua principal intervenção em lance de Burgstaller. Os aurinegros esperavam apenas um deslize dos rivais para ampliar mais o placar. Foi o que aconteceu aos 18, em novo contragolpe iniciado por Brandt. Guerreiro tabelou com Haaland e, com a zaga aberta, recebeu livre na área. O português dominou e bateu cheio de estilo, para tirar do alcance de Schubert.

A partida ficou mais arrastada depois disso. O Schalke tentava descontar, mas sem qualidade em suas conclusões. O Dortmund desacelerou do outro lado. Os dois treinadores passaram a acionar bastante o seu banco de reservas e David Wagner realizou quatro alterações em meia hora, enquanto Lucien Favre deu minutos em campo a Jadon Sancho. Haaland até poderia fazer mais um, mas não chegou a tempo de concluir o cruzamento de Hakimi. Num final de clássico sem muitas emoções, mal houve necessidade de acréscimos. Após o apito final, os jogadores aurinegros cumpriram seu ritual de aplaudir diante da Muralha Amarela, em homenagem bem mais direcionada a quem trabalhou no estádio ou viu o clássico de casa.

O Dortmund abre a rodada mantendo a segunda colocação. Os aurinegros chegam aos 54 pontos, um a menos que o líder Bayern de Munique – que visitará o Union Berlim neste domingo. Além disso, o resultado serviu para abrir vantagem sobre o RB Leipzig, três pontos atrás após empatar com o Freiburg. Já o Schalke, em péssima sequência desde antes da paralisação, caiu para a oitava colocação. Soma 37 pontos, ultrapassado por Wolfsburg e Freiburg na tabela. Sua briga é pela Liga Europa.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore