O Nacional de Montevidéu oferece recordações agridoces ao torcedor do Internacional. Os mais velhos certamente ressentem aquele gol de Waldemar Victorino, justo quando os colorados estavam próximos de tocar os céus da América pela primeira vez. A derrota na decisão da Libertadores de 1980 não apenas privou o clube do título continental, como também marcou o adeus de Falcão rumo ao seu reinado em Roma. A espera pelo reencontro na Libertadores durou 26 anos. E até aconteceram dois jogos pela fase de grupos, mas a alma vingadora do Inter somente se satisfez nas oitavas de final. A revanche tinha um nome: Wason Rentería, que iniciou a virada no Gran Parque Central com um gol antológico e incutiu ares lendários logo ao primeiro mata-mata dos colorados durante a conquista do continente em 2006. Uma memória que volta à tona, diante do novo embate com os uruguaios em Montevidéu.

A Libertadores de 2006 garantiu os primeiros jogos oficiais entre Inter e Nacional desde a final continental de 1980. Qualquer mágoa dos colorados foi extravasada logo na abertura do Grupo 6, dentro do Beira-Rio, quando o time de Abel Braga atropelou seus algozes por 3 a 0. Fernandão, Rubens Cardoso e Michel Neves anotaram os gols naquela noite. Na partida de Montevidéu, prevaleceu o empate por 0 a 0, que não apenas encaminhou a classificação segura dos brasileiros, como também ajudou os uruguaios a passarem de fase sob certos apertos. E quis o destino que os dois oponentes se encarassem outra vez nas oitavas de final. Dono da segunda melhor campanha na fase de grupos, o Inter pegaria o Nacional, antepenúltimo entre os vice-líderes de chave.

Assim, o batismo de fogo do Internacional na Libertadores que acabaria conquistando ocorreu dentro do Gran Parque Central, o estádio mais antigo do continente. O Nacional de Martín Lasarte não tinha exatamente um time intimidador, mas alguns jogadores prosperariam no futebol – incluindo um atacante imberbe que saiu do banco naquela partida, um tal de Luis Suárez. Todavia, o alvo dos olhares colorados estava na defesa – não por qualidade, e sim por receio ao sobrenome. Filho de Waldemar, o antigo carrasco, Mauricio Victorino compunha a zaga tricolor.

Do outro lado, Abel Braga contava com a espinha dorsal que conquistaria o continente e o mundo. Fernandão estava lá, assim como todos os outros os próceres do ano glorioso do Internacional – de Clemer a Rafael Sóbis, de Bolívar a Alex e, claro, Adriano Gabirú, titular contra os uruguaios, mesmo que o talismã do momento fosse outro. A imposição durante a fase de grupos jogava o favoritismo sobre os brasileiros. De qualquer maneira, a camisa do Nacional se respeita e, em tempos nos quais a América ainda era uma terra virgem aos colorados, os cuidados eram óbvios.

O alerta se tornou mais pertinente quando o Nacional abriu o placar, aos 29 minutos. Marco Vanzini subiu mais que a defesa e completou a cobrança de escanteio com uma cabeçada no meio do gol, que Clemer aceitou. O goleiro se redimiria para evitar o segundo tento dos anfitriões, antes que Jorge Wagner recobrasse o ânimo do Inter nos acréscimos do primeiro tempo. O lateral cobrou falta com maestria e, bola nas redes, aumentou a confiança dos visitantes rumo ao intervalo. Isso até que Rentería entrasse na volta à etapa complementar. O colombiano mudou não apenas a história do jogo, mas também garantiu aquela virada entre os grandes capítulos dos livros colorados.

Às vésperas de completar 21 anos, Rentería já conquistara a torcida do Internacional. Misturava lampejos brilhantes com a picardia de quem mais parecia um menino disposto a causar alvoroço dentro de campo. As comemorações de seus gols imitando o Saci, acima da referência ao mascote colorado, sugeriam também uma pincelada de literatura à mais pura boleiragem. E foi para aprontar que Rentería substituiu Rafael Sóbis no segundo tempo em Montevidéu. O atacante colocou fogo em um jogo que era suficientemente quente, sobretudo depois que uma bomba estourou próxima a Clemer. Ânimos apaziguados, porém, seria o colombiano a zumbizar os ouvidos e a embaçar os olhos dos uruguaios. Ia puxando os contra-ataques e criando oportunidades ao Inter, até que a obra de arte acontecesse aos 19 do segundo tempo. O lance que botou Rentería de vez no coração dos torcedores.

Após o lançamento de Clemer, a bola pipocou no ataque, até Fernandão passá-la de cabeça. Rentería recebeu na entrada da área e deixou que a grama amortecesse a pelota, tempo certo para que o defensor se apressasse ao abafa. Foi quando o colombiano, num acesso de genialidade, deu um chapéu arrojado sobre o marcador. O adversário ficou no vácuo e, com o gol enorme à sua frente, o atacante conseguiu ser ainda mais espetacular. Complementou a peripécia sem deixar a bola cair e, de perna trocada, acertou um canhotaço de primeira na gaveta do goleiro Jorge Bava. Um gol libertador ao Inter, que realmente só se tornou completo diante da dancinha incontrolável do cafetero na comemoração – sem a compreensão do compatriota Óscar Ruiz, que mostrou o cartão amarelo, e muito menos dos enraivecidos torcedores tricolores nas arquibancadas.

A história daquela partida, contudo, não terminaria no gol que sacramentou a vitória por 2 a 1. Possessos, os uruguaios passaram a provocar Rentería. O atacante seria expulso 12 minutos depois, ao atrapalhar uma cobrança de falta do Nacional. A ausência do protagonista aumentou a dramaticidade da noite. Para tentar fechar a casinha, Abelão tirou Alex e reforçou a zaga com Ediglê. Como se o sofrimento não bastasse, o zagueiro cometeu uma falta duríssima em Luis Suárez logo de cara e recebeu o vermelho direto. A partir dos 37 minutos, os colorados precisaram se defender com apenas nove homens. Ao apito final, o épico estava eternizado.

Uma semana depois, o jogo de volta aconteceu no Beira-Rio. Ao Internacional, caberia segurar o resultado. O empate por 0 a 0 confirmou a classificação, com suas doses de nervosismo. O Nacional teve dois gols anulados durante a partida, o primeiro por um impedimento inexistente (mas de difícil marcação) e o segundo por uma falta sobre Clemer que apenas o árbitro viu. Além do mais, a pressão inicial dos colorados arrefeceu e o segundo tempo se transformou em um ranger de dentes, diante da correria que prevalecia. Por fim, o preparo físico dos gaúchos pesou e eles até poderiam ter aberto o placar nos instantes derradeiros. No entanto, mais importante que a vitória era a classificação, passo essencial na jornada que terminou com a taça erguida por Fernandão.

Até houve um reencontro de Inter e Nacional na Libertadores em 2007, mas longe da mesma relevância. Também pela fase de grupos, os dois times fizeram sua parte em casa. O Bolso ganhou por 3 a 1 em Montevidéu, enquanto Fernandão anotou o gol no triunfo por 1 a 0 em Porto Alegre. Aquele resultado seria insuficiente aos colorados, eliminados justamente pelos uruguaios no saldo de gols. Mas esta é uma lembrança menor. A imagem flamante de Rentería é muito mais viva e certamente rondará a área do Gran Parque Central nesta quarta-feira. É nos mata-matas que o caráter se forja na Libertadores.